Um estudo internacional sugere que probióticos podem ajudar a reverter alterações cerebrais provocadas pelo consumo de junk food durante a infância. A pesquisa indica que uma alimentação rica em gordura e açúcar nos primeiros anos de vida deixa marcas duradouras nos circuitos do cérebro responsáveis por regular fome e saciedade — efeitos que podem persistir até a vida adulta, mesmo após a normalização do peso.
O trabalho, publicado na revista científica Nature Communications, foi conduzido por pesquisadores do centro APC Microbiome Ireland, da University College Cork (Irlanda). Os cientistas observaram que uma cepa específica de bactéria probiótica, a Bifidobacterium longum APC1472, combinada a fibras prebióticas, foi capaz de restaurar comportamentos alimentares considerados saudáveis em camundongos expostos a uma dieta semelhante à ocidental no início do desenvolvimento.
Os animais receberam inicialmente uma alimentação rica em gordura e açúcar. Depois, passaram a consumir uma dieta padrão e voltaram ao peso normal. Ainda assim, continuaram apresentando maior ingestão de alimentos e preferência por comidas mais palatáveis, mostrando que a dieta precoce havia alterado permanentemente seus padrões alimentares.
Análises do cérebro revelaram mudanças duradouras no hipotálamo, região responsável por controlar fome e saciedade. As alterações foram diferentes entre os sexos: fêmeas apresentaram mais de 5 mil genes modificados, enquanto machos tiveram cerca de 1,8 mil. Mudanças também foram observadas nos metabólitos circulantes e na composição da microbiota intestinal.
Os pesquisadores então testaram duas intervenções ao longo da vida dos animais: o probiótico B. longum APC1472 e uma combinação de fibras prebióticas — fruto-oligossacarídeos e galacto-oligossacarídeos — presentes naturalmente em alimentos como cebola, alho, alho-poró, aspargos e banana.
O probiótico mostrou melhora significativa no comportamento alimentar mesmo sem grandes alterações no microbioma, sugerindo um efeito mais direcionado. Já as fibras promoveram mudanças mais amplas na microbiota intestinal e restauraram vias intestino-cérebro de forma diferente entre machos e fêmeas.
Segundo a pesquisadora Harriet Schellekens, responsável pelo estudo, atuar sobre as bactérias intestinais pode reduzir efeitos de longo prazo causados por dietas inadequadas na infância.
Os resultados ganham relevância diante do aumento global da obesidade infantil. Relatório do UNICEF de 2025 estima que 188 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivem com obesidade no mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a prevalência global subiu de 2% em 1990 para 8% em 2022.
A cepa probiótica também já apresentou resultados promissores em testes clínicos com humanos adultos com sobrepeso, reduzindo glicemia de jejum e normalizando hormônios ligados à fome e ao estresse.
Agora, os pesquisadores investigam se intervenções precoces baseadas na microbiota intestinal podem se tornar estratégia futura no combate à obesidade infantil.
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