Alterações na estrutura do cérebro podem aparecer vários anos antes de exames identificarem níveis elevados de beta-amiloide, uma das proteínas associadas à doença de Alzheimer. A descoberta foi apresentada em um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Nature Neuroscience e pode ajudar a ampliar a compreensão sobre as primeiras mudanças relacionadas à doença.
A pesquisa foi realizada por uma equipe internacional que analisou dados de três grupos de adultos cognitivamente saudáveis acompanhados ao longo de vários anos. Ao todo, foram avaliados 4.570 exames de ressonância magnética de 1.051 pessoas, além de 1.684 exames de PET usados para identificar a presença de beta-amiloide em parte dos participantes.
Os pesquisadores concentraram a análise em pessoas que inicialmente apresentavam baixos níveis da proteína, mas que posteriormente passaram a apresentar concentração elevada de beta-amiloide detectável pelo PET. A intenção era descobrir se alguma mudança na estrutura cerebral poderia ser observada antes desse aumento.
Córtex mais espesso antes do aumento da proteína
Os resultados mostraram que as pessoas que posteriormente passaram a apresentar positividade para beta-amiloide tinham um córtex cerebral relativamente mais espesso e apresentavam uma redução mais lenta dessa espessura ao longo do tempo.
A diferença foi identificada em exames de ressonância realizados pelo menos sete anos antes de os participantes atingirem níveis de beta-amiloide considerados positivos no PET. Em algumas análises, os resultados permaneceram mesmo depois que os pesquisadores levaram em conta as concentrações quantitativas da proteína.
O achado chama atenção porque a sequência mais conhecida dos biomarcadores relacionados ao Alzheimer costuma considerar que alterações ligadas à beta-amiloide aparecem antes de mudanças estruturais que possam ser identificadas pela ressonância magnética.
O novo estudo, porém, sugere que determinadas alterações na espessura do córtex podem surgir antes da detecção de níveis elevados da proteína pelo PET.
Isso não significa, entretanto, que um córtex mais espesso seja um sinal de Alzheimer ou que a característica possa ser utilizada atualmente para diagnosticar a doença.
Como o estudo foi realizado
Para chegar aos resultados, os pesquisadores acompanharam as mudanças na espessura cortical ao longo do envelhecimento e compararam participantes que posteriormente apresentaram positividade para beta-amiloide com aqueles que permaneceram com níveis baixos da proteína.
Os dados vieram de três grupos de pesquisa: o Center for Lifespan Changes in Brain and Cognition, na Noruega; o Berkeley Aging Cohort Study, nos Estados Unidos; e participantes cognitivamente saudáveis do Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative.
Nas análises, também foram considerados fatores como idade, sexo, tamanho intracraniano, grupo de pesquisa e características dos equipamentos utilizados nos exames.
Os cientistas observaram ainda que as regiões do cérebro onde apareciam as diferenças na espessura cortical apresentavam alguma correspondência espacial com áreas que posteriormente foram associadas ao depósito de beta-amiloide.
O momento em que essas alterações estruturais apareciam também apresentou relação, em parte, com a progressão do acúmulo da proteína.
Uma possível mudança na compreensão do Alzheimer
Para os autores, os resultados indicam que o processo cerebral relacionado ao Alzheimer pode ser mais complexo do que uma sequência linear em que a beta-amiloide aparece primeiro e as alterações estruturais surgem somente depois.
Uma das hipóteses levantadas é que possa existir uma fase inicial em que o acúmulo de beta-amiloide esteja relacionado a um aumento relativo da espessura do córtex ou a uma redução mais lenta do afinamento natural provocado pelo envelhecimento.
Em fases posteriores, outras alterações, incluindo aquelas relacionadas à proteína tau, poderiam estar associadas a um processo mais intenso de perda de tecido cerebral.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que ainda são necessários novos estudos para entender exatamente o que provoca essas mudanças e qual é a relação entre a espessura do córtex, o acúmulo de beta-amiloide e os demais processos envolvidos na doença.
O principal resultado da pesquisa é que determinadas mudanças na estrutura do córtex podem ser observadas anos antes de a positividade para beta-amiloide ser identificada pelo PET. A descoberta amplia o conhecimento sobre os eventos que podem anteceder as fases mais reconhecíveis do Alzheimer, mas ainda não representa, por si só, um método clínico para prever ou diagnosticar precocemente a doença.
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