O perfil religioso do eleitor brasileiro aparece como um dos elementos que ajudam a explicar as diferenças de preferência entre os candidatos à Presidência na eleição de 2026. Um levantamento do Real Time Big Data identificou comportamentos distintos entre católicos e evangélicos, mostrando que os dois grupos apresentam cenários diferentes na disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Entre os entrevistados que se declararam evangélicos, Flávio registrou 52% das intenções de voto, enquanto Lula apareceu com 31%. No grupo católico, a situação se inverteu: o petista teve 49%, contra 33% do candidato do PL.
O levantamento ouviu 2 mil eleitores entre os dias 26 e 30 de setembro e possui margem de erro de dois pontos percentuais para o conjunto da amostra.
Brasil passa por transformação no perfil religioso
A diferença observada na pesquisa ocorre em um país que vem passando por mudanças importantes na composição religiosa da população.
Dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 56,7% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declararam católicos. Os evangélicos representaram 26,9% desse grupo.
Em 2010, os percentuais eram de 65% para os católicos e 21,7% para os evangélicos. Os números mostram uma redução da proporção de católicos ao mesmo tempo em que a parcela evangélica aumentou.
Mesmo com a diminuição percentual, os católicos continuam sendo o maior grupo religioso do país. A capacidade de mobilização desse segmento também pode ser observada nas redes sociais.
Um exemplo é o Frei Gilson, que ganhou grande alcance com transmissões de orações pela internet. Em março de 2025, uma transmissão realizada durante a madrugada, no período da Quaresma, chegou a reunir aproximadamente 1 milhão de espectadores.
Eleitorado evangélico ganhou importância política
O crescimento da população evangélica também aumentou a atenção dos candidatos durante as campanhas eleitorais.
Nas eleições presidenciais anteriores, esse segmento apresentou mudanças em seu comportamento. Em 2018, Jair Bolsonaro conseguiu ampla vantagem entre os eleitores evangélicos. Quatro anos depois, em 2022, a preferência desse grupo ficou mais dividida entre Bolsonaro e Lula.
Pesquisadores e especialistas que estudam o comportamento eleitoral apontam que a aproximação de parcelas do eleitorado evangélico com candidatos de direita pode estar relacionada a uma combinação de fatores econômicos, sociais, culturais e políticos.
Outro elemento analisado é a influência da chamada teologia da prosperidade em parte das igrejas evangélicas brasileiras, corrente religiosa que associa a prosperidade material e o sucesso pessoal à bênção divina.
Campanhas buscam aproximação com grupos religiosos
A importância dos segmentos religiosos fez com que a relação entre fé e política aparecesse novamente durante a campanha de 2026.
Lula, que se identifica como católico, procurou dialogar com diferentes grupos religiosos. Flávio Bolsonaro, por outro lado, manteve uma aproximação com lideranças evangélicas e recebeu manifestações públicas de apoio de nomes ligados a esse segmento, como o pastor Silas Malafaia.
Em setembro, Lula também entrou em uma discussão envolvendo a participação das mulheres nas estruturas religiosas. O comentário passou a fazer parte do debate eleitoral sobre religião, costumes e participação política.
Desinformação envolve Nossa Senhora Aparecida
Outro episódio que levou a religião para o centro da disputa eleitoral envolveu Nossa Senhora Aparecida, considerada a Padroeira do Brasil.
Nas redes sociais, circularam publicações afirmando que Flávio Bolsonaro teria intenção de retirar esse título da santa. A informação foi desmentida.
A origem da narrativa está relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli. A proposta não foi apresentada por Flávio Bolsonaro e acabou arquivada em 2008.
O projeto pretendia alterar a legislação que reconhecia Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Flávio negou qualquer relação com a proposta e classificou como falsa a informação que circulou durante a campanha.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também se manifestou sobre o episódio e negou ter produzido ou autorizado conteúdos relacionados à acusação.
Religião é apenas um dos fatores do voto
Apesar das diferenças apresentadas pela pesquisa entre católicos e evangélicos, a religião não determina isoladamente a escolha de cada eleitor.
Questões como renda, escolaridade, idade, região onde o eleitor vive, avaliação dos candidatos, identificação política e situação econômica também podem influenciar a decisão nas urnas.
Os números do Real Time Big Data mostram, portanto, um recorte específico do eleitorado e indicam diferenças de preferência entre dois dos maiores grupos religiosos do país.
Com a aproximação do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a busca por apoio entre diferentes segmentos religiosos deve continuar fazendo parte da estratégia dos candidatos.
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