A participação do empresário e influenciador Pablo Marçal na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) traz novamente à tona um episódio de seu passado judicial. Em 2010, Marçal foi condenado pela Justiça Federal por envolvimento em um esquema de fraudes bancárias pela internet, investigado cinco anos antes pela Polícia Federal. Apesar da sentença, ele não chegou a cumprir a pena, já que o processo terminou com o reconhecimento da prescrição em 2018.
Na época dos crimes, Marçal tinha 18 anos. Segundo as investigações, ele integrava um grupo que utilizava programas maliciosos para roubar informações bancárias e desviar dinheiro de contas de clientes de diferentes instituições financeiras.
A condenação foi de quatro anos e cinco meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, além do pagamento de multa. O caso voltou a ganhar repercussão durante a campanha de Marçal à Prefeitura de São Paulo, em 2024, quando documentos judiciais e detalhes da investigação foram divulgados pela imprensa.
Como funcionava o esquema de fraudes bancárias
A organização criminosa utilizava uma estratégia que começava com o envio de mensagens eletrônicas contendo arquivos ou links contaminados por programas maliciosos.
Quando instalados nos computadores das vítimas, esses programas conseguiam capturar informações sigilosas, como senhas e dados de contas bancárias. Com acesso às informações, os integrantes do grupo realizavam transferências fraudulentas, pagamentos e compras pela internet.
De acordo com as investigações, a quadrilha tinha uma divisão de tarefas. Enquanto alguns integrantes desenvolviam ou distribuíam os programas, outros eram responsáveis por movimentar os valores desviados e fornecer contas para receber o dinheiro.
A Polícia Federal identificou nove pessoas envolvidas no esquema, entre elas Pablo Marçal.
Qual era a participação de Pablo Marçal
Segundo os documentos do processo, Marçal atuava na coleta de endereços de e-mail utilizados para disseminar os programas maliciosos. Ele também participava do envio de mensagens e realizava serviços de manutenção nos computadores usados pelo grupo.
As investigações apontaram que o empresário trabalhava diretamente com Danilo de Oliveira, identificado como um dos responsáveis pela organização criminosa.
Depoimentos reunidos no processo indicaram que Marçal recebia pagamentos pelos serviços prestados e tinha autorização para utilizar veículos ligados ao grupo.
Durante sua defesa, o influenciador afirmou que desconhecia as atividades ilegais e que sua função se limitava à prestação de serviços de informática.
A Justiça, porém, considerou que havia elementos suficientes para demonstrar seu conhecimento sobre o funcionamento das fraudes. Entre os pontos analisados estavam declarações do próprio Marçal durante a investigação e sua participação em atividades relacionadas à operação do esquema.
Prisão ocorreu em 2005, quando Marçal tinha 18 anos
Pablo Marçal foi preso pela Polícia Federal em agosto de 2005, durante a Operação Pégasus, que investigava crimes praticados por meio da internet.
Ele permaneceu detido por aproximadamente dois dias e depois foi colocado em liberdade.
O processo criminal continuou na Justiça Federal de Goiás. Em maio de 2010, cinco anos depois da investigação, foi publicada a sentença condenatória.
Na decisão, a Justiça reconheceu a participação de Marçal no esquema, embora tenha considerado que sua atuação tinha menor importância em relação à de outros integrantes da organização.
Por que Pablo Marçal não cumpriu a pena?
Apesar da condenação, Marçal não foi preso para cumprir a pena aplicada em 2010.
O caso chegou ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que analisou o recurso em 2018, oito anos depois da sentença de primeira instância.
Nesse intervalo, ocorreu a prescrição da pretensão punitiva do Estado.
Um dos fatores decisivos foi a idade do empresário na época dos fatos. O Código Penal prevê a redução pela metade dos prazos de prescrição quando o acusado tinha menos de 21 anos no momento do crime.
Com a aplicação dessa regra e a análise da pena considerada para o cálculo, o tribunal concluiu que o prazo legal havia sido ultrapassado.
Assim, a Justiça declarou extinta a punibilidade de Marçal.
A decisão não representou uma absolvição por inocência, mas o reconhecimento de que o Estado já não poderia aplicar uma punição criminal naquele processo.
Marçal afirma que foi injustiçado
O empresário sempre contestou sua responsabilidade pelos crimes.
Durante a campanha municipal de 2024, afirmou publicamente que trabalhava com manutenção de computadores e que recebia R$ 350 pelos serviços prestados.
Marçal também declarou que não obteve ganhos relevantes com as fraudes e que enfrentou um processo judicial injusto.
Sua versão, entretanto, não foi acolhida pela sentença de primeira instância, que considerou as provas reunidas suficientes para reconhecer sua participação no esquema.
Aproximação com Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026
Mais de duas décadas depois da investigação, Pablo Marçal passou a ocupar espaço na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Segundo reportagem da CNN Brasil publicada em 12 de outubro, o influenciador atua como consultor informal, com participação em estratégias de comunicação digital e discussões sobre propostas políticas.
A aproximação começou ainda na pré-campanha. Em abril, o SBT News informou que os dois haviam gravado conteúdos conjuntos para as redes sociais.
Já a Folha de S.Paulo publicou, em 11 de outubro, que Marçal vinha utilizando suas plataformas digitais para divulgar conteúdos favoráveis ao candidato do PL.
A campanha de Flávio, no entanto, afirmou à Folha que o empresário é um apoiador e negou conversas sobre sua participação em um eventual governo.
No debate presidencial realizado pela Band no domingo (18), Marçal também esteve envolvido na orientação do candidato. Segundo reportagem publicada pela Folha nesta segunda-feira (19), ele e o deputado Nikolas Ferreira repassaram sugestões a Flávio por intermédio de uma assessora.
O episódio reforça a proximidade política entre o influenciador e o candidato nesta reta final do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
A condenação de Marçal diz respeito a fatos ocorridos em 2005 e não representa acusação de participação de Flávio Bolsonaro naquele esquema.
Histórico judicial volta ao debate público
A presença de Marçal na campanha presidencial recoloca em discussão seu histórico judicial, que já havia sido tema de reportagens e debates eleitorais em 2024.
Os registros mostram que houve condenação em primeira instância por furto qualificado, seguida do reconhecimento da prescrição pelo TRF-1.
Embora o empresário não tenha cumprido a pena, os documentos judiciais permanecem como registro do processo e das circunstâncias investigadas.
O espaço permanece aberto para manifestação atualizada de Pablo Marçal e de sua assessoria sobre os fatos relatados.
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