A segunda fase da Operação Anáfora, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira (30), recolocou o clã político dos Reis no centro de uma investigação sensível: suposta lavagem de dinheiro oriunda de desvios de recursos públicos, especialmente da área da saúde.
A ação cumpriu 14 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Niterói e Duque de Caxias, e investiga indícios de bens em nome de terceiros, gastos incompatíveis com renda declarada e negociações imobiliárias suspeitas.
O impacto político é imediato porque a investigação alcança o entorno de Washington Reis, presidente estadual do MDB no Rio, ex-prefeito de Duque de Caxias e principal fiador da indicação de sua irmã, Jane Reis, para a vice na chapa de Eduardo Paes ao Governo do Estado.
Segundo a Folha de S.Paulo, Jane Reis não foi alvo de mandado de busca, mas é investigada pela PF como suposto braço operacional da WR Participações, empresa familiar apontada como detentora de centenas de imóveis no estado. Jane e Washington negam irregularidades.
A PF informou que a nova etapa aprofunda apurações iniciadas na primeira fase da Anáfora, em 2022. Na ocasião, a investigação mirou suspeitas de fraudes e superfaturamento em contratos da saúde de Duque de Caxias.
A CGU apontou, naquele momento, indícios de direcionamento de licitação, sobrepreço de aproximadamente R$ 53,6 milhões em planilha anual e contratos que mobilizaram quase R$ 414 milhões entre março de 2020 e março de 2022, incluindo recursos federais do SUS.
A operação desta terça-feira também teve um elemento de forte repercussão pública: a apreensão de R$ 450 mil em espécie escondidos sob um sofá em uma empresa em Duque de Caxias apontada pela investigação como ligada a um dos investigados.
A Folha identifica um dos núcleos investigados como o Laticínio Vale Carioca, citado pela apuração como uma das empresas supostamente usadas em lavagem de dinheiro atribuída a Washington Reis. A empresa e Washington negam vínculo irregular e afirmam que os valores têm origem lícita.
O fantasma de 2022 volta à campanha
A nova fase da Anáfora tem peso simbólico porque revive um roteiro conhecido na política fluminense. Em 2022, Washington Reis ocupava a posição de candidato a vice na chapa de Cláudio Castro (PL), mas acabou fora da disputa em razão de impedimentos jurídicos. A primeira fase da mesma operação já havia atingido o ambiente político de Duque de Caxias naquele período.
Agora, o problema retorna em outro tabuleiro. Jane Reis foi indicada pelo MDB para ser vice de Eduardo Paes em um movimento pensado para dar musculatura territorial à pré-campanha na Baixada Fluminense, ampliar pontes com o eleitorado evangélico e consolidar o apoio do partido comandado por Washington Reis no estado.
O MDB formalizou apoio a Paes e anunciou Jane como indicação para a vice em fevereiro, em ato com presença de lideranças nacionais e estaduais da legenda.
Duque de Caxias é peça estratégica nessa equação. A família Reis exerce influência no município, que é tratado como ativo eleitoral relevante na Baixada Fluminense. Para Eduardo Paes, o MDB dos Reis entrega capilaridade, estrutura municipal, presença em igrejas e articulação em uma região decisiva para qualquer eleição estadual no Rio.
O problema é que o mesmo ativo pode se converter em passivo caso a investigação avance ou passe a dominar a narrativa pública da campanha.
O dilema de Paes: blindar a aliança ou reduzir dano
Politicamente, a operação cria uma tensão objetiva para Eduardo Paes. Manter Jane Reis na vice preserva o acordo com o MDB, evita uma ruptura prematura com Washington Reis e mantém a ponte com Duque de Caxias e a Baixada. Mas também oferece aos adversários uma linha de ataque poderosa: saúde pública, dinheiro em espécie, suspeita de lavagem, contratos milionários e o histórico da primeira fase da Anáfora.
A permanência de Jane só se sustenta, do ponto de vista político, se a campanha conseguir separar a pré-candidata dos fatos investigados, reforçar que ela não foi alvo de busca e sustentar a tese de que não há denúncia formal ou condenação contra ela no episódio. Esse será o discurso defensivo provável: investigação não é condenação, Jane não foi alvo de mandado e o MDB segue como parceiro necessário para governabilidade e vitória eleitoral.
O risco, porém, é de contaminação progressiva. Em campanhas majoritárias, o problema nem sempre é apenas jurídico. Muitas vezes, o dano vem da repetição diária de imagens, manchetes e associações. A expressão “dinheiro no sofá”, por exemplo, tem alto potencial de fixação popular. Ainda que os investigados neguem irregularidades, a oposição tende a explorar o caso como símbolo de um suposto retorno de práticas políticas antigas na Baixada.
Pode haver mudança na chapa?
Sim, a operação pode levar a uma mudança de rumo, mas isso não é automático. O calendário eleitoral ainda permite rearranjos. As convenções partidárias para escolha de candidatos e formação de coligações podem ocorrer até 5 de agosto de 2026, e o prazo para registro das candidaturas vai até 15 de agosto. Em regra, substituições de candidatos ainda podem ser solicitadas até 14 de setembro, observadas as condições legais aplicáveis.
Isso significa que a chapa de Eduardo Paes ainda não está politicamente nem juridicamente congelada. Se a investigação produzir novos elementos contra Jane Reis, se houver denúncia formal, novas buscas, quebras de sigilo politicamente explosivas ou queda nas pesquisas qualitativas, o PSD e o MDB poderão ser pressionados a discutir uma alternativa.
O caminho mais provável, no primeiro momento, é a manutenção da indicação com controle de danos. Paes tende a evitar uma ruptura imediata com o MDB porque a legenda é peça central para ampliar sua presença fora da capital.
No entanto, a operação reduz a margem de conforto da aliança. A vice passa a depender menos apenas da força territorial dos Reis e mais da capacidade de a campanha impedir que a Anáfora se transforme no principal assunto da pré-campanha.
Há três cenários sobre a mesa. O primeiro é a manutenção de Jane Reis, com discurso de presunção de inocência e valorização da Baixada. O segundo é uma substituição negociada dentro do próprio MDB, preservando o partido na chapa, mas retirando o sobrenome Reis da linha de frente. O terceiro, mais drástico, seria uma renegociação ampla da composição, caso o desgaste se torne incompatível com a estratégia eleitoral de Eduardo Paes.
Empresas ligadas aos Reis e negócios em outras prefeituras
A frente sobre empresas ligadas à família Reis e eventuais negócios em outras prefeituras do Estado deve ser tratada com cautela. O que está documentado nas fontes oficiais e jornalísticas consultadas é que a PF investiga movimentações patrimoniais, bens em nome de terceiros, gastos incompatíveis e transações imobiliárias. A WR Participações, empresa familiar dos Reis, tem centenas de imóveis no estado e é alvo de suspeitas relacionadas a lavagem de dinheiro.
A primeira fase da operação, por sua vez, teve como eixo contratos da saúde em Duque de Caxias, especialmente suspeitas de favorecimento, direcionamento e sobrepreço em serviços contratados pela prefeitura. A CGU apontou que a investigação tinha relação com a contratação de serviços médicos especializados pela Secretaria Municipal de Saúde de Caxias.
Do ponto de vista jornalístico, a pergunta relevante agora é se empresas, imóveis ou operadores ligados ao núcleo investigado tiveram participação direta ou indireta em contratos públicos fora de Duque de Caxias. Se essa conexão for comprovada documentalmente, a Anáfora deixa de ser apenas um caso de impacto municipal e passa a ter dimensão estadual, com potencial de atingir a narrativa de alianças em várias cidades do Rio.
Até aqui, porém, é prudente separar suspeita, hipótese de apuração e fato comprovado. A existência de imóveis, empresas ou relações comerciais não prova, por si só, irregularidade. O que pressiona politicamente o grupo dos Reis é a combinação entre histórico de investigação na saúde, poder territorial na Baixada, protagonismo no MDB e a presença de Jane Reis na chapa de Eduardo Paes.
Uma vice que virou teste de risco
A escolha de Jane Reis sempre teve uma lógica eleitoral clara: levar o MDB, a Baixada e parte do eleitorado evangélico para dentro da chapa de Eduardo Paes. Depois da segunda fase da Anáfora, essa escolha passou a carregar uma pergunta incômoda: o ganho territorial compensa o desgaste ético e narrativo?
A resposta dependerá do avanço da investigação e da leitura interna das pesquisas. Se o caso permanecer circunscrito ao entorno de Washington Reis, com negativas consistentes e sem novas medidas contra Jane, a tendência é de resistência e manutenção da aliança. Se a operação ganhar novos capítulos, a chapa poderá ser recalculada antes das convenções.
A Anáfora, portanto, não derruba automaticamente a vice do MDB. Mas muda o ambiente. Eduardo Paes passa a administrar uma aliança que entrega votos, estrutura e presença na Baixada, mas também carrega um passivo político capaz de ser explorado diariamente pelos adversários. Em uma eleição estadual competitiva, esse tipo de desgaste raramente fica restrito ao inquérito: ele entra no horário eleitoral, nas redes sociais, nos debates e na percepção do eleitor.
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