O tabuleiro político do Rio de Janeiro entra em uma semana em que cada movimento pode alterar o rumo do jogo. A partir desta segunda-feira, 23 de março, decisões judiciais, estratégias eleitorais e disputas internas no poder estadual passam a definir o desfecho de uma crise que mistura política, justiça e interesses partidários.
O ambiente institucional fluminense vive um momento incomum. A sucessão de investigações, processos e articulações eleitorais criou um cenário em que decisões judiciais e cálculos políticos passaram a caminhar lado a lado. O resultado é um quadro de grande instabilidade na estrutura de poder do estado.
O primeiro capítulo desse processo recente foi a chamada Operação Unha e Carne, conduzida pela Polícia Federal com apoio da Procuradoria-Geral da República e autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. A investigação levou ao afastamento do deputado estadual Rodrigo Bacellar da presidência da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Bacellar é investigado por suspeita de ter vazado informações sigilosas de uma operação policial para o então deputado TH Joias, acusado de ligação com o Comando Vermelho.
A Polícia Federal afirma que o parlamentar teria alertado o investigado sobre uma ação policial e orientado a destruição de provas, acusações que fazem parte da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República. As provas são consideradas frágeis, o que torna a manutenção das medidas cautelares incertas.
Mesmo antes de qualquer decisão final sobre o caso, o afastamento do presidente da Assembleia provocou uma reorganização interna no poder legislativo fluminense e abriu uma disputa política sobre o controle da Casa.
O segundo ato: o futuro de Cláudio Castro
O segundo movimento dessa crise envolve o próprio governador do estado, Cláudio Castro.
Nos bastidores do governo, cresce a expectativa de que Castro possa renunciar ao cargo a qualquer momento. O objetivo seria abrir caminho para uma indicação ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro ou, em um cenário alternativo, disputar uma vaga no Senado nas eleições de outubro.
Até a noite deste domingo (22), interlocutores próximos ao governo apontam que o plano principal é a indicação ao tribunal de contas. A candidatura ao Senado permanece como alternativa política.
Caso a renúncia se confirme, a Constituição estadual prevê a realização de uma eleição indireta para escolher um governador que cumpriria um mandato tampão até o fim do atual período de governo. A escolha seria feita pelos deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Esse cenário abre uma nova disputa dentro da própria base governista. Quanto a Bacellar, uma eventual renúncia, até noite deste domingo, está totalmente descartada.
A corrida pelo mandato tampão
Dois nomes surgem com mais força na Assembleia: os deputados Chico Machado e Guilherme Delaroli.
Delaroli aparece como o candidato mais alinhado ao atual governo. Já Chico Machado reúne apoio de deputados ligados ao grupo político de Bacellar e também de setores próximos ao prefeito do Rio, Eduardo Paes.
Nos dois casos, a disputa tem uma característica particular: nenhum dos dois nomes demonstra interesse em disputar as eleições de outubro caso assuma o governo por mandato tampão. O cargo funcionaria, na prática, como um ponto final em trajetórias políticas já consolidadas.
Dentro desse mesmo cálculo político, o grupo do governo trabalha com a possibilidade de lançar o deputado Douglas Ruas como candidato ao governo nas eleições deste ano, enquanto a vaga para o Senado pelo PL poderia ficar com o delegado Felipe Curi, ex-secretário da Polícia Civil e nome apoiado pelo senador Flávio Bolsonaro.
Se esse desenho político se confirmar, o PL chegaria à eleição de outubro mantendo influência tanto no Executivo estadual quanto na Assembleia Legislativa.
O julgamento que pode mudar tudo
Enquanto a disputa política avança, outro fator pesa sobre o futuro do governo: o julgamento no Tribunal Superior Eleitoral do chamado caso Ceperj.
A ação investiga suposto abuso de poder político e econômico na eleição de 2022, envolvendo contratos e nomeações no Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos. As acusações apontam que a estrutura do órgão teria sido usada para contratações em larga escala que beneficiaram a campanha eleitoral do governador.
O processo envolve Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar. A relatora do caso já votou pela cassação da chapa, mas o julgamento foi interrompido por pedido de vista e ainda depende dos votos de outros ministros.
A análise está prevista para ser retomada nesta semana, podendo se estender até quarta-feira. Ainda assim, nos bastidores de Brasília existe a possibilidade de novo adiamento.
Um estado em permanente rearranjo
A política do Rio de Janeiro sempre foi marcada por reviravoltas rápidas. Nos últimos anos, governadores foram afastados, presos ou cassados em sequência. O resultado é um ambiente institucional em que o poder raramente permanece estável por muito tempo.
Neste momento, o estado vive mais um desses períodos de rearranjo.
Entre investigações, julgamentos e negociações internas, o Rio entra em uma semana em que qualquer decisão — seja no tribunal ou na Assembleia — pode alterar profundamente o comando político do estado.
No tabuleiro fluminense, a única certeza é que nenhuma peça permanece parada por muito tempo.
*Compartilhe este artigo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











