As declarações feitas pelo presidente da Argentina, Javier Milei, durante uma passagem por São Paulo provocaram reação dentro do próprio Congresso argentino. Mais de 30 deputados da oposição apresentaram um projeto de declaração de repúdio aos ataques dirigidos a autoridades brasileiras durante um evento político realizado no sábado (25).
A proposta foi protocolada na Câmara dos Deputados, em Buenos Aires, e classifica as manifestações do presidente argentino como graves e incompatíveis com a responsabilidade institucional exigida de um chefe de Estado.
A iniciativa é liderada pelo deputado Jorge Taiana, que já comandou os ministérios das Relações Exteriores e da Defesa da Argentina. Na avaliação do parlamentar, a postura de Milei constrange o país e pode comprometer uma relação considerada estratégica para os interesses políticos, econômicos e comerciais dos argentinos.
Ataques durante convenção partidária
Milei participou da convenção nacional do Partido Liberal, realizada em São Paulo para oficializar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Durante o discurso, o presidente argentino chamou Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e utilizou uma expressão ofensiva ao se referir ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Milei também atacou o governo brasileiro e voltou a criticar partidos e movimentos políticos de esquerda.
Para os parlamentares que assinam o documento, as declarações podem ser interpretadas como interferência nos assuntos internos de outro país. O projeto menciona princípios tradicionais do direito internacional, como a não intervenção e o respeito à autodeterminação dos povos.
Os deputados também alertam que o episódio pode provocar prejuízos à convivência diplomática entre Brasil e Argentina, países que mantêm uma relação histórica e possuem forte integração econômica.
Viagem presidencial é questionada
O projeto apresentado no Congresso argentino também questiona a participação de funcionários de carreira do Ministério das Relações Exteriores na comitiva presidencial.
Segundo os autores, a viagem teve caráter predominantemente político-partidário e não contou com uma agenda oficial de Estado que justificasse a mobilização de diplomatas e de outros servidores públicos.
A proposta foi elaborada no domingo e protocolada formalmente na segunda-feira (27). Antes de uma eventual votação em plenário, o documento deverá passar pelas comissões da Câmara dos Deputados.
A tramitação, no entanto, poderá enfrentar obstáculos. Os partidos de oposição não possuem maioria na Casa, enquanto a Comissão de Relações Exteriores é presidida por uma deputada ligada à coalizão governista de Milei.
O texto, portanto, ainda não representa uma condenação aprovada pelo Congresso argentino. Trata-se de um projeto de declaração que poderá receber novas assinaturas e precisará cumprir as etapas regimentais antes de ser submetido à votação.
Itamaraty reage às declarações
No Brasil, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos sobre as declarações.
O governo brasileiro também chamou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas. A medida é utilizada pela diplomacia para demonstrar elevado grau de insatisfação com outro governo.
Em nota oficial, o Itamaraty afirmou não haver precedente para que um presidente estrangeiro, em território brasileiro, promova ataques contra o chefe de Estado, as instituições democráticas, o Poder Judiciário e a população do país.
A pasta destacou ainda os 203 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Argentina, além da importância política e comercial da parceria entre as duas nações.
Governo argentino descarta pedido de desculpas
Apesar da reação brasileira e da mobilização de deputados oposicionistas, o governo argentino não indicou que Javier Milei apresentará um pedido formal de desculpas.
A estratégia discutida por integrantes da Casa Rosada seria evitar novas declarações sobre o assunto, numa tentativa de reduzir a repercussão. O episódio, entretanto, continua provocando reações políticas e ampliando a tensão diplomática entre os dois países.
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