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Itamar Vieira Júnior em Coração Sem Medo recoloca o Brasil no divã

O romance não apenas revisita a escravidão e o patriarcado, mas convoca a psicanálise para entender o trauma histórico que aprisiona o país em uma repetição que impede novos futuros.

Francisco Neto Pereira Pinto Por Francisco Neto Pereira Pinto
18/11/2025 - 17:32
em Opinião

O novo romance de Itamar Vieira Júnior, Coração sem medo, recoloca o Brasil no divã. Rita Preta, personagem central, repete no âmago a história de outras mulheres de sua família. Sua avó, Carmelita, fugiu da casa materna para nunca mais voltar e Donana, sua bisavó, também criou seus filhos como mãe solo, embora por motivos diferentes. 

Rita Preta é uma caixa de supermercado que cria três filhos sozinha e que viveu sem conhecer o pai, foi abandona pela mãe, perdeu seus irmãos e foi mandada pela avó para trabalhar na cidade como empregada em casa de família.

Cid – cujo nome verdadeiro é Alcides Alves das Virgens, o primogênito de Rita Preta, desapareceu como também um dia desapareceu Zeca Chapéu Grande, seu ancestral, em Torto Arado, e filho mais velho de Donana. Indo mais além, retoma, pelo sobrenome paterno, um antepassado histórico, Luiz Gonzaga das Virgens, que foi enforcado e esquartejado em Salvador, Bahia, em 8 de novembro de 1799.  

A narrativa mostra, na verdade, como a história da família de Rita Preta se entrelaça à própria história do Brasil, revelando que não há destino individual que não esteja marcado pela trama coletiva.

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O destino é um outro nome da repetição

Aurora Bernadini, crítica literária, tradutora e professora aposentada da Universidade de São Paulo, afirmou recentemente, em entrevista à Folha de São Paulo, de 30 de agosto de 2025, que a escravidão não deveria continuar servindo de mote à literatura contemporânea, pois o passado não poderia repercutir no presente. 

Sigmund Freud, porém, em seu ensaio Além do princípio do prazer, de 1920, já afirmava que ninguém escapa da compulsão à repetição — essa força que atua no psiquismo humano, também conhecida como pulsão de morte. Essa repetição se traduz em uma tendência à mesmice, à inércia e, no final das contas, à morte. 

Somos feitos de histórias: da família, da comunidade, da sociedade. E repetimos, inconscientemente, roteiros bons e ruins dessas histórias que nos antecedem. Essa lógica não se aplica apenas às pessoas, mas também às sociedades.

 A esse tipo repetição, o psicanalista francês Jacques Lacan chama de repetição idiota – no sentido de idêntico a si mesmo, repetição do mesmo. Freud já indicava, desde 1914, que uma das maneiras de romper o circuito mortífero da repetição do mesmo é contar, recontar e, por fim, elaborar nossas histórias, aquelas que causa dor e sofrimento. 

A psicanálise nos ensina que revisitar o passado é condição para narrá-lo de outras formas, abrindo espaço, como ensina explica Jorge Forbes, para versões diferentes, mais favoráveis à vida. Mas esse processo só produz efeitos se houver quem escute, valide e ofereça condições para que essas novas narrativas possam surgir. Sem um ouvido atento e interessado, dificilmente alguém encontrará meios de ressignificar sua trajetória e superar impasses e sofrimentos.

A herança escravocrata e patriarcal

Rita Preta e seus três filhos são metáfora de muitas famílias brasileiras que ainda lutam contra a força da herança da escravidão e do patriarcado — traumas que o país não elaborou suficientemente. Enquanto não trabalharmos suficientemente essas páginas de nossa história, não encontraremos a lucidez necessária para construção de outras histórias possíveis e mais interessantes, sobretudo para pessoas negras, mulheres, crianças e adolescentes, ainda tão maltratados em nosso Brasil. 

Histórias invisibilizadas precisam ser ouvidas e legitimadas, para que possam abrir possibilidades de ressignificação e futuros a se inventar – bons e justos para todos.

Itamar Vieira Júnior, com Coração sem medo, nos convoca, como já o fizeram outros grandes escritores e escritoras, a essa escuta. Que tenhamos coragem para falar dessas temáticas com honestidade, livremente e sem censura — única regra que Freud estabeleceu para que uma psicanálise produzisse efeito. Que a leitura e as discussões em torno de Coração sem medo sejam, de fato, experiências transformadoras para os(as) leitores(as) e para o Brasil.

*Sobre o autor: Francisco Neto Pereira Pinto é escritor e psicanalista. Doutor em Letras, é Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal do Norte do Tocantins. Autor de À beira do Araguaia. 

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