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Porto do Açu aposta em diesel verde: inovação sustentável ou estratégia de mercado?

Parceria com Van Oord traz HVO para dragagem portuária, mas especialistas apontam desafios reais na descarbonização do setor marítimo.

Redação DGRJ Por Redação DGRJ
03/12/2025 - 08:44
em Economia
Porto do Açu e Van Oord iniciam parceria inédita de dragagem com diesel verde no Brasil

Imagem: divulgação

O Porto do Açu, maior complexo industrial portuário privado da América Latina, e a Van Oord, empresa holandesa especializada em engenharia marítima, anunciaram nesta segunda-feira uma parceria que promete transformar as operações de dragagem no Brasil. A partir de 2026, as dragas que fazem a manutenção dos canais de acesso ao complexo utilizarão HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), o chamado diesel verde, em uma iniciativa apontada como inédita no país.

A medida coloca o Açu em destaque internacional no debate sobre transição energética portuária. Mas, enquanto a iniciativa ganha aplausos do setor privado, especialistas levantam questões importantes sobre viabilidade, escala e impacto real.

O combustível: promessa e realidade técnica

O HVO é um biocombustível derivado de óleos vegetais tratados hidrotermicamente. Segundo fabricantes, ele reduz emissões de CO₂ em até 90% comparado ao diesel convencional — dependendo da matéria-prima e da metodologia de cálculo do ciclo de vida.

“É um combustível drop-in, ou seja, funciona nos motores diesel existentes sem modificações significativas”, explica o conceito. A tecnologia já é utilizada em operações portuárias na Europa e Ásia, mas representa um passo pioneiro em dragagem no Brasil.

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Porém, a questão que permeia o setor é mais complexa: de onde virá o HVO em escala suficiente? Atualmente, a produção global é limitada e concentrada na Europa. Grandes volumes dependem de importação, o que levanta questões sobre o balanço real de carbono quando contabilizado o transporte internacional.

Objetivos de descarbonização: alinhamento global

“A parceria reforça nosso compromisso de liderar a transição energética no setor portuário brasileiro, com a adoção de soluções que preparem o país para novos padrões ambientais”, afirma Vinicius Patel, diretor de Administração Portuária e Serviços do Porto do Açu.

A medida está sincronizada com metas internacionais crescentes. A Organização Marítima Internacional (IMO) estabeleceu compromissos de redução de 50% nas emissões do transporte marítimo até 2050. Portos que adotam combustíveis renováveis ganham vantagem competitiva e atração de clientes conscientes ambientalmente.

Tim Helbo, Diretor Américas da Van Oord, reforça: “Essa ação demonstra o potencial dos combustíveis renováveis na redução das emissões nas atividades marítimas, contribuindo para o avanço da descarbonização no setor portuário.”

O lado econômico: investimento e viabilidade

A adoção de HVO envolve custos. O biocombustível é tipicamente 20% a 40% mais caro que o diesel fóssil, dependendo do mercado e escala de compra. Embora a parceria não tenha divulgado valores, a diferença de custo operacional é significativa.

A pergunta natural emerge: quem absorve esse custo adicional? Tradicionalmente, operadores portuários repassam aumentos para tarifas de operação, o que pode impactar a competitividade do Porto do Açu face a outros terminais brasileiros.

Por outro lado, o prêmio ambiental pode justificar-se. Clientes globais — especialmente multinacionais europeias — começam a demandar parceiros portuários com credenciais verdes. Para o Açu, isso representa potencial de atração de novos negócios e diferenciação.

Contexto setorial: onde o Brasil se posiciona

O Brasil ainda está no estágio inicial de transição energética portuária. Enquanto Roterdã (Holanda), Singapura e Porto Said (Egito) já experimentam combustíveis alternativos em larga escala, a maioria dos portos brasileiros opera com diesel convencional.

A iniciativa do Açu não é isolada. A indústria portuária brasileira enfrenta pressões crescentes:

  • Regulamentações futuras: A União Europeia pode estabelecer restrições a navios que não cumpram padrões ambientais, afetando operações de portos que as exportam
  • Demanda de clientes: Multinacionais exigem relatórios de sustentabilidade de seus parceiros logísticos
  • Competitividade internacional: Portos modernos investem em baixo carbono para atrair operações

O Açu, com 30 empresas instaladas e foco em industrialização de baixo carbono, posiciona-se strategicamente neste cenário.

Impacto local: oportunidades e desafios para São João da Barra

O município de São João da Barra, no norte fluminense, historicamente dependente de economia baseada em agricultura e pesca, viu o Porto do Açu transformar seu perfil econômico desde 2014.

A parceria com a Van Oord traz oportunidades:

  • Geração de conhecimento: Desenvolvimento de expertise local em operações sustentáveis
  • Atratividade de investimentos: Empresas buscam regiões com infraestrutura ambiental moderna
  • Cadeia de suprimentos: Potencial para indústrias de produção de biocombustível na região

Mas há desafios. A transição energética não necessariamente significa mais empregos locais — pode significar operações mais automatizadas e eficientes. Além disso, a comunidade local precisa acompanhar esses avanços através de políticas de capacitação profissional.

O ceticismo necessário: greenwashing ou mudança real?

Críticos apontam que iniciativas isoladas de sustentabilidade no setor portuário podem representar greenwashing — ações comunicacionais que não correspondem a mudanças estruturais reais.

Uma única operação de dragagem com HVO, enquanto válida, representa apenas uma fração das emissões portuárias totais. A maioria das dragas que operam no Brasil, e mesmo no Açu, continuará utilizando diesel convencional. Operações de navios atracados, movimentação de cargas e transporte rodoviário permanecem intensivos em carbono.

“Para ser efetivo, o comprometimento precisa ser sistêmico”, alertam especialistas em descarbonização portuária. “Uma draga verde em um porto é começo, mas não é transformação.”

O acordo prevê início das operações com HVO em 2026. A expectativa é que essa experiência sirva como modelo replicável em outros portos brasileiros e em outras operações do Açu.

A Van Oord, com suas operações internacionais, pode transferir aprendizados globais para o contexto brasileiro — um potencial diferencial competitivo para o Porto do Açu.

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Tags: #Biocombustível#DescarbonizaçãoMarítima#DieselVerde#EconomiaLocal#EnergiaRenovável#Greenwashing#InovaçãoSustentável#PortoDoAçu#PortoFluminense#Sustentabilidade#TransiçãoEnergética#VanOord
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