Milhares de correntistas ficaram sem acesso às próprias economias após o Banco Central do Paraguai determinar a resolução do Ueno Bank, instituição financeira digital que concentrava recursos de trabalhadores, empresários e estrangeiros residentes no país. Entre os afetados estão brasileiros que utilizavam o banco para guardar dinheiro, pagar contas e movimentar suas finanças do dia a dia.
A paralisação dos serviços provocou dificuldades para quem mantinha todo o dinheiro na instituição. Diante da situação, o governo paraguaio e as autoridades financeiras anunciaram medidas para acelerar a restituição dos depósitos por meio do Fundo de Garantia de Depósitos e da transferência dos pagamentos para outras instituições financeiras.
O processo começou a avançar nesta quinta-feira (5), quando o Banco Central informou que iniciaria os pagamentos a um primeiro grupo de clientes. A liberação, porém, não será automática para todos os correntistas: existem critérios de elegibilidade e etapas diferentes para a restituição dos valores.
As informações sobre os brasileiros atingidos foram divulgadas pelo jornal O Globo.
Brasileiros relatam dificuldades após bloqueio do banco
O engenheiro de software brasileiro Dellean Santos Teixeira, de 36 anos, mora no Paraguai há três anos e relatou ao O Globo que os efeitos da intervenção foram especialmente difíceis para quem concentrava todas as economias no Ueno Bank.
Como mantinha recursos distribuídos em diferentes instituições, ele conseguiu reduzir os impactos da paralisação. Segundo o engenheiro, empresários que trabalham com fluxo de caixa e possuem várias contas bancárias tiveram mais condições de enfrentar a situação. Já os clientes que dependiam exclusivamente do Ueno ficaram em uma posição mais delicada.
“Quem era empresário está de boa, porque tem fluxo de caixa e também várias contas. Tem uma galera que só tinha Ueno e ficou apertada”, relatou.
A empresária Isabela, de 21 anos, filha de um brasileiro e residente em Santa Rita, também contou que conseguiu retirar o próprio dinheiro antes da intervenção. Ela decidiu transferir os recursos depois de ouvir comentários sobre possíveis dificuldades financeiras enfrentadas pela instituição.
A família, entretanto, não conseguiu evitar todos os prejuízos. A mãe e a irmã da jovem permaneceram com valores bloqueados. Isabela também relatou dificuldades para pagar a fatura de um cartão de crédito vinculado ao banco depois da interrupção dos serviços.
Como será feita a devolução do dinheiro do Ueno Bank
O Banco Central do Paraguai informou que os clientes contemplados em cada etapa receberão orientações por meio dos canais oficiais. No primeiro grupo, estão incluídos correntistas que atendam simultaneamente a três condições: possuir depósitos de até 10 milhões de guaranis, não ter dívidas com a instituição e manter uma conta habilitada em outro banco ou financeira do país.
Quem estiver dentro desses critérios poderá receber a totalidade dos depósitos, desde que o saldo não ultrapasse o limite estabelecido para essa primeira etapa.
Os demais clientes deverão aguardar novas orientações, que serão divulgadas conforme o andamento do processo de resolução. O Banco Central também informou que eventuais dívidas vencidas com o Ueno Bank serão descontadas antes do pagamento da garantia.
A legislação aprovada pelo Congresso paraguaio prevê um adiantamento de até 40 salários mínimos, equivalente a 121,76 milhões de guaranis por depositante. A quantia será descontada do valor total da garantia a que cada correntista tiver direito.
O Fundo de Garantia de Depósitos, por sua vez, prevê cobertura de até 75 salários mínimos por pessoa ou empresa em cada instituição financeira. Atualmente, esse limite corresponde a 228,3 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 205,7 mil.
Assim, clientes com saldos superiores ao valor do adiantamento poderão receber a diferença posteriormente, conforme a apuração dos depósitos e o calendário definido pelas autoridades.
Notificações vão informar onde receber os valores
Os correntistas devem acompanhar os e-mails e os comunicados oficiais do Banco Central paraguaio. As notificações informarão os procedimentos para receber o dinheiro e a instituição financeira responsável pelo pagamento.
Para quem já possui conta em outro banco, a restituição poderá ser encaminhada por meio dessa instituição, conforme as regras de cada etapa. Os clientes sem relacionamento bancário alternativo também deverão receber orientações sobre como acessar os recursos.
A recomendação é verificar cuidadosamente a origem das mensagens e utilizar apenas os canais oficiais do Banco Central. A situação envolve milhares de pessoas e pode ser aproveitada por criminosos para aplicar golpes com falsas promessas de liberação de dinheiro.
Ueno Bank tinha cerca de 2,9 milhões de clientes
Antes da intervenção, o Ueno Bank havia alcançado aproximadamente 2,9 milhões de clientes em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes. A instituição se tornou popular pela facilidade de abertura de contas digitais e pela possibilidade de realizar operações bancárias sem algumas das exigências documentais comuns em instituições tradicionais.
Esse modelo também atraiu estrangeiros que passaram a morar no Paraguai, incluindo brasileiros. Muitos utilizavam o banco para receber pagamentos, guardar economias e organizar as despesas cotidianas.
Isabela afirmou que a facilidade de acesso foi um dos principais motivos para a popularização da instituição. Ela contou que abriu sua primeira conta no Ueno Bank há três anos.
“A facilidade foi a maior isca deles”, declarou.
A grande quantidade de clientes fez com que a interrupção das operações atingisse diferentes grupos, incluindo trabalhadores, empresários e estrangeiros que dependiam dos serviços bancários.
Intervenção provocou crise política no Paraguai
A decisão do Banco Central foi tomada depois que a autoridade monetária identificou uma insuficiência no índice de solvência do Ueno Bank. Segundo o órgão, o indicador ficou abaixo de 50% do mínimo exigido, após ajustes realizados nos demonstrativos financeiros durante o processo de regularização da instituição.
A crise ultrapassou o setor financeiro e provocou uma forte repercussão política. O caso também resultou em medidas judiciais contra executivos e ex-executivos ligados ao banco, além de mudanças na direção do Banco Central.
Nesta quinta-feira (5), o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia em meio à pressão política provocada pelo escândalo. A Câmara dos Deputados, entretanto, rejeitou a saída e aprovou a abertura de um processo de julgamento político contra o mandatário. A decisão ainda depende dos desdobramentos no Senado.
Enquanto as investigações e o processo de resolução do banco avançam, os correntistas aguardam a liberação dos recursos. Para os brasileiros que vivem no Paraguai, a expectativa é recuperar o acesso às economias e regularizar os compromissos financeiros prejudicados pela paralisação da instituição.
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