A Universidade Federal do Rio de Janeiro transformou em reconhecimento acadêmico histórias que foram interrompidas pela repressão política.
Nesta quarta-feira (9), a instituição entregou diplomas póstumos a 23 estudantes mortos durante a ditadura militar e prestou homenagem a dois professores também atingidos pelo regime.
A cerimônia reuniu familiares, integrantes da comunidade acadêmica e representantes da universidade em um ato marcado pela defesa da memória e da reparação histórica.
Entre os homenageados está Fernando Augusto da Fonseca, que cursava Economia na UFRJ e teve sua trajetória acadêmica interrompida após sofrer perseguição por causa da militância estudantil.
Depois de deixar o Rio de Janeiro, Fernando foi preso em Recife, em 1973. Ele permaneceu detido por cerca de 20 dias, período em que foi torturado, e acabou morto.
Na época, sua mulher, que estava grávida, e o filho do casal, então com 3 anos, também foram presos.
Mais de meio século depois, o diploma foi recebido pelo filho, André Luiz Araújo da Fonseca, hoje com 56 anos e professor da própria UFRJ.
Para ele, a homenagem tem um significado especial por representar, ainda que simbolicamente, a conclusão de um projeto de vida que o pai não pôde terminar.
André afirmou que pretende guardar o diploma de Fernando ao lado do seu próprio documento acadêmico.
Cerimônia reforça memória e democracia
Durante a solenidade, o reitor Roberto de Andrade Medronho destacou que a iniciativa pretende reconhecer as vítimas e preservar a memória das violações ocorridas no período.
A universidade também relaciona a homenagem à defesa da democracia e à necessidade de manter viva a história daqueles que sofreram perseguição política.
O jornalista Franklin Martins, que comandou o Diretório Central dos Estudantes da UFRJ em 1968, participou do evento e relembrou a atuação de estudantes e professores na resistência ao regime militar.
A atual coordenadora-geral do DCE Mário Prata, Malu Cerqueira, também destacou o caráter de reparação da cerimônia e a importância de reconhecer oficialmente aqueles que foram perseguidos por sua atuação política.
Levantamento identificou vítimas ligadas à UFRJ
Os nomes incluídos na homenagem foram identificados pela Comissão da Memória e da Verdade da UFRJ a partir de documentos, registros históricos e relatórios oficiais sobre mortos e desaparecidos políticos.
O trabalho busca reconstruir a relação dessas pessoas com a universidade e registrar de forma permanente o impacto da repressão sobre a comunidade acadêmica.
Stuart Angel também recebeu diploma
A cerimônia desta quarta-feira dá continuidade a outras iniciativas realizadas pela UFRJ.
Em julho, a universidade concedeu diploma póstumo ao estudante de Economia Stuart Angel Jones, preso, torturado e morto em 1971.
O documento foi recebido por sua irmã, a jornalista Hildegard Angel.
Além dos 23 estudantes reconhecidos agora, a UFRJ também prestou homenagem a Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, e Raul Amaro Nin, pesquisador ligado à Faculdade de Engenharia.
Com a entrega dos diplomas e o reconhecimento institucional, a universidade busca preservar trajetórias que foram interrompidas pela violência do Estado e manter viva a memória de estudantes e professores atingidos pela repressão.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.












