Ainda sob o impacto da pandemia da covid-19, várias cidades da região Sudeste estão às vésperas de enfrentar uma nova epidemia de dengue, a exemplo do que já está acontecendo no Distrito Federal e municípios de Minas Gerais.
O alerta é do médico e ex-prefeito de Macaé (Norte Fluminense), Dr. Aluízio Júnior, que tem utilizado as redes sociais para alertar as autoridades locais, chegando a enviar ofícios à secretaria Municipal de Saúde pedindo a eliminação de focos no pátio do Hospital Público Municipal (HPM), uma das referências no atendimento de emergência regional.
“Ser atingido pela queda de uma árvore ou um raio é uma coisa. Outra coisa completamente diferente é ser surpreendido por uma epidemia previsível e por completo desleixo”, disse Dr. Aluízio, que também é médico do HPM e governou a cidade no ápice da pandemia da covid-19.
Em outubro de 2023, o médico filmou o pátio da unidade hospitalar tomado por sucatas que seriam potenciais focos de proliferação do mosquito aedes aegypti, devido a acumulação de água de chuva. Logo depois enviou ofício à secretaria Municipal de Saúde ameaçando acionar o Ministério Público, o que propiciou a retirada do material. Mas nos últimos dias as sucatas voltaram a se acumular no pátio do HPM.
O que se prevê para os próximos meses, segundo o ex-prefeito, não é apenas aumento nos casos de dengue, mas também uma pressão sobre o sistema público de saúde.
Pátio do Hpm agora a noite.Muita irresponsabilidade!!! Assim que irão combater a dengue???? pic.twitter.com/T8ftalrTJC
— Dr. Aluizio (@draluiziojunior) January 30, 2024
Escalada a dengue no Estado do Rio
Cidades como Resende, no Sul fluminense, e Rio das Ostras, na Baixada Litorânea, já lideram os casos de infestação no Estado do Rio de Janeiro.
O boletim semanal do Centro de Inteligência em Saúde (CIS) sobre o panorama da dengue informa que o estado do Rio continua com forte tendência de alta da doença, apresentando números acima da média histórica.
Nas três primeiras semanas de janeiro, o estado registrou 9.963 notificações de casos prováveis da doença, representando crescimento de 587% em relação ao mesmo período de 2023.
Oito das nove regiões do estado estão com números de vítimas acima da média, enquanto Resende, Itatiaia e Rio das Ostras aparecem com alta acima do esperado.
No Estado do Rio de Janeiro, no primeiro mês deste ano, o aumento de casos chega a 1000% em comparação com o mesmo período de 2023, mas a estatística referente a este ano ainda não está totalmente consolidada, porque o mês ainda não fechou. “O pico da doença será o março”, explica Dr. Aluízio.
Estado prepara criação de leitos
Na sexta-feira (26), o governador Cláudio Castro e a secretária de Estado de Saúde (SES), Claudia Mello, apresentaram o Plano Estadual de Combate à Dengue, que prevê ações diárias de enfrentamento à doença envolvendo uso de tecnologia, qualificação e apoio aos 92 municípios do estado.
Foram adquiridos pelo governo equipamentos e insumos a serem distribuídos a cidades com maior incidência de casos para montagem de 80 salas de hidratação, que terão capacidade para atender, ao todo, até oito mil pacientes por dia. O investimento envolvido alcança R$ 3,7 milhões.
O estado poderá também converter 160 leitos de nove hospitais para tratamento da doença, como ocorreu durante a pandemia da covid-19.
Não foi por falta de aviso!!! pic.twitter.com/O9WVS1zlfS
— Dr. Aluizio (@draluiziojunior) October 17, 2023
Treinamento de médicos
Outra iniciativa envolve o treinamento de dois mil médicos de emergências e profissionais de saúde dos 92 municípios, visando garantir o diagnóstico mais preciso e o tratamento correto, além de capacitação no atendimento às gestantes infectadas.
O governador afirmou, também, que o Plano Estadual de Combate à Dengue não começou agora. “Realizamos ações diárias para reduzir o impacto da doença. No Brasil, nos primeiros doze dias de 2024, foram notificados mais de 120 mil casos prováveis de dengue. Estamos atuando em apoio aos municípios, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde. O governo está preparado para receber e distribuir as vacinas e todo o suporte está sendo dado para a população”, salientou.
A secretária de Estado de Saúde (SES), Claudia Mello, informou que está sendo feito um monitoramento diário – em tempo real – da incidência de casos de dengue em todas as cidades do estado, por meio da Centro de Inteligência em Saúde (CIS).
“Essa leitura de dados pelos técnicos da saúde é que permite ao governo direcionar as ações necessárias para conter o avanço [da doença] e garantir cuidado à população”, frisou. Alertou, contudo, que é fundamental que as prefeituras atuem com o governo do estado nessa tarefa “e nos informem suas necessidades para que possamos agir rápido e apoiá-las com envio de equipamentos e insumos e promovendo treinamento de suas equipes”, acentuou Claudia.
Vírus em circulação
No Rio de Janeiro, circulam os sorotipos 1 e 2 do vírus que causa a dengue. Foi identificado um caso do sorotipo 4, mas sem circulação. O tipo 3 já está em circulação em Minas Gerais e São Paulo, e não é registrado no Rio desde 2007.
A Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde está monitorando os sorotipos circulantes nas rodovias que fazem a integração com outros estados do Sudeste. As amostras dos mosquitos são enviadas ao Laboratório Central Noel Nutels (Lacen).
A Organização Panamericana de Saúde (Opas) realizou capacitação teórica e prática com equipe da SES-RJ, simulando resposta a uma possível epidemia. O treinamento incluiu apoio às prefeituras na elaboração de seus planos de contingência.
Segundo o Ministério da Saúde, a vacina contra a dengue chegará à população a partir de fevereiro. Em um primeiro momento, serão contemplados os municípios de grande porte com alta transmissão do vírus nos últimos dez anos.
O público-alvo é formado por crianças e jovens de 10 a 14 anos e o esquema vacinal é de duas doses, com intervalo de três meses. Também na rede privada há aumento de vítimas da dengue.
Estatística da rede particular de saúde
Os hospitais da Rede D’Or no estado do Rio de Janeiro registraram, agora em janeiro, aumento médio de 778% no número de pacientes diagnosticados com dengue, em comparação com o primeiro mês de 2023.
A maior alta proporcional foi anotada no pronto atendimento do Hospital Rios D’Or, em Jacarepaguá, zona oeste da capital, onde 2.300% a mais de pacientes com a doença foram atendidos entre 1º e 20 de janeiro, em relação a igual período do ano passado.
Já no Barra D’Or, o total de casos confirmados subiu 1.250%, enquanto no Hospital Bangu, ambos na zona oeste do Rio, houve crescimento de 1.050%.
No Hospital Samer, em Resende, sudoeste do estado, ocorreu alta de 1040%. Também foram verificados aumentos do número de casos da doença em pacientes atendidos nos hospitais Norte D’Or (690%), em Cascadura, zona norte; Copa D’Or (500%), na zona sul; e Oeste D’Or (126%), em Campo Grande, zona oeste da capital.
As unidades da rede no estado – Rio Barra, Perinatal, São Vicente, Jutta e Copa Star – que não tiveram nenhum caso de paciente com dengue entre 1º e 20 de janeiro de 2023, mas registraram agora ocorrências da doença no mesmo período de 2024, informou a Rede D’Or, por meio de sua assessoria de imprensa.
“Indicador preocupante”, diz médico
O diretor nacional de Infectologia da Rede D’Or, David Uip, disse que o crescimento é expressivo nos hospitais da rede nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo e no Distrito Federal.
“É um indicador preocupante, especialmente se for registrada a circulação de sorotipo 3, como tem sido visto em algumas cidades, o que aumenta o número de pessoas suscetíveis à doença. Isso não ocorria há 15 anos. O risco de crescimento contínuo do número de casos nos próximos meses é real. As pessoas que já tiveram dengue no passado podem apresentar sintomas mais severos”, opinou.
Para esse infectologista, é importante que a população esteja atenta aos principais sintomas da doença, como febre alta repentina, dor de cabeça, dores no corpo e articulações, prostração, fraqueza e dor atrás dos olhos. Nesses casos, é importante procurar assistência hospitalar especializada.
David ressaltou também a importância da adoção de medidas recomendadas por autoridades sanitárias, evitando recipientes com acúmulo de água parada nos domicílios para que o vetor da dengue, o mosquito Aedes aegypti, não encontre ambientes propícios para proliferação.
O Brasil registrou aumento de quase 100 mil casos de dengue em apenas uma semana. Os casos passaram de 120 mil para o total de 217 mil apenas em janeiro.
O mês teve crescimento de 233% em relação ao mesmo período do ano passado. São 15 mortes já confirmadas no país e quase 150 estão em investigação.
Os dados são do Ministério da Saúde e foram apresentados, nesta terça-feira, 30, durante encontro de representantes das secretarias estaduais e municipais de saúde, em Brasília.
Paraná, Minas Gerais, Acre, Goiás e Distrito Federal apresentam as maiores incidências da doença. A distribuição da vacina contra a dengue pode começar na segunda semana de fevereiro. Segundo a ministra da Saúde, Nísia Trindade, a distribuição da vacina ainda não começou por conta de pendências do laboratório com a Anvisa.
*Da Agência Fonte Exclusiva com informações da EBC e TV Brasil. Compartilhe esta reportagem do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











