A possibilidade de uma nova paralisação dos ônibus municipais do Rio de Janeiro permanece aberta após mais uma tentativa frustrada de conciliação. Rodoviários e representantes das empresas encerraram sem acordo a audiência realizada nesta quarta-feira (15), no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região.
Durante a reunião, o Rio Ônibus apresentou uma proposta de reajuste de 5% para os salários e para o valor da cesta básica. A oferta foi rejeitada pelos trabalhadores, que consideraram o percentual insuficiente diante das perdas salariais e das demais reivindicações apresentadas na campanha coletiva.
A categoria permanece em estado de greve, mas os ônibus continuam circulando normalmente. Uma nova audiência foi marcada para a próxima quarta-feira, 22 de julho, quando as partes voltarão a discutir uma possível solução para o conflito.
O reajuste é apenas um dos pontos que dificultam o entendimento. Os trabalhadores também reclamam das jornadas prolongadas, da falta de estrutura nos terminais e da dificuldade para usufruir do intervalo destinado à alimentação e ao descanso.
A pauta originalmente aprovada pela categoria previa reajuste salarial de 17%, piso de R$ 5 mil para motoristas de ônibus articulados do BRT e de R$ 4 mil para os demais condutores. Os rodoviários também reivindicam tíquete-alimentação de R$ 1 mil, planos de saúde e odontológico, manutenção da gratuidade nos ônibus e pagamento do intervalo não concedido.
Durante as rodadas de negociação, o sindicato reduziu o pedido de reajuste de 17% para 12%, com possibilidade de pagamento em duas parcelas de 6%. Mesmo com a flexibilização, a proposta patronal permaneceu distante do percentual defendido pelos trabalhadores.
Intervalo para refeição dificulta acordo
Uma das principais divergências envolve os 30 minutos previstos para alimentação e descanso durante a jornada. O Sindicato dos Rodoviários afirma que, em muitas linhas, os profissionais não conseguem interromper efetivamente o trabalho por causa dos horários definidos pelas empresas e das condições da operação.
Segundo a categoria, o período aparece formalmente como intervalo, mas motoristas e demais trabalhadores permanecem à disposição ou precisam retomar rapidamente as viagens. Por esse motivo, o sindicato reivindica que os 30 minutos sejam pagos quando o descanso não for concedido de maneira adequada.
A indenização do intervalo já fazia parte da pauta aprovada em assembleia antes do início das negociações. Os trabalhadores argumentam que a medida serviria para remunerar um período que, embora retirado da jornada, não seria utilizado livremente para alimentação ou recuperação física.
Durante a audiência desta quarta-feira, o tema voltou a impedir avanços. A representante do Ministério Público do Trabalho pediu que as empresas avaliassem alternativas para solucionar a discussão relacionada à jornada.
O desembargador responsável pela mediação reconheceu a relevância da reivindicação, mas indicou que a questão possui diferenças entre as empresas e já aparece em processos judiciais. Uma eventual solução poderá exigir análises específicas das escalas e das condições encontradas em cada operação.
Os rodoviários também afirmam que a jornada prevista de sete horas e meia nem sempre corresponde ao período efetivamente trabalhado. Há relatos de profissionais que permanecem em serviço por até 12 horas, especialmente quando enfrentam atrasos, congestionamentos, falta de substitutos e intervalos insuficientes.
Para o sindicato, a combinação entre jornadas extensas, pressão para cumprir os horários das linhas e falta de locais adequados para descanso aumenta o desgaste físico e emocional dos trabalhadores.
As reclamações incluem problemas de manutenção nos terminais, falta de água e ausência de espaços adequados para alimentação. A categoria sustenta que melhores condições de descanso também são necessárias para a segurança dos passageiros, já que os motoristas trabalham diariamente sob elevada responsabilidade.
Greve durou três dias
A paralisação começou em 29 de junho, após o fracasso das primeiras negociações da campanha salarial. Naquele momento, as empresas ofereciam reajuste de 4,39%, percentual recusado pelos trabalhadores.
A greve foi suspensa em assembleia realizada no dia 1º de julho, depois de três dias de mobilização. Os ônibus voltaram a circular normalmente no dia seguinte, mas a categoria decidiu permanecer em estado de greve enquanto prosseguissem as negociações mediadas pelo TRT-RJ.
Durante a paralisação, passageiros enfrentaram maior tempo de espera e redução da frota em diferentes regiões da cidade. A Justiça do Trabalho havia determinado inicialmente a circulação de pelo menos 50% dos ônibus e, posteriormente, ampliado o percentual mínimo para 80%.
A suspensão do movimento foi adotada para permitir a continuidade das conversas, mas não representou o encerramento da mobilização. O estado de greve permite que os trabalhadores convoquem novas assembleias e avaliem a retomada da paralisação caso considerem definitivamente esgotadas as possibilidades de acordo.
Uma eventual nova greve deverá observar as formalidades legais e as determinações da Justiça do Trabalho, especialmente porque o transporte coletivo é considerado um serviço essencial.
Desde a interrupção da paralisação, foram realizadas sucessivas audiências. As partes discutiram reajustes, pisos salariais, benefícios, contratos de trabalho, intervalos, escalas e condições estruturais. Até agora, porém, não houve consenso suficiente para a assinatura de uma nova convenção coletiva.
Nova audiência será decisiva
A expectativa está agora concentrada na reunião de 22 de julho. Até lá, o Rio Ônibus poderá apresentar uma nova proposta financeira, enquanto o sindicato deverá avaliar quais pontos ainda podem ser flexibilizados.
A diferença entre os 12% reivindicados pelos trabalhadores e os 5% oferecidos pelas empresas permanece como o principal obstáculo econômico. A discussão sobre o intervalo intrajornada, porém, também se consolidou como uma das questões mais difíceis da negociação.
Além do índice salarial, a categoria mantém a cobrança por pisos diferenciados, tíquete-alimentação de R$ 1 mil, plano de saúde e alterações nas condições de trabalho.
Caso a próxima audiência também termine sem entendimento, o dissídio poderá avançar para julgamento. Nesse cenário, caberá à Justiça do Trabalho definir as cláusulas econômicas e sociais aplicáveis à categoria, considerando as propostas apresentadas e as condições financeiras do setor.
A solução judicial, entretanto, costuma ser tratada como último recurso. O TRT-RJ continuará tentando construir um acordo capaz de evitar nova paralisação e reduzir os impactos sobre os milhares de passageiros que dependem diariamente dos ônibus municipais.
Enquanto as negociações prosseguem, os coletivos permanecem em circulação. Os trabalhadores, porém, mantêm o estado de greve e aguardam uma proposta que contemple não apenas a recomposição salarial, mas também as reclamações relacionadas às jornadas e à estrutura disponível durante o expediente.
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