Um peixe que durante muito tempo teve pouco valor comercial passou a representar uma importante fonte de renda e valorização cultural para mulheres de Magé, na Baixada Fluminense. Na Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé (ACAMM), a ubarana é transformada em diferentes receitas dentro da chamada Cozinha das Caranguejeiras.
Estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, coxinhas, croquetes, quibes e risoles estão entre os alimentos preparados pelas participantes. A iniciativa combina conhecimentos transmitidos entre gerações com novas formas de aproveitamento do pescado.
Além de contribuir para a renda das famílias, o projeto fortalece a convivência comunitária e está ligado a ações de preservação dos manguezais e dos ambientes naturais da Baía de Guanabara.
Ubarana ganha novas possibilidades na cozinha
A ubarana é encontrada em regiões costeiras e estuarinas e também faz parte da fauna dos manguezais da Baía de Guanabara. Apesar disso, o pescado tradicionalmente não despertava grande interesse comercial devido à presença de numerosas espinhas finas em sua carne.
As mulheres da ACAMM desenvolveram técnicas próprias para retirar e processar a carne do peixe, permitindo que ela seja utilizada em diferentes preparações sem comprometer o consumo.
A solução transformou um alimento que era principalmente destinado ao consumo das próprias famílias em uma matéria-prima para produtos comercializados pela comunidade.
Atualmente, 15 mulheres participam diretamente das atividades da Cozinha das Caranguejeiras. Elas se revezam nas tarefas e recebem parte dos valores obtidos com a venda dos alimentos.
Conhecimento tradicional virou oportunidade de renda
A relação da comunidade com a ubarana é antiga. O peixe já fazia parte da alimentação das famílias que vivem próximas ao Rio Suruí, no entorno da Baía de Guanabara.
Márcia Regina, de 62 anos, é um dos exemplos dessa ligação. Depois de quatro décadas trabalhando como pescadora, ela se aposentou da atividade, mas continua atuando na cozinha e na secretaria da associação.
Com a organização das mulheres, técnicas que antes eram utilizadas dentro de casa passaram a ser compartilhadas e aprimoradas para atender também à produção comercial.
A Cozinha das Caranguejeiras começou a ganhar estrutura em 2021, após a ACAMM ser contemplada por um edital do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). O recurso possibilitou a criação de um espaço provisório.
Em 2024, um novo apoio permitiu que as atividades fossem transferidas para uma área maior dentro da própria associação. Desde então, o local passou a receber encomendas e almoços especiais, além de visitantes interessados em conhecer a iniciativa.
Cardápio nasceu da experiência das próprias mulheres
A criação dos pratos aconteceu de maneira coletiva. As participantes testavam receitas em suas próprias casas e levavam os resultados para serem avaliados e aperfeiçoados em conjunto.
Com o tempo, diferentes preparações foram incorporadas ao cardápio. A experiência começou com a utilização da ubarana como alimento e petisco e evoluiu para uma atividade capaz de gerar renda.
O processo também ajudou a modificar a percepção da comunidade sobre o pescado. O que antes era considerado pouco atrativo comercialmente passou a ser visto como uma possibilidade de trabalho e aproveitamento sustentável dos recursos disponíveis no território.
Cozinha também virou espaço de convivência
O projeto não se limita à geração de renda. A cozinha também se tornou um ponto de encontro para as participantes, que encontram no trabalho coletivo uma oportunidade de compartilhar experiências e fortalecer vínculos.
Para Márcia Regina, a convivência ajuda mulheres que chegam ao espaço enfrentando diferentes dificuldades. A rotina de produção permite conversar, trocar experiências e desenvolver atividades em grupo.
A estrutura da ACAMM beneficia ainda outras famílias da região. Ao todo, 24 famílias são atendidas pela associação, incluindo pescadores que podem utilizar o espaço para eventos particulares mediante valores reduzidos.
Preservação ambiental faz parte da iniciativa
A geração de renda está diretamente relacionada à conservação ambiental. Para a comunidade, a manutenção da atividade pesqueira depende da qualidade dos rios, manguezais e demais ecossistemas da região.
Por isso, integrantes da associação participam de ações de limpeza, recuperação e replantio de manguezais. A preocupação é preservar os ambientes que garantem a reprodução e a sobrevivência de diferentes espécies.
Desde janeiro, pescadores artesanais e catadores de caranguejo já retiraram 12.622 quilos de resíduos do Rio Suruí e de suas margens por meio da Operação LimpaOca, realizada pela ONG Guardiões do Mar.
A proposta estabelece uma relação direta entre conservação e economia: quanto mais preservado estiver o ambiente, melhores serão as condições para as atividades que dependem dos recursos naturais.
Turismo comunitário amplia alcance do projeto
A Cozinha das Caranguejeiras também passou a integrar iniciativas de Turismo de Base Comunitária. A região de Magé possui áreas naturais e patrimônios históricos que podem fazer parte de roteiros de educação ambiental e valorização da cultura local.
Entre as experiências estão passeios pelo Rio Suruí, observação da fauna e da flora e atividades de contemplação de botos na Baía de Guanabara.
A intenção é fazer com que os visitantes conheçam não apenas a gastronomia, mas também a realidade das famílias, a importância dos manguezais e as ações desenvolvidas para conservar o território.
Assim, a cozinha funciona como um ponto de conexão entre gastronomia, cultura, geração de renda e educação ambiental.
Parcerias ajudam a manter as ações
A Cozinha das Caranguejeiras e a ACAMM contam com apoio do Projeto Andadas Ecológicas, desenvolvido pela ONG Guardiões do Mar em parceria com a Petrobras.
O projeto realiza ações relacionadas à educação ambiental, recuperação de rios e manguezais, Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e outras iniciativas construídas a partir do diálogo com lideranças e moradores locais.
A experiência desenvolvida em Magé mostra como conhecimentos tradicionais podem ganhar novas funções dentro da comunidade. Ao transformar a ubarana em diferentes alimentos, as mulheres ampliam as possibilidades de renda, fortalecem a cultura local e contribuem para a preservação dos ecossistemas da Baía de Guanabara.
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