A 12ª edição da marcha realizada no Rio de Janeiro reuniu reivindicações por democracia, justiça social, reparação histórica e políticas públicas de enfrentamento ao racismo.
O ato também valorizou a cultura, a identidade e a ancestralidade da população negra por meio de apresentações artísticas, faixas, turbantes, músicas e discursos. Participantes de diferentes idades percorreram a orla defendendo o direito a uma vida digna, segura e livre de discriminação.
A mobilização ocorreu um dia depois do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrados no sábado (25).
Bem-viver orienta reivindicações
O conceito de bem-viver ocupou posição central na marcha. Para o movimento, a proposta envolve muito mais do que garantir condições mínimas de sobrevivência.
As participantes reivindicaram acesso a emprego, renda, segurança, saúde, educação, moradia e participação política, além do reconhecimento das contribuições da população negra para a construção da sociedade brasileira.
A coordenadora do Fórum Estadual de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, Clátia Vieira, destacou que a conquista do bem-viver depende da implementação de medidas reparadoras.
Segundo ela, o poder público precisa ampliar a escuta das mulheres negras durante a formulação de políticas públicas e reconhecer a ligação entre racismo, desigualdade econômica, desemprego e violência.
Movimento cobra ações estruturais
Durante o percurso, as manifestantes defenderam que o racismo seja enfrentado como um problema estrutural, com ações permanentes e participação direta das pessoas atingidas pelas desigualdades.
A marcha chamou atenção para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras nos mercados de trabalho e renda, nos espaços de poder e no acesso a serviços públicos.
As reivindicações também incluíram medidas capazes de reduzir a vulnerabilidade social e econômica, garantir proteção contra diferentes formas de violência e ampliar a presença feminina negra nas decisões políticas.
Famílias acompanham caminhada
A mobilização contou com a presença de famílias, crianças, jovens e idosos. A educadora Bárbara Carine levou os filhos para acompanhar o ato e destacou a importância de aproximar as novas gerações dos espaços de participação política.
Para ela, o contato com esses movimentos contribui para que as crianças compreendam suas identidades, conheçam os direitos conquistados e reconheçam os desafios que ainda precisam ser enfrentados.
Bárbara afirmou que a marcha também permite projetar um futuro no qual as mulheres negras não precisem concentrar suas lutas apenas na sobrevivência, mas possam viver com liberdade, segurança, dignidade e reconhecimento.
Memória de Marielle Franco acompanha ato
A imagem de Marielle Franco esteve presente durante toda a caminhada. A vereadora, assassinada em 2018, foi lembrada em faixas, camisetas e manifestações das participantes.
Marielle participou da edição de 2017 e permanece como símbolo da luta por direitos humanos, participação política e representatividade das mulheres negras.
A mãe da vereadora, Marinete Silva, acompanhou a mobilização e afirmou que a filha deveria estar novamente nas ruas ao lado das demais participantes.
Segundo Marinete, o assassinato não conseguiu interromper as pautas defendidas por Marielle. Para ela, manter a ocupação das ruas também representa uma forma de preservar sua memória e dar continuidade aos projetos relacionados à ampliação da presença feminina na política.
Cultura negra ganha destaque
As reivindicações políticas foram acompanhadas por manifestações culturais ligadas às raízes africanas e à resistência da população negra.
Os grupos Afrolaje, Angoleiras e Obara Ylê de Ouro participaram da programação com apresentações de música, dança e outras expressões artísticas.
A presença desses elementos transformou a marcha em um ambiente de celebração da ancestralidade e reafirmação da identidade negra.
Cinthia Garcia e Laísse Santos destacaram o sentimento de pertencimento proporcionado pela mobilização. Para elas, o encontro permite que pessoas com trajetórias, identidades e reivindicações semelhantes ocupem o mesmo espaço com liberdade.
Cinthia ressaltou que cabelos, roupas, turbantes e demais símbolos ancestrais devem ser usados com orgulho, sem que mulheres negras sejam alvo de críticas ou discriminação.
Afroturismo recupera participação negra
Moradoras de Maricá, Cinthia e Laísse trabalham com afroturismo e utilizam a atividade para recuperar histórias da população negra que foram apagadas ou receberam pouca visibilidade ao longo do tempo.
Segundo elas, muitas cidades são apresentadas a partir das trajetórias de personalidades brancas, enquanto o trabalho e os conhecimentos das comunidades negras raramente recebem o mesmo reconhecimento.
A atividade desenvolvida pelas duas busca identificar quem participou da construção dos territórios e como a população negra contribuiu para a formação econômica, social e cultural dos municípios.
Esse resgate histórico também integra as reivindicações por reparação apresentadas durante a marcha.
Ato une política, memória e celebração
Ao ocupar uma das regiões mais conhecidas do Rio de Janeiro, a Marcha das Mulheres Negras reuniu cobrança por medidas governamentais, defesa das instituições democráticas, valorização da memória e celebração das raízes africanas.
O ato reforçou a necessidade de ampliar a participação das mulheres negras na construção das políticas que afetam diretamente suas vidas.
Para as manifestantes, alcançar o bem-viver exige superar desigualdades históricas e garantir condições para que a população negra exerça seus direitos com dignidade, segurança, liberdade e reconhecimento.
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