A desigualdade na divisão das responsabilidades dentro de casa permanece como um dos fatores que podem aumentar a vulnerabilidade das mulheres diante da violência de gênero. Especialistas apontam que a sobrecarga com filhos, familiares e tarefas domésticas, associada a dependências financeiras, emocionais e psicológicas, pode dificultar o afastamento de relacionamentos abusivos.
O debate ganha destaque nesta sexta-feira (7), quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Criada para prevenir a violência doméstica, responsabilizar agressores e ampliar mecanismos de proteção às vítimas, a legislação se tornou um dos principais instrumentos de enfrentamento à violência contra mulheres no país.
Segundo a professora Thamires da Silva Ribeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), pesquisadora de políticas de cuidado, a ausência de uma rede de apoio pode contribuir para que muitas mulheres permaneçam em situações de violência.
Para a especialista, o isolamento dentro do ambiente doméstico e a falta de autonomia econômica reduzem as possibilidades de rompimento de ciclos de agressão, especialmente quando a vítima depende do parceiro para manter a estrutura familiar.
Thamires também destaca que mulheres negras enfrentam desafios ainda maiores devido às desigualdades históricas e sociais. Segundo ela, esse grupo costuma assumir uma parcela significativa das responsabilidades de cuidado, acumulando dificuldades relacionadas à renda, acesso a serviços e proteção social.
Mulheres dedicam quase o dobro do tempo ao trabalho doméstico
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua de 2022 evidenciam a desigualdade na distribuição das tarefas dentro de casa. As mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado, enquanto os homens destinam 11,7 horas para essas atividades.
Na avaliação da professora, a Política Nacional de Cuidados representa um avanço ao propor uma divisão mais equilibrada dessas responsabilidades entre homens, mulheres, Estado e sociedade.
A medida busca reduzir a sobrecarga feminina e ampliar as condições para que mulheres tenham mais acesso ao trabalho, à renda e a redes de apoio.
A especialista em geriatria e gerontologia Christine Silveira Abdalla, fundadora da Associação Cuidadosa, afirma que a falta de reconhecimento do trabalho de cuidado também pode ser entendida como uma forma de violência contra muitas mulheres.
Segundo ela, diversas mulheres interrompem estudos, carreiras e atividades sociais para assumir sozinhas responsabilidades familiares, o que pode limitar sua autonomia.
Dependência emocional também influencia permanência em relações abusivas
Além da dependência financeira, especialistas ressaltam que fatores emocionais e psicológicos também podem dificultar a saída de relacionamentos violentos.
A advogada e professora universitária Marilha Boldt explica que a independência financeira, embora seja importante, nem sempre garante autonomia completa dentro de uma relação.
Segundo ela, algumas mulheres continuam em situações abusivas devido à manipulação psicológica, ao medo, à insegurança e aos impactos causados pela violência emocional.
A violência psicológica pode afetar a autoestima e a percepção da própria capacidade de reação da vítima, dificultando o reconhecimento de alternativas e a busca por ajuda.
Dados mostram avanço da violência contra mulheres
Os registros oficiais mostram a dimensão do problema no Brasil. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país contabilizou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, crescimento de 4% em relação ao ano anterior.
O levantamento aponta ainda que oito em cada dez feminicídios foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros das vítimas.
Entre outros registros de violência estão:
- 286,3 mil casos de agressão doméstica;
- 788,6 mil ocorrências de ameaça;
- 132 mil registros de descumprimento de medidas protetivas de urgência.
Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Estrutura social ainda influencia ciclo da violência
A superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Secretaria Estadual e de Políticas Inclusivas do Rio de Janeiro, Claudia Araujo, destaca que padrões sociais antigos ainda reforçam a ideia de que a mulher deve ser a principal responsável pelo cuidado da casa e da família.
Segundo ela, muitas vítimas enfrentam julgamentos quando decidem romper relacionamentos, justamente por contrariar expectativas construídas historicamente.
Claudia reforça que a Lei Maria da Penha criou mecanismos fundamentais de proteção e que mulheres em situação de violência não precisam enfrentar o problema sozinhas.
Delegacias especializadas, serviços de atendimento e medidas protetivas são recursos disponíveis para interromper situações de risco.
Denúncias podem ser feitas pelo Ligue 180
Mulheres vítimas de violência ou pessoas que tenham conhecimento de casos podem buscar ajuda por meio da Central de Atendimento à Mulher, pelo número 180.
O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia, oferecendo orientação e encaminhamento para a rede de proteção.
Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 9610-0180 ou pelo e-mail [email protected].
Em situações de emergência, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190. A vítima também pode procurar Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e órgãos da Defensoria Pública para solicitar apoio e medidas de proteção.
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