A Polícia Federal vai apurar a disputa envolvendo o atacante Richarlison e o advogado Willer Tomaz pelos direitos de ocupação de um imóvel de alto valor na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro. A investigação será incorporada a um inquérito já existente que apura suspeitas envolvendo Tomaz e sua relação com o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O jogador afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões no imóvel e questiona como os direitos de ocupação foram transferidos para uma empresa ligada ao advogado. Tomaz sustenta que adquiriu os direitos legalmente, enquanto Flávio nega participação direta na disputa.
O caso ganhou repercussão nacional depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou que pediria à PF uma investigação. A apuração busca esclarecer as circunstâncias da transferência e verificar se houve irregularidades nos procedimentos administrativos.
Transferência dos direitos é alvo de questionamentos
Um dos principais pontos da controvérsia envolve a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), responsável pela gestão de áreas pertencentes ao governo federal.
Segundo Richarlison, sua empresa aguardou aproximadamente dez meses por uma resposta sobre a regularização dos direitos relacionados ao imóvel. Já o pedido vinculado à empresa de Tomaz teria sido concluído em cerca de um dia, em julho de 2022.
Em nota divulgada em 23 de outubro, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos informou que recebeu, no dia 19, uma representação da organização Derrubando Muros solicitando a apuração de atos administrativos relacionados à área.
O ministério acionou suas instâncias de integridade e solicitou a colaboração da Controladoria-Geral da União (CGU). De acordo com o comunicado, os direitos de ocupação estavam registrados em nome da WT Administração de Imóveis e Bens S.A., ligada a Tomaz, desde 12 de julho de 2022.
A SPU também pediu providências ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para investigar denúncias de possíveis crimes ambientais na região. Essas medidas representam o início de verificações, não uma conclusão sobre a existência de irregularidades.
Richarlison e Willer Tomaz apresentam versões diferentes
Richarlison afirma que comprou os direitos de ocupação da propriedade entre 2020 e 2021, em uma negociação envolvendo sócios. O atacante questiona a transferência posterior para a empresa de Tomaz e diz ter documentos que, segundo ele, comprovam a aquisição.
O advogado, por outro lado, afirma que sua empresa realizou uma compra regular em 2022. Segundo informações publicadas pelo UOL, Tomaz declarou ter desembolsado R$ 3,6 milhões na negociação, incluindo R$ 600 mil registrados na escritura pública e cerca de R$ 3 milhões destinados a impostos atrasados.
A Prefeitura de Angra dos Reis avaliava o imóvel em aproximadamente R$ 2,6 milhões na época, conforme a reportagem. Os valores apresentados pelas partes e a origem dos direitos sobre a área estão entre os elementos que ajudam a explicar a disputa.
Tomaz também sustenta que a empresa ligada ao jogador perdeu ações judiciais e deixou de prosseguir com a disputa em 2025. A defesa do advogado afirma que os direitos foram adquiridos legalmente e contesta as acusações feitas pelo atacante.
Flávio Bolsonaro nega envolvimento direto
O senador Flávio Bolsonaro afirma que não comprou, vendeu ou intermediou o imóvel e nega participação em qualquer manobra para retirar os direitos de Richarlison. Sua assessoria já declarou que ele apareceu no processo judicial como testemunha, sem integrar diretamente a disputa.
O jogador, entretanto, acusa o senador e o advogado de terem atuado para que os direitos de ocupação fossem transferidos à empresa de Tomaz. As declarações de Richarlison são contestadas pelos dois envolvidos.
A controvérsia também foi mencionada durante o debate presidencial da TV Globo, realizado na sexta-feira (23). Na ocasião, Flávio afirmou que o jogador teria sido enganado por pessoas envolvidas na negociação e voltou a sustentar que a disputa judicial já havia sido decidida.
As versões divergentes tornam necessária a análise dos documentos administrativos, dos registros de ocupação e das decisões judiciais relacionadas ao imóvel.
O que a investigação pretende esclarecer
A inclusão do caso no inquérito da Polícia Federal amplia a apuração sobre a transferência dos direitos de ocupação da área em Angra dos Reis. Paralelamente, a SPU e órgãos de controle foram acionados para examinar os procedimentos administrativos e as denúncias relacionadas ao imóvel.
Como o terreno está em área pertencente à União, a controvérsia envolve direitos de ocupação e os registros administrativos correspondentes, e não necessariamente a propriedade plena do terreno nos mesmos moldes de um imóvel particular comum.
A investigação deverá examinar as circunstâncias da transferência, a documentação apresentada pelas partes e eventuais indícios de irregularidades. Até que as apurações sejam concluídas, as acusações devem ser tratadas como alegações, sem antecipar conclusões sobre a responsabilidade dos envolvidos.
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