As relações entre Brasil e Paraguai voltaram a ser alvo de atenção após o governo paraguaio reagir a declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, travada entre 1864 e 1870.
Na sexta-feira (28), representantes do governo do Paraguai entregaram ao embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes, uma nota oficial na qual classificaram as declarações de Lula como motivo de “absoluto rejeito”.
A manifestação diplomática veio acompanhada de uma nova cobrança para que o Brasil devolva objetos levados do Paraguai durante o conflito. Entre os itens mencionados estão os canhões Presidente López e El Cristiano.
O governo paraguaio também solicitou acesso a cópias de documentos relacionados à guerra que permanecem guardados em arquivos brasileiros.
Paraguai diz que declarações reabrem feridas históricas
O vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, afirmou que as declarações do presidente brasileiro acabam trazendo novamente à tona questões que ainda são sensíveis para o país.
O chanceler Rubén Ramírez Lezcano também se manifestou sobre o episódio. Segundo ele, os fatos históricos não podem ser modificados de acordo com discursos ou interpretações políticas do presente.
Mesmo diante da reação diplomática, o governo paraguaio destacou que não pretende colocar em segundo plano a relação com o Brasil.
A intenção, segundo as autoridades paraguaias, é manter a cooperação entre os dois países em setores considerados estratégicos, como energia, comércio e integração das regiões de fronteira.
A usina de Itaipu aparece entre os principais pontos dessa relação, já que Brasil e Paraguai compartilham a operação da hidrelétrica.
Canhão El Cristiano virou símbolo do conflito
Entre os objetos cuja devolução é reivindicada pelo Paraguai está o canhão El Cristiano, uma peça que se tornou um dos símbolos da Guerra da Tríplice Aliança.
O canhão foi fabricado no Paraguai em 1867, durante o conflito, utilizando bronze obtido a partir da fundição de sinos de igrejas.
A peça acabou capturada pelas tropas brasileiras e levada para o Brasil como troféu de guerra.
Com cerca de 12 toneladas, o armamento passou a representar um dos episódios mais marcantes da guerra para os paraguaios. Atualmente, o El Cristiano faz parte do acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
Lula já falou em devolver o canhão
A discussão sobre o destino do El Cristiano não é nova. O próprio presidente Lula já havia demonstrado disposição favorável à devolução da peça ao Paraguai.
A possibilidade de envio do canhão de volta ao país vizinho ganhou força justamente por causa de seu significado histórico e simbólico para os paraguaios.
Agora, com a nova manifestação oficial de Assunção, a questão volta ao centro das relações diplomáticas entre os dois países.
Apesar da divergência em torno da interpretação da Guerra do Paraguai e da posse de objetos históricos, os governos brasileiro e paraguaio continuam mantendo uma relação marcada por interesses econômicos, energéticos e comerciais.
A disputa em torno dos troféus de guerra, portanto, se soma a uma questão histórica que permanece sensível mais de 150 anos depois do fim do conflito.
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