A maior parte das cidades brasileiras ainda não está preparada para enfrentar os impactos das ondas de calor extremo.
É o que aponta um levantamento divulgado nesta quarta-feira (3), que revela que 66% dos municípios avaliados estão apenas iniciando ou sequer começaram a desenvolver estratégias específicas para lidar com temperaturas cada vez mais elevadas.
O estudo foi realizado no contexto das ações da presidência brasileira da COP30 em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e integra o Mutirão Contra o Calor Extremo, iniciativa que reúne centenas de cidades em diversos países, incluindo mais de uma centena de municípios brasileiros.
Entre as 53 cidades analisadas no Brasil, 93% dos gestores públicos reconhecem que o calor extremo representa um problema relevante para suas localidades.
Além disso, 68% classificam o fenômeno entre os principais desafios enfrentados pelas administrações municipais. Apesar disso, a maioria das cidades ainda não possui mecanismos estruturados para adaptação.
A pesquisa aponta que a falta de recursos financeiros, planejamento e sistemas de monitoramento está entre os principais obstáculos. Cerca de 75% dos municípios informaram que não utilizam dados estruturados para orientar decisões relacionadas ao calor extremo, enquanto 85% dependem de recursos externos para implementar medidas de adaptação climática.
Outro dado preocupante é que apenas 42% das cidades contam com sistemas de georreferenciamento capazes de identificar áreas mais vulneráveis aos impactos das altas temperaturas, dificultando a elaboração de políticas públicas mais eficientes.
As ações mais adotadas atualmente envolvem soluções baseadas na natureza. Aproximadamente 77% dos municípios participantes investem em iniciativas como arborização urbana, ampliação de áreas verdes, criação de espaços sombreados, parques e recuperação de áreas úmidas.
Em contrapartida, medidas voltadas ao resfriamento passivo de construções e espaços urbanos ainda são pouco utilizadas.
O levantamento também identificou fragilidades nas políticas de compras públicas. Mais de 80% das cidades ainda não incorporam critérios relacionados ao resfriamento urbano sustentável em processos de contratação e planejamento de obras.
Especialistas alertam que o calor extremo não se resume a dias isoladamente quentes. O fenômeno ocorre quando temperaturas elevadas permanecem por vários dias consecutivos e o calor acumulado durante o dia não se dissipa adequadamente durante a noite, aumentando os riscos à saúde da população e gerando impactos no abastecimento de água, no consumo de energia, na agricultura e na infraestrutura urbana.
Dados internacionais indicam que o calor extremo está associado a aproximadamente 500 mil mortes por ano em todo o mundo.
No Brasil, estimativas apontam que cerca de 50 mil mortes registradas em regiões metropolitanas entre 2000 e 2020 tiveram relação com ondas de calor, superando o número de vítimas causadas por enchentes e deslizamentos no mesmo período.
Diante desse cenário, o Mutirão Contra o Calor Extremo pretende apoiar municípios na elaboração de diagnósticos, planos de adaptação e mecanismos de financiamento.
Mais da metade das cidades participantes informou que pretende criar políticas específicas para enfrentar o problema nos próximos meses.
A preocupação aumenta diante das previsões climáticas que indicam a possibilidade de um Super El Niño na segunda metade de 2026.
O fenômeno poderá intensificar secas e incêndios no Norte e Nordeste, ampliar a ocorrência de ondas de calor no Centro do país e provocar eventos de chuva intensa na Região Sul.
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