A tentativa de feminicídio sofrida em 6 de fevereiro de 2017 ainda provoca dor e emoção em Evelyn Lucy Alves da Luz, 44 anos, agente de educação infantil do município do Rio de Janeiro. Os disparos feitos pelo ex-marido — na frente da filha, então com 6 anos — deixaram marcas físicas e emocionais que seguem presentes quase nove anos depois.
“Ele desferiu os tiros na frente da criança. Ela presenciou a mãe sendo quase morta, tornando esse crime ainda mais cruel”, disse Evelyn em entrevista durante o ato Na Rua por Mulheres Vivas!, realizado neste domingo (7) no posto 5 da Praia de Copacabana.
A filha, segundo ela, ainda sofre os efeitos do trauma. “Infelizmente, ela não fala sobre o assunto. Luto diariamente para que tenha uma vida saudável, mas é muito difícil depois do que vivenciou”, lamentou.
O ataque ocorreu em Vila Isabel, na zona norte do Rio, logo após o ex-marido devolver a criança de um encontro monitorado pela Justiça. Minutos depois, ele voltou ao endereço e atirou três vezes: dois tiros atingiram o abdômen de Evelyn — que perdeu o baço, parte do fígado e o ovário esquerdo — e um feriu o rosto. Ela permaneceu 21 dias internada, sendo 11 em UTI.
“Carrego marcas físicas e emocionais até hoje. Poderia ter virado uma estatística, mas estou aqui porque sou uma sobrevivente”, afirmou.
Rede de apoio e ausência do Estado
Evelyn relata que encontrou suporte apenas em outras mulheres, amigas, grupos e coletivos feministas. Entre essas pessoas, destaca Vanderlea Aguiar, militante do Movimento Emancipa, que a ajudou nos primeiros momentos após o crime.
“Recebi apoio de pessoas, não de instituições. Não tive assistência psicológica, auxílio financeiro, acompanhamento jurídico, nada do governo. Tive que me reerguer sozinha”, criticou.
O agressor chegou a ser preso, mas foi solto em 2024. Evelyn afirma que soube disso por conta própria, ao pesquisar na internet. “Ninguém me avisou. Esse é mais um motivo para eu estar aqui”, desabafou.
Manifestação cobra políticas de proteção
Vanderlea Aguiar, 49 anos, também participou do ato. Para ela, apoiar mulheres como Evelyn é parte da luta pela sobrevivência. “Estamos cansadas de ver mulheres morrendo só por serem mulheres. Dizer ‘chega’ é afirmar que somos donas de nossas vidas”, declarou.
Adriana Herz Domingues, psicóloga e coordenadora estadual do Coletivo Juntas, reforçou a necessidade de políticas públicas estruturadas. Ela destacou a importância da Lei Maria da Penha, de debates sobre machismo nas escolas e do fortalecimento de serviços de acolhimento, ainda insuficientes no país.
“É essencial que a mulher saiba reconhecer a violência e tenha onde buscar apoio. Sem assistência psicológica, sem emprego e sem rede de proteção, muitas não conseguem sair do ciclo de agressões”, afirmou.
Girassóis contra o feminicídio
No ato, cruzes pretas foram colocadas na pista da orla para simbolizar as vítimas de feminicídio. Ao lado delas, a professora aposentada Deise Coutinho, 68 anos, depositou girassóis — símbolo da luta pela vida das mulheres. Ela representou o Sindicato dos Professores de Escolas Particulares.
“Girassol é uma flor que se levanta. Estamos aqui para nos levantar contra essa matança”, declarou.
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