As redes públicas de ensino de todo o Brasil estão sendo orientadas a reforçar a preparação das escolas para enfrentar eventos climáticos extremos. Uma nota técnica elaborada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, em parceria com o Instituto Alana, reúne medidas para reduzir riscos e proteger estudantes, profissionais da educação e comunidades escolares.
O documento, intitulado “El Niño 2026-2027: Orientações para a preparação das redes de ensino brasileiras”, defende que a adaptação às mudanças climáticas deixe de ser tratada apenas como uma resposta emergencial e passe a fazer parte do planejamento permanente da Educação. A recomendação também está alinhada ao Plano Nacional de Educação 2026-2036.
Entre as ameaças consideradas estão ondas de calor, períodos prolongados de seca, inundações, alagamentos, tempestades, vendavais e incêndios florestais. Esses fenômenos podem comprometer não apenas o funcionamento das unidades escolares, mas também a saúde, a segurança, o deslocamento dos estudantes e a continuidade das aulas.
A preocupação aumentou com o fortalecimento do El Niño. O monitoramento do Oceano Pacífico Tropical apontou anomalia de aproximadamente 1,8°C em agosto de 2026. As projeções indicam probabilidade superior a 90% de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre setembro e novembro, com período de maior intensidade esperado para os meses seguintes.
Os especialistas ressaltam, porém, que o El Niño não provoca sozinho um desastre. Os impactos dependem também da vulnerabilidade das comunidades, da localização das escolas, das condições das edificações, da infraestrutura urbana e da capacidade de cada município para prevenir e responder às emergências.
A dimensão da rede educacional aumenta o desafio. A nota considera um universo de cerca de 150 mil escolas públicas brasileiras e aponta que mais de 40 milhões de crianças e adolescentes estão expostos, em diferentes níveis, a ameaças relacionadas a inundações, escassez de água e calor extremo.
Nas capitais brasileiras, levantamento do Instituto Alana, MapBiomas e Fiquem Sabendo identificou 370.530 estudantes da educação infantil e do ensino fundamental matriculados em escolas situadas em áreas sujeitas a riscos climáticos, como enchentes e deslizamentos.
Uma das principais recomendações é que estados e municípios façam um diagnóstico detalhado de suas unidades de ensino. O levantamento deve considerar a localização das escolas, as condições das construções, acessibilidade, rotas de deslocamento, infraestrutura disponível e os riscos existentes no entorno.
A partir dessas informações, os gestores podem definir prioridades e direcionar recursos primeiro às unidades mais vulneráveis. A orientação inclui previsão orçamentária específica para medidas de adaptação climática e redução de riscos.
A preparação não deve ficar restrita às secretarias de Educação. A nota recomenda articulação permanente com Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Saúde, Assistência Social, Meio Ambiente e setores responsáveis pelo planejamento urbano.
Também é necessário estabelecer previamente quem toma decisões em situações de emergência, como os alertas serão repassados às escolas e às famílias e quais medidas deverão ser adotadas em cada tipo de ocorrência. O acompanhamento dos avisos oficiais meteorológicos, hidrológicos e de Defesa Civil deve fazer parte dessa rotina.
As equipes escolares devem receber capacitação periódica para saber como agir durante ondas de calor, enchentes, tempestades, incêndios e outras situações de risco. A orientação prevê protocolos específicos e a realização de exercícios simulados pelo menos uma vez por ano.
Outra preocupação é assegurar a continuidade do ensino quando as aulas presenciais precisarem ser suspensas. As redes devem definir antecipadamente alternativas de funcionamento, comunicação com os estudantes e retomada das atividades depois da emergência.
As recomendações incluem intervenções físicas nas escolas. Melhorias na ventilação, manutenção preventiva, ampliação de áreas verdes e aumento da cobertura vegetal estão entre as medidas apontadas para reduzir o desconforto provocado pelo calor e melhorar o manejo da água das chuvas.
A adaptação deve considerar as características climáticas de cada região, além das condições sociais, culturais e de acessibilidade das comunidades atendidas.
O documento recomenda ainda que a gestão de riscos, a educação ambiental e o letramento climático sejam incorporados aos projetos político-pedagógicos das escolas, transformando a prevenção em parte da formação dos alunos e não apenas em uma atividade realizada durante emergências.
Outro ponto destacado é o uso das unidades escolares como abrigo após desastres. A orientação é que os municípios identifiquem previamente outros espaços adequados para receber famílias desabrigadas.
As escolas só deveriam ser utilizadas para essa finalidade em situações excepcionais e por período limitado. A medida busca evitar interrupções prolongadas das aulas e preservar o direito dos estudantes à educação.
Para o Cemaden, preparar as escolas para desastres significa trabalhar antes que a emergência aconteça. A Educação para Redução de Riscos de Desastres propõe justamente desenvolver conhecimentos e procedimentos que permitam às comunidades escolares prevenir, enfrentar e se recuperar de situações críticas.
O cenário climático previsto para os próximos meses torna essa preparação ainda mais urgente. As projeções indicam possibilidade de chuvas acima da média em áreas do Sul, enquanto partes do Centro-Norte podem enfrentar menos precipitação, temperaturas elevadas, déficit hídrico e maior risco de incêndios.
A nota técnica completa está disponível no portal oficial do Cemaden. Acessar a Nota Técnica El Niño 2026-2027
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