As investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) devem avançar sobre um dos mais escandalosos esquemas de corrupção da história recente do Espírito Santo.
No centro da trama está novamente o lavador de carros Welter Costa — o delator que, no capítulo anterior da série República dos Royalties, revelou o funcionamento de uma engrenagem criminosa que opera sob o manto do poder público em Presidente Kennedy, município bilionário em royalties do petróleo, no sul do Espírito Santo.
A reportagem teve acesso a parte das revelações que apontam para o que seria o descaminho do dinheiro público da cidade que tem uma das maiores rendas per captas do país.
Desta vez, os holofotes recaem sobre um contrato administrativo de R$ 19.761.040,92, firmado com a construtora Patamar, e inflado por nada menos que 15 aditivos — entre apostilamentos e aditivos formais.
As modificações contratuais entre o município e a empresa extrapolaram o limite legal de 25% e somaram mais de R$ 40 milhões em repasses públicos, ultrapassando o dobro do valor originalmente licitado.
Um esquema robusto, amarrado por relações íntimas entre empresários e agentes públicos do alto escalão do município. As investigações estariam enfrentando obstáculos em função do aparelhamento político no âmbito da segurança Pública Estado do Espírito Santo.
O governador Renato Casagrande (PSB) é um dos principais padrinhos do grupo político do ex-prefeito de Presidente Kennedy (PSB), Dorley Fontão (PSB), que teve o mandato cassado por ter disputado o terceiro mandato, conduta vedada pela legislação.
O grupo político, no entanto, continua comandando a cidade por meio do prefeito interino, o presidente da Câmara de Vereadores, Júnior de Gromobol (PSB).
Algumas denúncias referentes ao uso de verbas Federais estariam sendo compartilhadas com outros órgãos de controle externo, o que pode fazer com que as apurações fora da estrutura do Estado transcorra de forma mais célere.
O centro de gravitação que aciona as sirenes no Estado do Espírito Santo está deixando as bolsas de apostas nervosas. Um dos nomes mais badalados é do procurador-Geral de Presidente Kennedy, Rodrigo Lisboa. A cidade no sul do Estado está no mapa de um tsunami. pic.twitter.com/dP203wKprk
— Roberto Barbosa (@rgbarbosa) June 3, 2025
A engrenagem do favorecimento
O contrato Administrativo nº 0189/2022, do processo nº 019556/2021 (Concorrência Pública nº 004/2021), foi manipulado para beneficiar a Construtora Patamar, de propriedade de Cesar Campinho Dias Passos, companheiro da subprocuradora do município e braço-direito do procurador municipal Rodrigo Lisboa, um dos principais alvos da investigação, segundo consta nos autos que estaria em poder da Draco.
Ao longo da execução, foram feitos 12 termos de apostilamento e 7 aditivos contratuais, todos aprovados pela administração municipal.
A empresa ainda venceu sozinha outro certame milionário, com valor de R$ 200 milhões, em um edital relâmpago publicado no fim de dezembro de 2023, com abertura marcada para o dia 31 daquele mês — em pleno “apagar das luzes” do ano.
“Isso é algo inacreditável. É muita certeza de impunidade”, destaca Jean Azevedo, especialista em licitação pública, ao ter acesso ao conteúdo da exibido pela reportagem.

Assinatura forjada e 12 milhões desviados
Welter Costa, apontado como laranja da empresa Shark Negócios e Empreendimentos, voltou ao centro das atenções ao detalhar como seu nome foi usado para fraudes documentos que resultaram em R$ 12 milhões transferidos pela Prefeitura de Presidente Kennedy, em 2023 — ano em que, segundo ele, não havia qualquer contrato vigente com o município.
Ao acessar a conta digital da empresa, que era controlada remotamente por Leonardo Rios, conhecido como “Léo Goela”, Welter encontrou uma sequência de transferências suspeitas para empresas como a Queen Empreendimentos, além de pagamentos para o filho do fiscal da obra, aquisição de veículos, aeronaves e até a remuneração de shows promovidos pelo procurador Rodrigo Lisboa.
A parte mais grave da denúncia: Welter afirma que nunca assinou nenhum dos requerimentos de pagamento. As assinaturas, segundo ele e um advogado (ex-procurador da República), foram forjadas de forma grosseira para liberar os recursos.
O caso se agrava com a constatação de que as notas fiscais usadas eram frias ou canceladas, e a empresa está inadimplente com mais de R$ 17 milhões em tributos. Sendo assim, não poderia contratar com o poder público.
Pressões, ameaças e tentativa de suborno
Desde que decidiu colaborar com as investigações, Welter estaria passando a ser alvo de ameaças, abordagens suspeitas e até propostas milionárias para “abafar” o caso. Uma delas, segundo o delator, partiu do próprio Secretário de Obras de Presidente Kennedy, que teria oferecido R$ 400 mil em espécie.
Além disso, a equipe da Draco flagrou uma situação peculiar: durante diligência com Welter, um carro com os investigadores foi abordado por uma viatura da PM de forma suspeita. Um sinal de que os tentáculos da organização vão além da esfera política e podem envolver setores da segurança pública.
Relembrando o capítulo anterior
No primeiro capítulo da série República dos Royalties, revelamos como um erro de protocolo na Prefeitura de Marataízes trouxe à tona a denúncia de Welter Costa. O material, enviado por engano ao e-mail institucional da prefeitura, acabou nas mãos da Draco e desencadeou a operação que hoje expõe a podridão de um sistema que há anos domina Presidente Kennedy.
Agora, com 15 aditivos irregulares e um rastro de falsificações e desvios, a narrativa ganha corpo. A cada nova descoberta, a imagem de um município dominado por contratos de fachada e blindagens jurídicas se consolida.
Desde a primeira reportagem da série, a equipe do Diário da Guanabara enviou e-mail à Prefeitura de Presidente Kennedy visando ouvir servidores e membros do primeiro escalão do governo citados, mas não obteve resposta. A reportagem também não conseguiu contato com os demais citados.
*Da Agência Fonte Exclusiva. Compartilhe esta notícia do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












