Conhecida pela estrutura criada durante o ciclo da borracha, Belterra começa a construir uma nova identidade econômica no Pará. A cidade passou a concentrar iniciativas que combinam pesquisa científica, inovação e conhecimentos comunitários para transformar recursos da floresta em produtos de maior valor.
O objetivo é gerar renda e desenvolvimento sem afastar as populações responsáveis pela coleta e pelo processamento das matérias-primas amazônicas.
Um dos principais projetos instalados no município é o Museu de Ciência da Amazônia, o Muca. O espaço deverá abrigar um amplo banco genético vivo e um laboratório avançado voltado às pesquisas realizadas em ambiente de floresta.
Pesquisas terão foco na Amazônia
Segundo o coordenador educacional Artur Carvalho, o museu terá uma proposta diferente da adotada por instituições científicas tradicionais.
As atividades deverão se concentrar no estudo da biodiversidade amazônica e no desenvolvimento de produtos a partir de insumos encontrados na região.
A produção de cosméticos aparece entre as possibilidades. O projeto também pretende manter uma relação direta com as comunidades que fornecem os materiais utilizados nas pesquisas.
A aproximação busca garantir que a geração de conhecimento e riqueza não ocorra de maneira desconectada das pessoas que preservam e utilizam esses recursos há várias gerações.
Empreendedora cria cosméticos biodegradáveis
A farmacêutica Melissa Karen Lage encontrou na biodiversidade do Pará a base para transformar um trabalho universitário em empreendimento.
Criadora da Mahah Cosméticos, ela produz itens biodegradáveis utilizando óleos e manteigas extraídos no próprio estado.
O projeto começou com a intenção de desenvolver um produto voltado aos cabelos cacheados. Com o apoio de professoras da universidade, Melissa passou a pesquisar matérias-primas amazônicas e ampliou a proposta inicial.
Os cosméticos foram formulados para serem utilizados em rios, cachoeiras e no mar, reduzindo os impactos ambientais associados aos produtos convencionais.
Para Melissa, utilizar ingredientes do Pará também é uma forma de demonstrar que a produção amazônica pode reunir conhecimento tradicional, pesquisa e inovação.
Contato direto fortalece comunidades
A empreendedora mantém proximidade com os grupos responsáveis pela extração dos óleos e das manteigas utilizados nos cosméticos.
Essa relação permite conhecer o processo produtivo, reconhecer o trabalho realizado nas comunidades e ampliar a participação dos fornecedores na cadeia econômica.
A proposta é evitar que os insumos sejam retirados dos territórios por valores reduzidos e revendidos posteriormente como produtos caros, sem retorno adequado para os produtores.
A professora de economia Maria Sylvia Saes, da FEA-USP, considera essencial aproximar ciência e saber tradicional.
Segundo ela, a tecnologia pode ser utilizada para rastrear a origem das matérias-primas e garantir uma distribuição mais justa do valor obtido com os produtos.
Modelo busca preservar e distribuir renda
A rastreabilidade permite acompanhar o caminho do insumo desde a comunidade até a chegada ao consumidor.
Esse controle pode aumentar a transparência das relações comerciais e impedir que o trabalho dos produtores seja desvalorizado.
Para Maria Sylvia, iniciativas desse tipo indicam a construção de um modelo econômico baseado na conservação da floresta e no compartilhamento mais equilibrado dos ganhos.
A inovação, nesse contexto, não substitui o conhecimento tradicional. Ela ajuda a ampliar seu alcance e a agregar valor aos produtos desenvolvidos a partir da biodiversidade.
Mulheres produzem óleo de andiroba
Parte dos ingredientes utilizados pela Mahah Cosméticos é fornecida por uma comunidade localizada a aproximadamente 70 quilômetros de Belterra, dentro da Floresta Nacional do Tapajós.
No território atua o grupo Amélias da Amazônia, formado por mulheres envolvidas na produção de óleo de andiroba.
A iniciativa começou em 2016, quando quatro irmãs perceberam que muitas sementes estavam sendo desperdiçadas. Elas decidiram aproveitar o material e organizar a extração do óleo.
Dois anos depois, o grupo foi formalizado. A associação também participa de um projeto do Sebrae voltado ao fortalecimento da cultura e dos negócios desenvolvidos pelas comunidades locais.
Produção exige trabalho manual
A transformação das sementes de andiroba em óleo depende de um processo longo e cuidadoso.
Primeiro, as sementes são cozidas durante várias horas. Depois, as mulheres retiram manualmente a polpa utilizada na fabricação.
Em apenas um dia de trabalho, o grupo chegou a processar 127 quilos de sementes. Além do óleo, as Amélias da Amazônia também produzem xampus e sabonetes.
A diversificação permitiu aumentar as possibilidades de comercialização e aproveitar melhor os recursos disponíveis na comunidade.
Persistência ampliou os resultados
Para Marileide Dias da Silva, integrante da associação, o crescimento conquistado representa o resultado da dedicação mantida ao longo dos anos.
Mesmo diante das dificuldades, as mulheres continuaram acreditando na capacidade de transformar a atividade em uma fonte de renda.
A organização coletiva também possibilitou melhorar a produção, ampliar a variedade de produtos e fortalecer a presença do grupo no mercado.
Bioeconomia movimenta bilhões
A bioeconomia da Amazônia Legal movimenta mais de R$ 12 bilhões anualmente.
O setor reúne aproximadamente 347 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Desse total, 84 mil são empregos formais.
Os números incluem iniciativas comunitárias, empresas, projetos científicos e diferentes atividades ligadas ao aproveitamento sustentável dos recursos da floresta.
Experiências como a das Amélias da Amazônia mostram como pequenas organizações podem contribuir para essa cadeia, gerando renda sem abandonar o território e os conhecimentos locais.
Floresta passa a ser fonte de inovação
A nova fase de Belterra demonstra que preservar a biodiversidade também pode representar uma estratégia econômica.
Ao conectar universidades, empreendedores, instituições de pesquisa e comunidades, o município amplia as possibilidades de transformar matérias-primas em produtos com maior valor agregado.
O modelo também reconhece que os conhecimentos desenvolvidos pelas populações amazônicas são fundamentais para a pesquisa e para o uso responsável dos recursos naturais.
A antiga cidade criada durante o ciclo da borracha passa, assim, a ocupar um novo espaço no desenvolvimento da região. Desta vez, a riqueza está associada à ciência, à inovação e à manutenção da floresta em pé.
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