A Bahia passou a ocupar posição central nas investigações envolvendo fraudes fiscais, adulteração de combustíveis e suspeitas de infiltração do crime organizado no setor petrolífero brasileiro. O movimento ocorre em meio ao avanço de operações policiais, prisões de agentes públicos e delações que apontam para um esquema bilionário de sonegação fiscal no estado.
O novo cenário ganhou força após reportagens que indicam uma possível reconfiguração dos negócios do empresário Ricardo Magro, controlador do grupo Refit e conhecido pelas disputas tributárias no setor de combustíveis. Segundo apuração do jornal Diário da Guanabara, o empresário teria ampliado interesses fora do tradicional eixo Rio-São Paulo, com foco crescente na Bahia, estado considerado estratégico para o mercado de derivados de petróleo.
A mudança de eixo ocorre em um momento de forte ofensiva das autoridades contra esquemas fiscais envolvendo combustíveis. Na última semana, uma força-tarefa formada pelo Ministério Público da Bahia (MPBA), Secretaria da Fazenda da Bahia (Sefaz-BA) e Polícia Civil deflagrou a Operação Khalas, que investiga um esquema estimado em R$ 400 milhões em prejuízos aos cofres públicos estaduais.
Entre os presos está um auditor fiscal da própria Sefaz-BA, apontado pelos investigadores como peça-chave na estrutura de proteção ao esquema. Segundo as investigações, o grupo atuava na ocultação da importação de insumos químicos utilizados na adulteração de combustíveis, incluindo solventes e nafta, posteriormente desviados para unidades clandestinas de mistura conhecidas como “batedeiras”.
As autoridades afirmam que cerca de 111 milhões de litros de combustíveis teriam sido desviados entre 2023 e 2025 para estruturas clandestinas, onde o produto era adulterado antes de chegar ao mercado consumidor. A fraude teria impacto direto na arrecadação de ICMS e levantou suspeitas sobre a existência de uma rede de proteção envolvendo operadores financeiros, empresários e agentes públicos.
Além da Operação Khalas, outro elemento passou a chamar atenção dos investigadores: a delação apresentada ao Ministério Público da Bahia pelo empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”. Procurado pela polícia por suspeita de envolvimento com o PCC, o empresário teria relatado detalhes de um suposto esquema de adulteração de combustíveis e sonegação fiscal no estado, também estimado em aproximadamente R$ 400 milhões.
As denúncias reforçaram a percepção de que a Bahia se tornou uma nova fronteira estratégica para organizações envolvidas no mercado paralelo de combustíveis, setor historicamente marcado por disputas tributárias, uso de empresas de fachada e lavagem de dinheiro.
Nesse contexto, o nome de Ricardo Magro voltou ao centro das atenções. O empresário está atualmente incluído na lista de Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo internacional utilizado para localização de foragidos em 196 países. A medida foi adotada após pedido da Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Refino, que investiga suspeitas de fraude fiscal, evasão de divisas e ocultação patrimonial envolvendo empresas ligadas ao grupo Refit.
As investigações também atingiram ex-integrantes do governo do Rio de Janeiro e resultaram no bloqueio bilionário de ativos financeiros. Segundo as autoridades, o caso integra um conjunto maior de apurações sobre conexões entre organizações criminosas, lavagem de dinheiro e setores estratégicos da economia brasileira.
Embora não haja, até o momento, acusação formal ligando Ricardo Magro às investigações em curso na Bahia, o avanço simultâneo das operações, as denúncias envolvendo o setor de combustíveis e a movimentação empresarial no estado aumentaram o interesse de órgãos de controle e inteligência financeira sobre a região.
Nos bastidores políticos, o tema já provoca tensão. Parlamentares da oposição defendem ampliação das investigações sobre possíveis relações entre agentes públicos, empresários e estruturas clandestinas de distribuição de combustíveis. Integrantes do governo estadual, por outro lado, afirmam que as operações demonstram fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e combate à sonegação.
Especialistas ouvidos por investigadores apontam que o mercado de combustíveis se tornou um dos setores mais vulneráveis à infiltração do crime organizado devido ao alto volume financeiro, à complexidade tributária e à facilidade de circulação interestadual de produtos.
A expectativa é que novas fases das operações sejam deflagradas nos próximos meses, principalmente após a análise de documentos apreendidos, movimentações bancárias e depoimentos de delatores.
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