A possível reconfiguração dos negócios do empresário Ricardo Magro, controlador da refinaria Refit, coloca a Bahia no centro de uma articulação que mistura interesses econômicos, incentivos fiscais e tentativa de aproximação política com o governo federal.
Investigado em operações que apuram suspeitas de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, Magro estaria buscando novos caminhos para seus investimentos, incluindo a aquisição da Refinaria Gran Bahia, em Camaçari, e uma possível negociação envolvendo a Dax Oil, empresa ligada ao executivo Ciro Valentini.
A Refinaria Gran Bahia recebeu incentivos fiscais expressivos do governo da Bahia, comandado por Jerônimo Rodrigues (PT-BA). Entre os benefícios está a isenção de ICMS por até seis anos, dentro de um pacote com validade até 2032.
Apesar da relevância econômica do empreendimento, a identidade formal dos controladores da refinaria permanece sob sigilo, o que levanta questionamentos no setor e entre órgãos de controle.
A eventual entrada de Magro nesse ativo reforça a leitura de que a Bahia pode se tornar um novo polo estratégico para grupos independentes de refino no Brasil.
A nova empreitada tem como objetivo estabelecer uma sinergia entre duas empresas, compartilhando benefícios tributários e uso compartilhado de logística.
Pressão no eixo Rio-São Paulo
O movimento ocorre em meio ao avanço de investigações sobre o Grupo Refit, que tem origem na antiga Refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro.
Autoridades fiscais classificam o grupo como “sonegador contumaz”, com débitos que podem chegar a cerca de R$ 26 bilhões — valores contestados judicialmente pela empresa.
Operações recentes apontam suspeitas de estruturas internacionais para evasão de divisas e lavagem de dinheiro, inclusive com uso de empresas em paraísos fiscais.
A própria Refit nega irregularidades e afirma que discute os débitos dentro da legalidade.
O caso ganhou dimensão política após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que afirmou publicamente aguardar a extradição de Ricardo Magro dos Estados Unidos.
Segundo Lula, o empresário está entre “os grandes chefes do crime organizado do país”, no contexto das investigações sobre o setor de combustíveis.
Magro vive atualmente em Miami e, até o momento, não há condenação definitiva contra ele nem mandado de prisão em aberto.
Haddad e o cerco ao setor de combustíveis
O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também elevou o tom ao tratar do tema. Ele defende uma cooperação internacional para combater esquemas de lavagem de dinheiro e afirmou que organizações criminosas utilizam estruturas no exterior para fraudes fiscais — em referência a operações que atingem o grupo ligado a Magro.
A ofensiva do governo inclui medidas legislativas e pressão por maior rigor contra devedores contumazes, especialmente no setor de combustíveis.
Nesse contexto, a possível migração de negócios para a Bahia pode representar uma tentativa de reestruturação operacional e redução de exposição a investigações mais intensas no Sudeste.
A combinação de incentivos fiscais robustos, menor pressão regulatória imediata e alinhamento político regional cria um ambiente atrativo para investimentos no refino privado.
Por outro lado, a movimentação também levanta dúvidas sobre transparência, governança e eventual risco de deslocamento de práticas investigadas para novos territórios.
O avanço desse cenário dependerá de três fatores principais:
- A evolução das investigações e decisões judiciais envolvendo a Refit
- A consolidação (ou não) da entrada de Magro na Refinaria Gran Bahia
- O posicionamento político do governo federal frente a incentivos estaduais
A disputa envolve não apenas bilhões em impostos e investimentos, mas também o controle de um setor estratégico para a economia brasileira.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











