A defensora de direitos humanos Ana Paula Gomes de Oliveira, de 48 anos, foi contemplada nesta semana com o prêmio Martin Ennals, uma das honrarias internacionais mais relevantes dedicadas a ativistas que atuam na proteção de direitos fundamentais. A premiação reconhece o trabalho que ela desenvolve há anos no enfrentamento da violência de Estado e no apoio direto a mães e parentes de vítimas da letalidade policial no Brasil.
Moradora da favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro, Ana Paula emergiu como uma liderança após a morte de seu filho Johnatha, em 2014, atingido pelas costas durante uma ação da Unidade de Polícia Pacificadora. Quase uma década depois, o processo ainda aguarda um novo julgamento, mantendo a família sem respostas definitivas sobre o caso.
Convertendo o luto em mobilização coletiva, Ana Paula ajudou a criar o movimento Mães de Manguinhos, formado por mulheres negras que denunciam o racismo institucional e reivindicam justiça em situações de homicídios, prisões arbitrárias e demais violações de direitos cometidas em territórios periféricos. Ela também integra a Rede de Assistência às Vítimas da Violência de Estado (Raave), organização responsável por oferecer apoio psicossocial às famílias afetadas e propor mudanças legislativas para impedir abusos.
Sua trajetória ganhou projeção nacional graças a reportagens e documentários exibidos por veículos públicos. Entre eles está a edição Mães de Luta, do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, que recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. A ativista também já participou de entrevistas para a Agência Brasil, Radioagência Nacional e Rádio MEC, além de integrar o especial Mães que Lutam, veiculado em 2023. Em uma conversa concedida ao jornalista Rafael Cardoso em 2024, relatou como sua militância se tornou parte essencial de sua existência: “Uma parte de mim se foi com meu filho. Na luta, encontrei uma forma de continuar sendo mãe. Se eu parar, eu morro”.
Mesmo enfrentando ameaças e tentativas de intimidação, Ana Paula se mantém como uma das vozes mais firmes do país na denúncia do racismo estrutural e da violência policial. Após a operação policial que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro no final de outubro, ela voltou a cobrar transparência e rigor no controle das ações em favelas, destacando que a legalidade adotada em bairros ricos deve ser a mesma nos territórios periféricos. Para a ativista, a persistência de práticas como tortura, desaparecimentos forçados e execuções comprova que, para moradores de favela, “a ditadura nunca terminou”.
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