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Os prejuízos com incêndios de ônibus no Rio de Janeiro

Diante da violência urbana, empresas já têm dificuldades de contratar motoristas e cobradores nas linhas urbanas da capital fluminense

Redação DGRJ Por Redação DGRJ
19/10/2024 - 17:40
em Cidade

Os prejuízos com os ataques a ônibus na cidade do Rio de Janeiro chegaram a cerca de R$ 75 milhões nos últimos 12 meses. Segundo o RioÔnibus, Sindicato das Empresas de Ônibus da capital fluminense, com esse valor seria possível comprar 100 veículos novos que poderiam ser incorporados às frotas.

O sindicato reúne 29 operadoras do transporte rodoviário de passageiros do município. 

Na quinta-feira (17), quatro ônibus foram sequestrados por bandidos para obstrução de vias e barricadas contra operações da Polícia Militar. Dois na região da comunidade da Muzema, na zona oeste, e os outros dois na comunidade de Costa Barros, na zona norte da cidade. Na quarta, nove ônibus que circulavam também na região da Muzema foram sequestrados e usados como barricada por criminosos.

A violência contra veículos do transporte público, segundo o RioÔnibus, é recorrente. Em 12 meses, 136 veículos foram alvo desse tipo de ação. Situação que impacta também diretamente a vida de motoristas, passageiros e pessoas que precisam passar pelas vias interditadas.

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O porta-voz do Sindicato das Empresas de Ônibus, Paulo Valente, afirma que os prejuízos aos ônibus incendiados ou vandalizados acabam chegando também ao bolso do usuário do serviço, com o aumento na tarifa.

“O maior prejuízo não é só o do ônibus incendiado. É o prejuízo causado pra mobilidade urbana da cidade, causado pra economia, porque a nossa economia funciona movida a ônibus. Uma boa parcela da nossa população utiliza o ônibus pros seus deslocamentos, pra suas atividades. Então, acaba impactando as empresas, toda a população, a economia e a imagem do estado”.

Paulo Valente também relata que tem ficado mais difícil contratar profissionais para algumas linhas e alguns motoristas que estão trabalhando nesses locais têm adoecido.

“Muitos deles pedem para serem retirados daquelas linhas e transferidos pras linhas em que a violência é menor ou não ocorre. E alguns chegam, realmente, a apresentar problemas psicológicos e acabam sendo afastados. É uma minoria, mas acontece, apesar das empresas oferecerem todo suporte psicológico, de atendimento e de cuidado com os motoristas”.

Dados do Sindicato dos Rodoviários do Rio de Janeiro apontam que de 2022 a 2024, entre 200 e 250 motoristas abandonaram a profissão após situações de crimes e agressões nos transportes coletivos, incluindo casos de incêndios. No último ano, foram cerca de 140 desligamentos. 

Os prejuízos das empresas de ônibus com incêndios de coletivos no Rio de Janeiro.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil.

Entenda o caso

Para obstruir uma via e atrapalhar uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) na zona oeste do Rio de Janeiro, os bandidos sequestraram mais dois ônibus das linhas 878 (Barra da Tijuca – Tanque) e 863 (Rio das Pedras – Barra da Tijuca) na quinta-feira (17). 

Já na zona norte da cidade, mais dois coletivos da linha 778 (Pavuna – Cascadura) foram capturados por bandidos nesta manhã e usados da mesma maneira em Costa Barros.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar, policiais militares do 41ºBPM realizam operação no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, para coibir os roubos de veículos e carga na região. 

De acordo com informações preliminares dos policiais, criminosos atiraram contra as equipes na Comunidade da Quitanda. Um policial foi ferido no pescoço por estilhaço e outro homem também ferido foi socorrido por meios próprios. Já na Estrada de Botafogo e na Av. Pastor Martin Luther King, criminosos atearam fogo em pneus e atravessaram um ônibus na pista para bloquear as vias. Policiais militares do 41ºBPM e do 2º Comando de Policiamento de Área (2ºCPA) atuaram no local e desobstruíram as vias.

Violência é recorrente, diz sindicato das empresas

A violência contra veículos do transporte público é classificada pelo Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro (Rio Ônibus) como recorrente. Em 12 meses, já chega a 136 o número de veículos que foram alvos desse tipo de ação. 

O modus operandi nesses casos inclui evacuar os veículos e obrigar o motorista a manobrar os ônibus para impactar milhares de usuários dessas linhas e outros cidadãos que precisam transitar por essas vias. 

Em entrevista divulgada pela Agência Brasil, o diretor de Comunicação e Relações Institucionais do Rio Ônibus afirmou que um levantamento realizado pelo sindicato aponta que de 2022 a 2024, entre 200 e 250 motoristas abandonaram a profissão após situações de crimes e agressões nos transportes coletivos, incluindo casos de incêndios. No último ano, foram em torno de 130 a 140 desligamentos. 

O vice-presidente do Sindicato dos Rodoviários, José Sacramento de Santana, lamentou à reportagem, na época, a situação de perigo e disse que o sindicato muitas vezes nem toma conhecimento dos casos. “O cara abandona a profissão, se muda de estado, e não se comunica com o sindicato. Pedem demissão e vão embora sem comunicar nada, sem dizer um motivo”. 

“Hoje, estamos entregues no Rio de Janeiro à milícia, a esse poder paralelo que domina a cidade. Faltam medidas de segurança não apenas aos motoristas de ônibus, mas à população também”, reclama.

Em entrevista na quinta-feira (17),Valente admitiu dificuldades de contratar profissionais para algumas linhas, e que afastamentos e problemas psicológicos são uma realidade entre os motoristas.

As empresas de ônibus contabilizam um prejuízo de R$ 75 milhões por ano, com incêndios de coletivos na cidade do Rio de Janeiro. Os dados foram divulgados por Paulo Valente, porta-voz do Sindicato que reúne 29 operadoras de transporte rodoviário. pic.twitter.com/pqKkF8RRsq

— Roberto Barbosa (@rgbarbosa) October 19, 2024

Confira trechos da entrevista: 

Sequestros de ônibus costumam afetar de que forma os motoristas, que são obrigados a manobrar os veículos para os criminosos? Eles adoecem? Se afastam do trabalho?

Paulo Valente: Os motoristas de ônibus são, sim, bem impactados pela questão dos sequestros e pela questão do vandalismo, de modo geral, contra os ônibus. Muitos deles pedem para ser retirados daquelas linhas e transferidos para outras linhas em que a violência é menor ou não ocorre, e alguns pedem realmente por um problema de estresse, começam a apresentar problemas psicológicos, e acabam até sendo afastados. É uma minoria, mas isso efetivamente acontece. Apesar das empresas oferecerem todo tipo de suporte psicológico, de atendimento, de cuidado com os motoristas, infelizmente temos esse problema.

É difícil contratar motoristas para algumas linhas de ônibus mais afetadas? E os passageiros também evitam andar nessas linhas quando podem? 

Paulo Valente: Sim, hoje há uma dificuldade para contratar motoristas para algumas empresas em que a maior parte das linhas opera nessas regiões mais afetadas pela violência. Os passageiros, de uma certa forma, não têm como evitar, porque eles moram na localidade e só têm uma ou duas linhas, às vezes, para atender, eles são vítimas dessa violência, e eles têm que fazer a viagem. Eles não têm outra forma a não ser andar de ônibus, mas muitos deixam de fazer viagens, deixam de sair de casa, realmente com medo da violência. Essa violência cerceia o direito de ir e vir da população carioca. Essa é a verdade.

Os prejuízos causados com os ônibus queimados são só a ponta do iceberg? De que outras formas o crime organizado impacta o balanço financeiro das empresas de ônibus?

Paulo Valente: Os prejuízos causados com ônibus incendiados e vandalizados nos últimos 12 meses somam praticamente R$ 75 milhões, que é um valor que daria para a gente comprar quase 100 ônibus zero quilômetro. Realmente causa um grande impacto, que acaba de uma forma ou de outra sendo repassado para os custos operacionais que vão redundar no custo da tarifa. Então, esse prejuízo infelizmente afeta as empresas no primeiro momento, mas afeta todos os clientes, todos os usuários, num segundo momento. Só que o maior prejuízo não é só o do ônibus incendiado, é o prejuízo causado para a mobilidade urbana da cidade, causada para a economia da cidade, porque a nossa economia funciona movida a ônibus, as pessoas que trabalham, as pessoas que estudam, as pessoas que se dirigem ao comércio, que vão ao médico, os prestadores de serviço, uma boa parcela da nossa população utiliza o ônibus para os seus deslocamentos, para as suas atividades. Então acaba impactando as empresas, impactando toda a população, a economia, a imagem do estado [do Rio de Janeiro]. 

Hoje, há empresas de ônibus que vão à falência ou estão a caminho disso, principalmente por causa da falta de segurança pública? 

Paulo Valente: Essa questão das empresas que encerram suas atividades é muito complexa. Eu não poderia dizer que é a violência que está fazendo com que as empresas encerrem as atividades. Na verdade, o nosso sistema atravessa uma crise muito grande desde 2016, que foi extremamente agravada com a pandemia. E nós temos questões de segurança que envolvem vandalismo, sequestro de ônibus, a questão do transporte clandestino em determinadas regiões da cidade. Então, é um conjunto de coisas. Tem a falta de revisão do contrato, do seu equilíbrio econômico e financeiro, que foi amenizada, de certa forma, com um acordo firmado com a prefeitura e o Ministério Público para pagamento de subsídio. Mas essa é uma questão bastante complexa, e o encerramento da atividade de empresas não pode ser imputado à questão da violência. Digamos que é mais um item dentro de um rol de fatores que leva ao encerramento das atividades de uma empresa de ônibus.

Da Agência Fonte Exclusiva com informações da EBC e Agência Brasil. Compartilhe esta notícia do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.

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Tags: #incêndios#Notícias do Rio de Janeiro#Onibus#Rio de Janeiro#violência urbana
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