Um cenário de dúvidas, receio, medo e muitas incertezas. Esse é o resultado do fenômeno conhecido como infodemia, definido pela Organização Nacional da Saúde (OMS) como um ‘bombardeio’ de informações imprecisas ou falsas disseminadas virtualmente com o objetivo conturbar os dados de fontes idôneas e confiáveis.
Na Semana Mundial de Imunização (20 a 27 de abril), promovida pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a infectologista Sabrina Soares, do Hospital Badim (RJ), esclarece as principais dúvidas e fake news sobre vacinas e que acabam provocando uma queda na adesão às vacinas relacionadas no Programa Nacional de Imunização e, consequentemente, elevando o risco de retorno de doenças já erradicadas no país.
“As reações leves à determinadas vacinas são comuns, como febre, dor no local de aplicação, vermelhidão e mal estar. No entanto, tais efeitos colaterais são mínimos em vista dos benefícios dos imunizantes”, destaca a infectologista.
A especialista reafirma a segurança das vacinas, destacando que elas passam por testes científicos rigorosos e recebem a certificação da OMS e das agências reguladoras nacionais para garantir a eficácia. Sabrina frisa que alguns imunizantes podem apresentar desconfortos durante um curto período de tempo após a aplicação. “Mas esses sintomas não são graves, apenas indicam que o sistema imunológico está agindo para gerar a proteção desejada”, diz a médica.
A infectologista enumera uma série de conjunturas, informações falsas ou imprecisas que foram difundidas na internet e que podem prejudicar a adesão aos imunizantes. A médica esclarece a verdade e tira dúvidas sobre alguns aspectos.
Mitos sobre as vacinas
1 – As vacinas podem causar autismo
Esta fake news surgiu a partir de um artigo publicado na revista científica The Lancet, em 1998, assinado pelo médico britânico Andrew Wakefield, que relacionou o caso de 12 crianças que apresentaram sinais de autismo e inflamação intestinal grave, sendo que 11 delas supostamente haviam tomado a vacina tríplice viral, que protege contra o sarampo, a caxumba e a rubéola, pois tinham vestígios do vírus do sarampo no organismo. Wakefield associou o autismo nas crianças à vacinação, fato que já foi amplamente desmentido pela comunidade científica, mas mesmo assim resultou na queda da cobertura vacinal em diversos países, inclusive no Brasil.
“Não há nenhuma relação entre vacinas e autismo. Vários estudos foram realizados nos últimos anos com o objetivo de identificar essa associação e nenhuma evidência foi constatada até hoje”, reforça a infectologista Sabrina Soares.
2 – As vacinas possuem componentes tóxicos
Em 2021, começou a circular pelas redes sociais uma informação falsa de que a proteína spike das vacinas mRNA entram na corrente sanguínea e, dependendo do estado clínico, formam coágulos sanguíneos e levam às doenças cardíacas, problemas de fertilidade e danos cerebrais. A mensagem ainda afirma que a proteína é patogênica, por isso provoca danos ao coração e aos vasos sanguíneos, ficando concentrada em órgãos e tecidos, como fígado, rins, baço, medula óssea, glândulas suprarrenais e ovários.
Sabrina Soares esclarece que a maioria dos componentes dos imunizantes está presente no organismo humano e em alimentos. Além disso, as quantidades utilizadas nas vacinas são ínfimas para causar prejuízo ao corpo.
3 – As vacinas possuem microchips rastreados
Durante a pandemia, circulou no ambiente online um vídeo afirmando que as vacinas contra a Covid-19 contêm grafeno, microchip ou deixam as pessoas magnetizadas, o que levou muitos brasileiros a desistirem das doses de reforço. A médica reforça que essa informação é falsa e enfatiza a importância de a carteira de vacinação estar sempre atualizada, para a eficácia das vacinas.
4 – A vacina contra o HPV incentiva a atividade sexual precoce
Logo que chegou ao mercado, em 2006, a vacina contra o Papilomavírus Humano (HPV) gerou polêmica entre pais, pediatras e legisladores nos Estados Unidos. A justificativa do grupo contra o imunizante é que a vacina poderia desenvolver nos adolescentes atividades sexuais precoces e arriscadas. No entanto, um estudo feito com mulheres americanas, publicado em fevereiro de 2015 no periódico Jama Internal Medicine, reforça a versão de que a vacina contra o HPV não interfere no comportamento sexual e nem eleva as taxas de doenças sexualmente transmissíveis. A infectologista Sabrina Soares frisa a importância dessa imunização.
“O HPV responde por quase 100% dos casos de câncer de colo do útero, que por sua vez leva à óbito cerca de 300 mil mulheres todos os anos. O vírus ainda pode causar câncer de ânus, pênis, vagina, vulva e orofaringe. A vacina é o principal recurso capaz de proteger contra esse tipo de câncer e um estudo escocês mostrou que não houve nenhum caso de câncer de colo de útero entre mulheres que receberam a vacina contra HPV entre os 13 e 14 anos”, diz a médica.
5 – A vacina contra o vírus influenza causa gripe
Um vídeo com informações falsas sobre as vacinas contra a gripe circulou há tempos nas redes sociais e até hoje influencia internautas mal informados. O conteúdo inverídico afirma que o imunizante carrega vírus e fungos do câncer, além de provocar uma gripe grave. O Ministério da Saúde desmente todos os anos esse tipo de postagem e esclarece que a vacina Influenza, contra a gripe, é fabricada com vírus inativados, fragmentados e purificados, o que não é capaz de induzir o desenvolvimento da doença.
Além disso, a concentração de antígenos é atualizada anualmente, para acompanhar as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Segundo Sabrina, a imunização contra a gripe é fundamental para a segurança e bem estar da população, especialmente para os grupos de risco, como idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas, já que a influenza pode levar a complicações graves de saúde.
Dúvidas comuns sobre imunizantes
- Posso tomar a vacina contra o vírus influenza se estiver gripado
Não é indicado tomar nenhuma vacina na vigência de febre. Porém, não está contraindicado em casos apenas com sintomas gripais leves e sem febre. Não se deve atrasar ou aguardar crianças totalmente assintomáticas para que se administre as principais vacinas, podendo ser aplicadas em casos de bom estado geral e sintomas leves.
- Posso tomar várias vacinas ao mesmo tempo?
Sim. A segurança da aplicação simultânea de vacinas e/ou de vacinas combinadas (contra mais de uma doença) é comprovada cientificamente e não sobrecarrega o sistema imunológico. Apenas na vacina de dengue, por se tratar de uma vacina nova, na qual alguns efeitos adversos estão sendo monitorados pelo Ministério da Saúde, se orienta intervalo de 24 horas entre a administração de outros imunizantes.
- Pessoas com alergia a ovo e gelatina podem se vacinar?
As vacinas contra febre amarela, influenza, tríplice viral e quádrupla viral podem possuir proteínas do ovo nas suas fórmulas. Por isso, é recomendado que seja feito o monitoramento dos sintomas nas primeiras horas após a aplicação.
O risco de efeitos colaterais graves é baixo. Já a vacina contra a febre amarela apresenta risco moderado para quem já teve reação anafilática grave ao ovo. Então, se houver necessidade de imunização por conta de viagem para as áreas endêmicas, deve-se fazer o procedimento em ambiente com infraestrutura adequada para intervenção nos casos de reação alérgica grave.
- Esquema vacinal incompleto tem eficácia?
No caso de a vacina prever mais de uma dose, as doses incompletas não garantem a eficácia plena da imunização e nem tempo prolongado de proteção.
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