Um novo documento do governo dos Estados Unidos sobre o combate internacional ao narcotráfico abriu outra frente de tensão com o Brasil. O relatório assinado pelo presidente Donald Trump critica a atuação brasileira contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) e cobra medidas mais firmes contra as duas organizações criminosas.
Dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, auxiliares classificaram o conteúdo como “muito grave”. A preocupação manifestada por integrantes da área internacional é que a associação entre crime organizado, terrorismo e segurança nacional dos Estados Unidos possa ser usada futuramente como argumento para ações mais duras na região. Essa é uma avaliação do governo brasileiro, e o relatório em si não autoriza uma ação militar dos EUA contra o Brasil.
O documento foi enviado por Trump ao Congresso americano em 15 de setembro e divulgado no dia seguinte. Trata-se da determinação anual em que Washington identifica países considerados grandes produtores de drogas ou importantes rotas do narcotráfico.
Brasil é criticado, mas não aparece na lista principal
Há uma diferença importante entre a crítica feita ao Brasil e as classificações formais do documento.
A relação oficial reúne 23 países considerados grandes produtores ou corredores relevantes para drogas ilícitas. O Brasil não aparece nessa lista. Também não está entre os quatro países que os Estados Unidos disseram ter “falhado de maneira demonstrável” em cumprir obrigações internacionais de combate às drogas. Nessa segunda categoria estão Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia.
Mesmo fora dessas categorias, o texto faz uma crítica direta ao governo brasileiro. Segundo a posição apresentada por Washington, enquanto outros governos do continente adotaram medidas consideradas mais duras contra cartéis, o Brasil não teria enfrentado adequadamente PCC e CV. O documento também atribui às duas organizações participação relevante no fluxo internacional de cocaína.
A afirmação de que as facções representam ameaça à segurança internacional é uma avaliação do governo Trump e é contestada pelas autoridades brasileiras.
PCC e CV foram classificados como terroristas pelos EUA
A tensão aumentou porque, em maio, o Departamento de Estado norte-americano decidiu formalmente classificar PCC e Comando Vermelho como Foreign Terrorist Organizations, ou Organizações Terroristas Estrangeiras, dentro da legislação dos Estados Unidos.
O ato foi assinado pelo secretário de Estado Marco Rubio em 28 de maio e entrou em vigor com sua publicação no Federal Register em 5 de junho.
Essa classificação produz consequências dentro do sistema jurídico americano, incluindo restrições e mecanismos para atingir pessoas ou estruturas que prestem apoio às organizações designadas.
O governo brasileiro, porém, discorda do enquadramento das facções como organizações terroristas. A posição de Brasília é que PCC e CV são organizações criminosas voltadas principalmente para tráfico, lavagem de dinheiro, armas e controle territorial e devem ser combatidas pelos instrumentos jurídicos destinados ao crime organizado.
Governo brasileiro rebate acusação
Em nota divulgada na quarta-feira (16), o Ministério da Justiça e Segurança Pública rejeitou a afirmação de que o Brasil estaria sendo omisso no combate ao crime organizado transnacional.
A pasta destacou que o próprio documento dos Estados Unidos não incluiu o país entre as 23 nações da chamada “Major’s List” e afirmou que a referência ao Brasil aparece na parte narrativa do relatório, sem produzir a classificação formal de descumprimento prevista pela legislação norte-americana.
O governo também citou como resposta às críticas a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, além de operações realizadas por forças federais e das ações do programa Brasil contra o Crime Organizado. Segundo o Ministério da Justiça, as medidas incluem mecanismos para atingir financeiramente facções, fortalecer investigações e combater o tráfico de armas.
Autoridades brasileiras também afirmam que já existe cooperação entre Brasil e Estados Unidos em investigações relacionadas ao crime transnacional e defendem que esse trabalho seja ampliado por meio de inteligência, intercâmbio de dados e operações dentro das regras de cada país.
A possibilidade de ações militares citada por integrantes do governo Lula não consta como uma autorização específica contra o território brasileiro na determinação divulgada nesta semana.
A preocupação surge do contexto mais amplo da política do governo Trump para organizações classificadas pelos Estados Unidos como terroristas e narcoterroristas. A administração americana tem tratado grupos dessa natureza como tema de segurança nacional e ampliado o uso de instrumentos militares e de segurança na estratégia antidrogas.
É por isso que setores do governo brasileiro temem que a classificação de PCC e CV possa, em algum cenário futuro, servir de justificativa política para medidas tomadas sem concordância de Brasília. Até agora, porém, não há no relatório desta semana anúncio de uma operação militar americana no Brasil.
O episódio acrescenta mais um tema delicado à relação entre Lula e Trump. Segurança pública, combate ao tráfico internacional e soberania nacional devem continuar no centro das discussões entre os dois governos enquanto Brasília rejeita a avaliação americana sobre sua atuação contra as facções e Washington mantém PCC e CV em sua lista de organizações terroristas.
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