Durante 12 anos, as Ilhas Marshall foram usadas pelos Estados Unidos para uma série de testes com armas nucleares. Entre 1946 e 1958, 67 explosões atmosféricas foram realizadas no arquipélago, deixando impactos ambientais e sociais que continuam sendo acompanhados mais de seis décadas depois.
A sequência de testes provocou contaminação radioativa em diferentes áreas, obrigou comunidades a deixar seus territórios e alterou a forma como os moradores se relacionam com algumas das ilhas e atóis onde seus antepassados viveram.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 1954, quando os Estados Unidos detonaram a Castle Bravo, a maior explosão nuclear já realizada pelo país. A detonação lançou uma grande quantidade de material radioativo no ambiente e afetou moradores dos atóis de Rongelap e Utrik.
Até hoje, os Estados Unidos mantêm programas específicos de acompanhamento e assistência médica voltados a pessoas que foram expostas à radiação durante os testes.
Bikini se tornou símbolo do impacto nuclear
O Atol de Bikini está entre os locais mais associados ao legado dos testes. Ao todo, 23 explosões foram realizadas na região entre 1946 e 1958, deixando grandes áreas afetadas pela presença de radionuclídeos.
Os moradores foram retirados do atol antes do início das detonações. Anos depois, parte da população tentou retornar, mas novas avaliações apontaram que a exposição radioativa ainda representava um problema para a ocupação permanente.
Em 1978, os habitantes precisaram deixar novamente o local. Entre os elementos radioativos identificados na região está o césio-137, considerado uma das principais fontes de exposição potencial decorrente da contaminação do ambiente.
A retirada das famílias não representou apenas uma mudança de endereço. Para as comunidades de Bikini, a saída significou também o afastamento de territórios ancestrais utilizados para moradia, pesca, cultivo e outras atividades tradicionais.
O que existe dentro do Domo de Runit
No Atol de Enewetak, outro local marcado pelos testes nucleares, está uma das estruturas mais conhecidas desse período: o Domo de Runit.
A instalação, oficialmente associada à contenção da Crater Cactus, foi construída durante os trabalhos de limpeza realizados após o encerramento dos testes. O material contaminado retirado de diferentes áreas foi colocado dentro de uma cratera formada por uma explosão nuclear e coberto por uma estrutura de concreto.
De acordo com o Departamento de Energia dos Estados Unidos, o local reúne mais de 100 mil jardas cúbicas de solo e detritos contaminados. Entre os radionuclídeos presentes estão plutônio, césio-137, estrôncio-90 e amerício-241.
O estado da estrutura é acompanhado de perto devido à exposição prolongada às condições ambientais do Pacífico. A elevação do nível do mar e a ocorrência de eventos extremos estão entre os fatores considerados nos estudos sobre o futuro do local.
Monitoramento continua décadas depois
O Departamento de Energia mantém programas de acompanhamento do Domo de Runit e das áreas próximas. Entre as medidas estão inspeções visuais da estrutura e análises radiológicas da água subterrânea.
Em seu relatório de 2026, o órgão informou resultados de atividades de monitoramento realizadas entre 2022 e 2026. Os trabalhos tiveram como objetivo acompanhar as condições ambientais da região e identificar possíveis mudanças relacionadas aos contaminantes existentes.
A preocupação não se limita à estrutura física do domo. O ambiente ao redor também é analisado para compreender como os materiais radioativos permanecem distribuídos e quais fatores podem alterar sua movimentação ao longo do tempo.
Um problema que atravessa gerações
O último teste nuclear realizado nas Ilhas Marshall aconteceu em 1958, mas o fim das explosões não encerrou os efeitos sobre o arquipélago.
A contaminação de determinadas áreas, o deslocamento de moradores e a necessidade de acompanhamento médico e ambiental continuam fazendo parte da realidade do país. Algumas comunidades permanecem impedidas de retornar ou utilizar seus territórios da mesma maneira que faziam antes dos testes.
Ao mesmo tempo, os efeitos das mudanças climáticas acrescentam uma nova preocupação para áreas que já carregam resíduos radioativos. A elevação do nível do mar e eventos climáticos extremos podem representar desafios adicionais para estruturas e regiões contaminadas.
O legado dos testes nucleares, portanto, permanece presente não apenas no solo e na água, mas também na história das comunidades afetadas e na relação delas com seus territórios ancestrais.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.












