A crise climática já ultrapassou os limites das previsões ambientais e chegou diretamente às salas de aula. Mais de 171 milhões de estudantes tiveram a rotina escolar interrompida por eventos relacionados ao clima em 2025, segundo um levantamento divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância
O número representa aproximadamente um em cada dez estudantes, da Educação Infantil ao Ensino Médio. O estudo “Learning Interrupted: Global Snapshot on Climate-related School Disruptions in 2025” analisou informações de 106 países e territórios.
Tempestades, enchentes, ondas de calor, secas e incêndios florestais aparecem entre os principais problemas. Em diferentes regiões, esses fenômenos provocaram suspensão de aulas, destruição ou danos em escolas, redução da jornada escolar, transferência temporária para o ensino remoto e dificuldade para crianças e adolescentes chegarem às unidades de ensino.
As tempestades tiveram o maior alcance entre os eventos analisados, atingindo a educação de aproximadamente 109 milhões de estudantes. As enchentes afetaram pelo menos 70 milhões, enquanto cerca de 50 milhões enfrentaram interrupções relacionadas às ondas de calor.
Impacto chega ao Brasil
No Brasil, o Unicef identificou pelo menos 745 mil crianças e adolescentes que tiveram o acesso às aulas prejudicado em algum momento de 2025 por causa de eventos climáticos.
Entre os casos registrados estão estudantes do Rio Grande do Sul afetados por uma onda de calor no início daquele ano e alunos do Paraná que não conseguiram frequentar as aulas depois de um tornado em novembro. O próprio Unicef ressalta que o número brasileiro pode estar subestimado, já que outros episódios ocorridos no país não foram capturados pela metodologia usada no levantamento.
A comparação com o ano anterior também demonstra como o problema vem atingindo diferentes regiões e assumindo formas variadas. Em 2024, 242 milhões de estudantes em 85 países e territórios tiveram a escolarização afetada por eventos climáticos. Naquele ano, o Brasil contabilizou pelo menos 1,17 milhão de crianças e adolescentes com interrupções relacionadas principalmente a enchentes e secas.
Países mais pobres sofrem mais
Embora os eventos climáticos atinjam países de diferentes níveis de renda, seus efeitos sobre a educação são desiguais. Cerca de 75% dos estudantes afetados em 2025 vivem em países de renda baixa ou média-baixa, onde as redes de ensino geralmente possuem menos recursos para enfrentar emergências, recuperar prédios e manter as aulas funcionando em situações de desastre.
O Paquistão aparece entre os exemplos mais expressivos. Enchentes provocadas pelas monções atrasaram o retorno às aulas de mais de 28 milhões de estudantes em agosto de 2025. No Egito, uma forte tempestade de vento e poeira levou à suspensão das aulas em todo o país por um dia, também atingindo mais de 28 milhões de alunos.
Ao longo do ano, 40 dos países e territórios analisados enfrentaram mais de um episódio de interrupção escolar relacionado ao clima. Em Madagascar, secas, ciclones e enchentes afetaram cerca de 280 mil estudantes. A passagem da tempestade tropical Jude, por exemplo, destruiu salas de aula e obrigou escolas a recorrer a estruturas temporárias para manter o ensino.
Prejuízo vai além dos dias sem aula
A consequência não se limita ao calendário escolar. Quando uma escola fecha por vários dias ou semanas, o estudante perde conteúdo, pode enfrentar dificuldade para acompanhar a turma e, nos casos mais graves, corre maior risco de abandonar os estudos.
Segundo a análise do Unicef, as interrupções relacionadas ao clima ocorridas somente em 2025 podem representar pelo menos US$ 200 bilhões em perdas de renda futura para os estudantes afetados, reflexo da redução da aprendizagem e do aprofundamento das desigualdades educacionais.
As meninas estão entre os grupos considerados mais vulneráveis. Em comunidades atingidas por desastres, deslocamentos, perda de renda e danos às instalações de água e saneamento podem aumentar responsabilidades domésticas e dificultar a volta à escola. O cenário também pode ampliar riscos sociais já existentes em regiões mais pobres.
Crise climática ameaça infância em várias frentes
O problema educacional faz parte de uma exposição muito maior. Outro relatório divulgado pelo Unicef em 2026 aponta que cerca de 1,1 bilhão de crianças vivem atualmente expostas a pelo menos três tipos de riscos climáticos simultaneamente. A lista inclui secas, enchentes, calor extremo, tempestades tropicais e incêndios.
Diante desse cenário, o Unicef defende que governos passem a considerar a adaptação climática também como uma política educacional. Entre as medidas apontadas estão escolas mais resistentes a enchentes, tempestades e calor extremo, planos para manter a aprendizagem durante emergências, melhoria dos sistemas de alerta e ampliação do financiamento destinado à proteção das redes de ensino.
O desafio é impedir que uma emergência climática se transforme também em uma crise de aprendizagem. Para milhões de crianças e adolescentes, a mudança do clima já significa não apenas conviver com temperaturas mais altas ou fenômenos extremos, mas encontrar a porta da escola fechada justamente quando a continuidade dos estudos é mais necessária.
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