Um projeto de adega climatizada orçado em R$ 245 mil passou a integrar os elementos analisados pela Polícia Federal em uma investigação que envolve o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro. Para os investigadores, mensagens encontradas em aparelhos apreendidos indicam que Castro acompanhava de perto reformas e questões cotidianas de uma residência de luxo em Petrópolis, embora o imóvel não estivesse registrado em seu nome.
A propriedade fica em um condomínio de alto padrão na Região Serrana. Segundo a PF, Castro tratava de segurança, recebia informações relacionadas às contas de energia e participava de decisões sobre intervenções realizadas no local. Em uma das conversas citadas no relatório, teria se referido aos trabalhos como “minha obra”.
Foi nesse contexto que surgiu o projeto da adega. O documento localizado pelos investigadores previa investimento de R$ 245 mil e, segundo o relatório, o arquivo digital relacionado à proposta tinha nos metadados uma identificação associada ao nome de Cláudio Castro. A PF considera esse conjunto de elementos relevante para analisar quem efetivamente exercia o controle sobre a residência.
A casa está formalmente registrada em nome da Concrecasa Construções Inteligentes Ltda. A investigação aponta vínculos entre a administração da empresa e o empresário Luiz Fernando Gomes, ligado à Enge Prat Engenharia e Serviços. Durante a gestão de Castro, a Enge Prat firmou 11 contratos com o governo do Estado que somaram R$ 355,2 milhões, dos quais R$ 49,6 milhões foram contratados sem licitação, segundo informações citadas pela PF.
A relação entre o imóvel e o ex-governador já havia chamado a atenção dos investigadores antes da divulgação dos detalhes sobre a adega. A residência foi incluída nas apurações da Operação Sem Refino, que investiga suspeitas envolvendo agentes públicos e interesses relacionados à refinaria Refit. O material chegou ao Supremo Tribunal Federal e integra uma investigação mais ampla sobre possíveis vantagens e favorecimentos.
A conclusão da Polícia Federal de que Castro exerceria uma espécie de posse de fato sobre o imóvel, entretanto, é contestada pela defesa. Os advogados afirmam que a residência de Petrópolis era alugada pelo ex-governador e que o contrato foi encerrado meses atrás, depois que ele deixou o governo estadual. A defesa também nega as acusações relacionadas à investigação e afirma que já pediu que Castro seja ouvido pela PF para prestar esclarecimentos.
Os novos documentos não representam, por si só, uma conclusão judicial de que o ex-governador tenha cometido crime ou seja o verdadeiro proprietário da mansão. Eles fazem parte do conjunto de indícios reunidos pela Polícia Federal e ainda serão submetidos à análise no curso da investigação.
A relevância do episódio, portanto, vai além do valor de uma adega. O que a PF tenta esclarecer é se a relação de Castro com a propriedade era compatível com um contrato regular de locação, como sustenta sua defesa, ou se as mensagens e os demais registros apontam para uma relação patrimonial diferente daquela formalmente documentada.
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