A violência armada impediu ou dificultou o deslocamento de aproximadamente 190 mil crianças até escolas do Rio de Janeiro entre janeiro de 2023 e julho de 2025. Operações policiais, ações de grupos armados e bloqueios instalados nas vias transformaram o trajeto escolar em uma rotina marcada pela insegurança.
Os dados fazem parte do estudo “Percursos Interrompidos”, elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, o UNICEF, pelo Instituto Fogo Cruzado e pelo Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, o GENI/UFF.
Durante o período analisado, foram registrados mais de 2 mil episódios envolvendo operações das forças de segurança, confrontos, movimentações de grupos armados e barricadas. As ocorrências afetaram diretamente a circulação de estudantes em diferentes regiões da cidade.
O levantamento mostra que os impactos da violência sobre a educação não se limitam ao fechamento das unidades de ensino. Mesmo quando as escolas permanecem abertas, o caminho entre a residência e a sala de aula pode se tornar perigoso ou inviável.
Em determinados territórios, a incerteza sobre as condições das ruas passou a fazer parte da rotina das famílias. Crianças e responsáveis não conseguem prever se encontrarão confrontos, operações policiais ou bloqueios durante o deslocamento.
A situação compromete a frequência escolar, interrompe a continuidade dos estudos e amplia desigualdades já existentes entre os estudantes.
Trajeto inseguro amplia desigualdades
A pesquisadora Carolina Grillo afirmou ao UNICEF que a imprevisibilidade do caminho deixou de ser uma situação excepcional em algumas comunidades.
Segundo ela, as barreiras provocadas pela violência nem sempre são facilmente identificadas, mas permanecem presentes no cotidiano e impedem que milhares de crianças exerçam plenamente o direito à educação.
O estudo também identificou desigualdades raciais entre as escolas mais expostas aos episódios violentos e aquelas classificadas como seguras.
Nas unidades localizadas em áreas de alto risco, 53% dos estudantes são pretos ou pardos. Nas escolas consideradas seguras, esse grupo representa 35% dos alunos.
A diferença indica que crianças negras são atingidas de forma mais intensa pelos efeitos da violência armada. O levantamento relaciona esse cenário ao racismo estrutural e à concentração da população preta e parda em territórios mais vulneráveis.
Além das interrupções nas atividades escolares, operações policiais, confrontos e barricadas obrigam estudantes a alterar trajetos, permanecer em casa ou enfrentar situações de risco para chegar às unidades de ensino.
Em muitos casos, os familiares também ficam impedidos de acompanhar as crianças, principalmente quando as vias são fechadas ou quando há circulação de homens armados.
Caminho até a escola integra direito à educação
A diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto, afirmou que o levantamento faz parte de uma série de estudos sobre os efeitos da violência armada na educação.
Pesquisas anteriores realizadas em parceria com o UNICEF já haviam identificado impactos sobre a aprendizagem, a frequência e a permanência dos alunos nas escolas.
O novo estudo amplia essa análise ao demonstrar que o próprio deslocamento também representa uma barreira para milhares de estudantes.
Mesmo com vagas disponíveis e unidades em funcionamento, o direito à educação não é plenamente garantido quando as crianças não conseguem chegar com segurança.
Os dados podem contribuir para a criação de políticas públicas voltadas à proteção dos estudantes, ao planejamento das operações de segurança e à prevenção dos efeitos dos confrontos sobre a rotina escolar.
Para as instituições responsáveis pelo levantamento, o percurso entre a casa e a escola precisa ser considerado parte essencial da política educacional.
Medidas de proteção devem levar em conta os horários de entrada e saída dos estudantes, as rotas utilizadas pelas famílias e a localização das unidades em relação às áreas mais expostas à violência.
O estudo também reforça a necessidade de integração entre as políticas de educação, segurança pública, mobilidade e assistência social.
Ao revelar que cerca de 190 mil crianças tiveram o caminho escolar interrompido em pouco mais de dois anos e meio, a pesquisa expõe um problema que reúne violência, desigualdade territorial e discriminação racial.
A garantia do acesso à educação, segundo o levantamento, depende não apenas da existência de escolas, professores e vagas, mas também de condições para que os estudantes cheguem às salas de aula sem colocar a própria vida em risco.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












