Um novo relatório reforça a teoria de que a CIA ajudou o regime racista do apartheid, na África do Sul, a prender o líder da luta antirracista Nelson Mandela, em 1962.
Mandela foi julgado e condenado à prisão perpétua por sabotagem e tentativas de derrubar o regime sul-africano, apenas porque desafiou o apartheid, um sistema de segregação racial. Ele ficou confinado por mais de 27 anos antes de sua libertação (1990) e se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul pós-apartheid (1994) e um dos políticos mais influentes do mundo. Morreu em 2013, aos 95 anos.
Richard Stengel, colaborador da autobiografia de Mandela, Long Walk to Freedom, escreveu um artigo publicado na segunda-feira pela TIME.com sobre dados que confirmam a teoria de que a então administração do presidente dos EUA, John F. Kennedy, desempenhou um papel na prisão de Mandela.
Stengel revela que Mandela lhe disse em 1993 que tinha ouvido falar que um cônsul dos EUA com ligações à Agência Central de Inteligência (CIA) tinha informado as autoridades sul-africanas sobre os hábitos de sua viagem.
Em 2017, a CIA desclassificou documentos, descritos pela primeira vez por Stengel em seu novo artigo, que listavam Mandela e seu movimento do Congresso Nacional Africano (ANC) como “prováveis comunistas” e indicavam que a agência dos EUA estava rastreando o ativista antiapartheid enquanto ele viajava para fora da África do Sul.
Em última análise, diz Stengel, os detalhes aumentam significativamente as evidências de que a CIA estava rastreando Mandela e ajudou as autoridades sul-africanas a prendê-lo enquanto ele viajava de Durban para Joanesburgo em 1962.
Uma reportagem do jornal Johannesburg Star, em 1986 citou um “policial aposentado” que disse que a polícia sul-africana havia sido informada do paradeiro de Mandela por um diplomata americano em Durban que era “o agente da CIA naquela região”.
Em 2016, Donald Rickard, um oficial aposentado da CIA, disse ao diretor de cinema britânico John Irvin que havia informado a polícia sul-africana sobre Mandela.
“Entregamos Mandela ao ramo de segurança da África do Sul”, teria dito Ekel. “Demos a eles todos os detalhes, o que eu usaria, a hora do dia, exatamente onde eu estaria. Eles pegaram. É um dos nossos maiores golpes”, acrescentou.
Quatro anos depois, o Atlanta Journal-Constitution informou que um oficial de inteligência aposentado identificou um “operador de alto escalão da CIA” que deu à África do Sul detalhes completos sobre o paradeiro de Mandela.
Influência da Guerra Fria
Naquela época, quando Mandela estava liderando um movimento que poderia mudar o destino da África do Sul, os Estados Unidos e a antiga União Soviética estavam envolvidos na Guerra Fria e a África era um grande campo de batalha para as duas superpotências, com vários estados recém-independentes trabalhando oficialmente com os soviéticos ou suspeitos pela comunidade de inteligência dos EUA de fazê-lo.
A África do Sul do Apartheid foi aliada dos Estados Unidos e deu-lhe uma posição importante no continente. Também tinha um grande suprimento de urânio, que era um recurso estrategicamente importante na corrida armamentista nuclear.
Agora, Stengel se pergunta se seria melhor para a CIA admitir seu suposto papel na prisão de Mandela, dado que o governo dos EUA está atualmente tentando limitar a influência da China e da Rússia no continente negro, aumentando a sua própria. O primeiro passo para isso, diz Stengel, é esclarecer seu passado.
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