O mundo enfrenta uma das transições geopolíticas mais perigosas desde o fim da Guerra Fria. O enfraquecimento da ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos e a ascensão instável de um cenário multipolar têm gerado tensões que colocam a soberania nacional em xeque e ressuscitam práticas típicas do imperialismo clássico.
Em entrevista ao programa Direto da Redação, o pesquisador André Nascimento — doutorando em literatura hispânica na Universidade Cornell, com ênfase em estudos latino-americanos e filosofia política — analisa os desdobramentos mais críticos dessa crise.
Falando diretamente de Nova Iorque, Nascimento apresenta um diagnóstico alarmante: a administração Donald Trump está implementando o que especialistas denominam “Doutrina Monroe 2.0”, uma versão atualizada da política imperialista do século XIX que reivindicava a América Latina como área de influência exclusiva de Washington. Desta vez, porém, as ameaças não se limitam ao continente americano.
Venezuela: o precedente perigoso
A ofensiva estadunidense contra a Venezuela representa, segundo Nascimento, um precedente grave no sistema internacional. As ameaças abertas e o não reconhecimento do governo legítimo venezuelano sinalizam ao mundo que a violação da soberania nacional pode voltar a ser um instrumento aceitável de política externa.
“O que estamos vendo não é apenas uma disputa ideológica, mas a tentativa de estabelecer um novo padrão: o de que países podem ser subjugados pela força quando não se alinham aos interesses de Washington”, explica o analista.
A situação se agrava com o bloqueio do petróleo venezuelano destinado a Cuba, uma medida que afeta diretamente a economia cubana e demonstra o alcance das sanções unilaterais americanas.
Cuba na mira: resistência e mobilização
O governo cubano, alvo histórico da política externa dos EUA, enfrenta novas ameaças diretas da administração Trump. O discurso intimidatório de Washington encontra, no entanto, uma resposta de resistência e mobilização nacional em Havana.
“Cuba já passou por décadas de bloqueio e tentativas de desestabilização. A diferença agora é que Trump não esconde mais a linguagem imperial — ele a abraça publicamente”, observa Nascimento.
A ilha caribenha se prepara para um cerco ainda mais intenso, enquanto a comunidade internacional assiste, muitas vezes em silêncio, à escalada das tensões.
Groenlândia: disputa pelo Ártico e tensões no Ocidente
Em uma das declarações mais surpreendentes, Trump reivindicou o controle estratégico sobre a Groenlândia, território autônomo dinamarquês, sob o argumento de conter a influência de Rússia e China no Ártico. A movimentação provocou reação imediata da Dinamarca e de outros aliados europeus, revelando fissuras dentro do próprio bloco ocidental.
“A questão da Groenlândia não é apenas sobre recursos naturais ou rotas marítimas. É sobre como os EUA veem seus próprios aliados: como peças no tabuleiro geopolítico, não como parceiros soberanos”, analisa o pesquisador.
A tensão expõe contradições fundamentais na OTAN e na aliança transatlântica, justo quando a unidade do Ocidente é testada pela ascensão chinesa e pela guerra na Ucrânia.
Crise interna nos EUA: polarização e o possível impeachment
Paradoxalmente, enquanto projeta poder de forma agressiva no exterior, os Estados Unidos enfrentam turbulências internas significativas. A perseguição a imigrantes, protestos em grandes cidades como Los Angeles, polarização social profunda e reações no Congresso contra o que muitos parlamentares consideram abuso de poder imperial criam um cenário doméstico explosivo.
“Trump enfrenta uma situação inédita: sua política externa imperialista alimenta a crise interna. Há movimentos no Congresso que discutem abertamente um processo de impeachment, o que seria histórico em meio a uma crise geopolítica global”, revela o analista.
As eleições parlamentares podem alterar dramaticamente a correlação de forças em Washington, potencialmente limitando a capacidade de Trump de conduzir aventuras militares sem aprovação legislativa.
A possibilidade de Trump se tornar o primeiro presidente norte-americano a ser efetivamente penalizado por impeachment durante uma crise geopolítica global adiciona outra camada de incerteza ao já volátil cenário internacional.
Multipolaridade traumática
Para Nascimento, o mundo está atravessando o que ele chama de “multipolaridade traumática” — um período de transição onde o poder está distribuído de forma desigual, mas nenhuma potência consegue mais impor unilateralmente sua vontade sem resistência significativa.
“A ordem unipolar está morrendo, mas a multipolaridade ainda não nasceu de forma estável. Nesse limbo, a tentação de usar a força aumenta, porque as regras estão sendo reescritas e ninguém sabe exatamente onde estão os limites”, conclui o pesquisador.
A entrevista completa está disponível no Canal VIU!, no Youtube, na playlist Direto da Redação e oferece uma análise profunda de como o ressurgimento de práticas imperialistas coloca em risco não apenas países específicos, mas a própria arquitetura do sistema internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.
O que está em jogo, segundo Nascimento, não é apenas a soberania de Venezuela ou Cuba, mas a própria ideia de que o direito internacional e o respeito às fronteiras devem prevalecer sobre a força bruta.
Em suas palavras: “Se a comunidade internacional não reagir agora, estaremos legitimando um retorno ao século XIX, onde impérios simplesmente tomavam o que queriam pela força, sem constrangimentos ou consequências.”
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