Após mais de duas décadas de negociações, Mercosul e União Europeia estão prestes a oficializar um dos acordos comerciais mais amplos já construídos entre blocos econômicos.
A assinatura do tratado de livre comércio está marcada para este sábado (17), em Assunção, no Paraguai, encerrando um processo iniciado em 1999 e abrindo caminho para a integração econômica entre países da América do Sul e da Europa.
A cerimônia ocorrerá no teatro José Asunción Flores, sede do Banco Central paraguaio, local emblemático para o Mercosul, já que ali foi firmado, em 1991, o tratado que deu origem ao bloco. O Paraguai, atual presidente temporário do Mercosul, recebe autoridades sul-americanas e representantes da União Europeia.
O Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpre agenda paralela.
Embora a assinatura tenha caráter simbólico, ela marca o encerramento das negociações técnicas e políticas. O acordo agora entra na fase de ratificação, que depende da aprovação do Parlamento Europeu e dos congressos nacionais dos países do Mercosul. A expectativa do governo brasileiro é que esse processo avance ainda em 2026, com início gradual da vigência nos anos seguintes.
O tratado prevê a redução progressiva de tarifas sobre a maior parte do comércio entre os blocos. A União Europeia se compromete a eliminar tarifas de aproximadamente 95% dos produtos do Mercosul em até 12 anos.
Já os países sul-americanos deverão zerar tarifas de cerca de 91% dos bens europeus em um prazo que pode chegar a 15 anos. Setores industriais como automóveis, máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte estão entre os principais beneficiados.
No setor agropecuário, o acesso será mais controlado. Produtos considerados sensíveis na Europa, como carne bovina, frango, açúcar, arroz e etanol, entrarão por meio de cotas com tarifas reduzidas. Volumes acima desses limites continuarão sujeitos a taxação, medida que busca proteger produtores europeus e reduzir resistências políticas ao acordo.
O texto também incorpora compromissos ambientais, vinculando benefícios comerciais ao cumprimento de metas de sustentabilidade, combate ao desmatamento ilegal e respeito ao Acordo de Paris.
Caso essas obrigações não sejam cumpridas, o acordo prevê mecanismos de suspensão de vantagens, ponto frequentemente citado por governos para responder a críticas ambientais.
Além do comércio de bens, o tratado avança em áreas como serviços, investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual. Empresas do Mercosul poderão participar de licitações públicas na União Europeia, enquanto investidores europeus terão regras mais claras para atuar na América do Sul.
Pequenas e médias empresas também foram contempladas com medidas para reduzir burocracia e ampliar o acesso a mercados.
Para o Brasil, o acordo é visto como estratégico para ampliar exportações e diversificar parceiros comerciais. Projeções da ApexBrasil indicam potencial de aumento de cerca de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras, além de estímulo à atração de investimentos e à inserção do país em cadeias globais de valor.
Apesar das expectativas positivas, o tratado ainda enfrenta resistência, especialmente de agricultores europeus e organizações ambientais. Mesmo assim, a assinatura representa um marco histórico e pode dar origem à maior área de livre comércio do mundo, caso todas as etapas de ratificação sejam concluídas.
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