Nos festejos da virada de 2025 para 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, como palco para suas celebrações. Uma escolha carregada de simbolismo, considerando que, nos últimos anos, tem sido uma das raras ocasiões em que o presidente passou o Ano Novo na capital fluminense.
Este gesto sublinha a importância estratégica do estado do Rio para a política nacional, especialmente com as eleições de 2026 no horizonte.
O Rio de Janeiro, historicamente um termômetro político, permanece um bastião do bolsonarismo, uma posição que se solidificou ainda mais com os recentes desdobramentos na política regional. Para o Partido dos Trabalhadores (PT), conquistar espaço neste território é crucial para a eleição vindoura.
Contudo, o Partido Liberal (PL) tem fortalecido sua trincheira nas articulações pela disputa sucessória, notadamente após o afastamento do deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil) da presidência do legislativo, em decorrência da Operação Unha e Carne.
Bacellar e o governador Cláudio Castro, embora outrora aliados, encontravam-se em rota de colisão, com o legislativo chegando a abrir quatro Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) contra o governo Castro antes da queda de Bacellar.
A Operação Unha e Carne, no entanto, impôs um dique de contenção a essa disputa. Com a saída de Bacellar, o deputado estadual Guilherme Delaroli (PL), então 1º vice-presidente, assumiu a presidência da casa, consolidando o poder do PL tanto no legislativo quanto no executivo estadual.
Este ambiente é altamente favorável ao bolsonarismo no estado, a ponto de já se vislumbrar a possibilidade de o partido eleger dois senadores em terras fluminenses.
O governador Cláudio Castro, por sua vez, deverá se desincompatibilizar em março ou abril deste ano, articulando uma eleição indireta na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) para emplacar o secretário de Estado da Casa Civil, Nicola Miccione, como seu sucessor.
Outro dado relevante, embasado em pesquisas internas do PL nacional, é a viabilidade de Flávio Bolsonaro alcançar o segundo turno na disputa pela Presidência da República. Isso, na pior das hipóteses, garante um palanque robusto ao filho de Bolsonaro nos estados para fortalecer a bancada parlamentar na Câmara dos Deputados e no Senado, visando impor uma agenda da direita por meio do parlamento.
Neste cenário, a segunda vaga para o Senado no Rio levaria a uma opção por um bolsonarista raiz, com o deputado Hélio Negão (PL) sendo o nome mais cotado.
A eleição parlamentar, neste contexto, mostra-se tão crucial quanto a sucessão presidencial, moldando a capacidade da direita de impor sua agenda através do parlamento.
Para a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, a construção de um palanque sólido no estado é fundamental. Nomes como o secretário de Estado das Cidades e deputado licenciado, Douglas Ruas dos Santos, filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, o prefeito de Belford Roxo, Nelson Canella (União Brasil), são peças-chave neste tabuleiro que conta ainda com a mão visível do deputado Altineu Cortês (PL).
Ruas é cotado para ser o candidato do grupo à sucessão estadual. Ele vem da região metropolitana do Rio de Janeiro, especificamente do maior colégio eleitoral do Estado e com forte apelo bolsonarista. É bacharel em Direito, pós-graduado em Gestão Pública e policiai civil concursado.
Este projeto visa não apenas a eleição de Flávio, mas também a expansão da influência bolsonarista em importantes municípios fluminenses.

O PT vai com Paes
Do lado da esquerda, o PT aposta no palanque do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSB), pré-candidato à sucessão estadual. Paes, que conta com o apoio do presidente Lula e do PT, é, até o momento, o único nome consolidado com estrutura partidária e grupo político.
No entanto, seu projeto enfrenta reservas significativas. Críticos apontam que Paes opera em um círculo muito fechado e que, em suas últimas duas disputas eleitorais para o governo do estado, teve um bom início, mas um desempenho fraco na reta final, resultando em derrotas.
Sua influência ainda é predominantemente restrita à cidade do Rio de Janeiro, com um alcance limitado no restante do estado. A eventual ascensão de outros nomes pode pulverizar os votos, tornando sua jornada para o segundo turno desafiadora, dependendo dos adversários que enfrentar.
As alianças de Paes também apresentam vulnerabilidades. Na Baixada Fluminense, seu aliado, o prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB), enfrenta sérios problemas jurídicos, com uma condenação por crime ambiental praticamente transitada em julgado no Supremo Tribunal Federal (STF), além de preocupações com sua saúde.
Mais recentemente, Paes buscou uma aliança com a família Garotinho em Campos dos Goytacazes, uma manobra que pode gerar tanto apoio quanto resistência, dada a complexa história política da família na região.
O cenário para 2026 no Rio de Janeiro é, portanto, um intrincado xadrez político. De um lado, o bolsonarismo avança, capitalizando o descontentamento e consolidando sua base.
De outro, o PT e seus aliados buscam se reorganizar em torno de figuras como Eduardo Paes, que, apesar de sua força na capital, precisa expandir seu apelo e superar desafios internos e externos para competir efetivamente em um estado cada vez mais polarizado. A eleição fluminense promete ser um termômetro crucial para a política nacional, com desdobramentos que podem ecoar muito além das fronteiras do estado.
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