Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, compareceram nesta segunda-feira (5) ao tribunal federal de Nova York, onde se declararam inocentes de todas as acusações de narcotráfico e narcoterrorismo.
Mas o que ainda passa despercebido na cobertura internacional é que a denúncia americana não se limita ao casal presidencial: outros quatro nomes de peso do chavismo constam como réus no processo, todos permanecendo em território venezuelano e fora do alcance da Justiça dos Estados Unidos.
A acusação superseding (ampliada) apresentada pelo Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York revela uma estrutura criminosa que, segundo os promotores, operou por mais de 25 anos, transformando a Venezuela em uma “autoestrada da cocaína” para os Estados Unidos e enriquecendo a elite política e militar venezuelana através do narcotráfico.
Denunciados que permanecem livres na Venezuela
Além de Nicolás Maduro Moros e Cilia Adela Flores de Maduro, a denúncia americana nomeia como réus:
- Nicolás Ernesto Maduro Guerra – “Nicolasito” ou “O Príncipe”
O filho de Nicolás Maduro, de 35 anos, é deputado da Assembleia Nacional da Venezuela desde janeiro de 2021, onde continua exercendo mandato. Apelidado de “Nicolasito” e “O Príncipe”, ele é acusado pela Justiça americana de ter participado ativamente do esquema de tráfico de cocaína.
Segundo a denúncia, entre 2014 e 2015, Maduro Guerra visitava aproximadamente duas vezes por mês a Ilha Margarita em um avião Falcon 900 pertencente à PDVSA (Petróleos de Venezuela). Durante essas visitas, com a ajuda de sargentos armados, o avião era carregado com grandes pacotes envolvidos em fita que militares entendiam serem drogas.
A acusação afirma que Maduro Guerra estava presente durante o carregamento e, em uma ocasião, teria dito que “o avião poderia ir para onde quisesse, incluindo os Estados Unidos”.

Em 2017, segundo a denúncia, Maduro Guerra trabalhou para enviar centenas de quilos de cocaína da Venezuela para Miami, Flórida, chegando a discutir o envio de cocaína de baixa qualidade para Nova York e o uso de contêineres de sucata de metal para contrabandear a droga para portos americanos.
O documento também o acusa de ter participado, em 2020, de uma reunião em Medellín, Colômbia, com dois representantes das FARC, onde teria discutido arranjos para mover grandes quantidades de cocaína e armas através da Colômbia e para os Estados Unidos durante os próximos seis anos (até 2026), além de discutir o pagamento às FARC com armas em conexão com as cargas de cocaína.
Nesta segunda-feira, em pronunciamento reproduzido pela imprensa venezuelana, “Nicolasito” convocou mobilizações populares, denunciou “traições” dentro do chavismo e prometeu resistência. “Estamos bem, estamos calmos. Vão nos ver nas ruas, ao lado do povo”, declarou o deputado, que também participou da cerimônia de posse da vice-presidente interina Delcy Rodríguez.
- Diosdado Cabello Rondón – homem forte do regime
Atual Ministro do Interior, Justiça e Paz e vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Diosdado Cabello é amplamente reconhecido como um dos oficiais mais poderosos da Venezuela. Membro das Forças Armadas venezuelanas, Cabello ocupou diversos cargos de alto escalão: Chefe de Gabinete de Hugo Chávez (2001), Vice-Presidente da Venezuela (2002), Governador do Estado de Miranda (2004-2008) e Presidente da Assembleia Nacional (2012-2016).
A denúncia americana o acusa de ter sido peça-chave no “Cartel de Los Soles” (Cartel dos Sóis, referência à insígnia solar nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente). Segundo o documento:
- Em 2006, Cabello teria coordenado com outros membros do regime o envio de mais de 5,5 toneladas de cocaína da Venezuela para o México em um jato DC-9. Após a apreensão da droga pelas autoridades mexicanas, traficantes venezuelanos teriam pago aproximadamente US$ 2,5 milhões em suborno a Cabello através de um membro de sua família para garantir que os responsáveis pelo carregamento no aeroporto não fossem presos.
- Entre 2003 e 2011, enquanto ocupava diversos cargos oficiais, Cabello teria permitido que os Zetas (cartel mexicano) trabalhassem com traficantes colombianos para despachar contêineres de navios carregando 5 a 6 toneladas de cocaína cada, e às vezes até 20 toneladas, de portos venezuelanos para portos mexicanos e, finalmente, para os Estados Unidos. As dezenas de milhares de quilos de cocaína eram protegidas por oficiais militares venezuelanos referidos como “os generais”.
- Entre 2022 e 2024, Cabello teria viajado regularmente para pistas de pouso clandestinas controladas pelo ELN (Exército de Libertação Nacional) perto da fronteira Colômbia-Venezuela para garantir a passagem segura contínua da cocaína em território venezuelano.
- No final de 2024, Cabello teria recebido lucros de narcotráfico provenientes do tráfico de cocaína.
Cabello permanece em Caracas, onde assumiu papel de liderança após a captura de Maduro, e não há indicação de que os EUA tentem capturá-lo.
- Ramón Rodríguez Chacín – “O elo com as FARC”
Ex-Ministro do Interior e Justiça (2002-2008) e ex-Governador do Estado de Guárico (2012-2017), Rodríguez Chacín é descrito na denúncia como o principal elo entre o governo venezuelano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Segundo a acusação:
- Em 2008, Rodríguez Chacín mantinha uma grande propriedade no Estado de Barinas que continha um enorme acampamento e escola de treinamento das FARC, com aproximadamente 200 membros armados das FARC portando rifles automáticos a qualquer momento.
- Durante esse período, ele teria aceitado dezenas de milhares de dólares em subornos para usar sua influência corrupta para proteger um traficante de drogas em larga escala de prisão e extradição.
- Em reuniões subsequentes com o traficante entre 2008 e 2010, Rodríguez Chacín teria discutido o tráfico de quantidades de várias toneladas de cocaína com outros oficiais venezuelanos.
- Em 2018 e 2019, Rodríguez Chacín teria feito múltiplas viagens de Barinas a Caracas com um líder-chave das FARC para reuniões com Maduro, como parte de uma longa história de encontros regulares com membros das FARC e ELN tanto em seus acampamentos na selva quanto em Barinas.
- A denúncia afirma que Rodríguez Chacín era designado por Maduro para fornecer proteção e apoio às FARC e ao ELN, chegando a levar líderes das FARC para encontrar Maduro no Palácio Miraflores (palácio presidencial em Caracas) e em Fuerte Tiuna (principal complexo militar de Caracas e sede do Ministério da Defesa da Venezuela).
Seu paradeiro atual é desconhecido, mas acredita-se que esteja em território venezuelano.
- Héctor Rusthenford Guerrero Flores – “Niño Guerrero”, Líder do Tren de Aragua
O mais surpreendente dos denunciados é Héctor Guerrero Flores, conhecido como “Niño Guerrero”, descrito como líder ou co-líder do Tren de Aragua (TdA), a gangue transnacional que se originou como uma gangue prisional na Venezuela e expandiu sua rede criminal por todo o Hemisfério Ocidental, incluindo os Estados Unidos.
A denúncia detalha que Guerrero Flores
- Entre 2006 e 2008, trabalhou com um dos maiores traficantes de drogas da Venezuela, Walid Makled, cuja operação era protegida por membros do regime venezuelano. As remessas de cocaína eram transportadas de San Fernando de Apure para Valencia e depois enviadas por avião do aeroporto internacional de Valencia para o México e outros locais na América Central para eventual distribuição nos Estados Unidos.
- Entre 2008 e 2009, forneceu proteção para remessas de cocaína se movendo pela Venezuela para outro grande traficante venezuelano, fornecendo homens armados que carregavam, entre outras armas automáticas, AK-47s, MP5s e AR-15s, além de granadas. Às vezes, Guerrero Flores acompanhava pessoalmente grandes cargas de cocaína enquanto eram guardadas pelas equipes de homens armados, a caminho de aeroportos ou pistas de pouso para transporte ao norte e eventual distribuição aos Estados Unidos.
- Era pago uma taxa por quilograma de cocaína transportado ou recebido e às vezes recebia participação em porções dessas massivas remessas de cocaína em vez de pagamento.
- Em 2019, falando da base de operações do TdA na Prisão de Tocorón, Guerrero Flores discutiu tráfico de drogas com um indivíduo que ele entendia estar trabalhando com o regime venezuelano, oferecendo serviços de escolta para cargas de drogas, explicando que ele e o TdA tinham controle das costas do Estado de Aragua na Venezuela. Guerrero Flores confirmou a capacidade do TdA de proteger mais de uma tonelada de cocaína.
O Tren de Aragua foi designado como Organização Terrorista Estrangeira (FTO) pelo Departamento de Estado dos EUA em fevereiro de 2025, juntamente com o Cartel de Sinaloa e os Zetas.
“Sou prisioneiro de guerra”, declara Maduro
Durante a audiência desta segunda-feira no tribunal federal de Manhattan, Nicolás Maduro compareceu com algemas nos tornozelos e fone de ouvido para tradução. Vestindo um suéter azul marinho sobre uma camisa branca, ele declarou: “Eu sou inocente. Eu sou um homem decente. Eu sou um presidente” e ainda afirmou ser “um prisioneiro de guerra”.
Sua esposa, Cilia Flores, também se declarou inocente de todas as acusações. Ambos foram capturados em uma operação militar americana na madrugada de sábado (3) em Caracas e levados ao Centro de Detenção Metropolitano (MDC) no Brooklyn.
O casal responde por quatro crimes:
- Conspiração para o narcoterrorismo
- Conspiração para o tráfico de cocaína
- Posse de metralhadoras e dispositivos explosivos
- Conspiração para posse de armas para uso pelo narcotráfico
A próxima audiência foi marcada para 17 de março de 2026, quando Maduro e Cilia prestarão depoimento.
ONU condena operação americana
O Conselho de Segurança da ONU realizou nesta segunda-feira (05) uma reunião de emergência convocada pela Venezuela e apoiada pela Colômbia para discutir a operação militar americana que resultou na captura de Maduro.
O secretário-geral da ONU descreveu o ataque como um “precedente perigoso” para a ordem internacional. Brasil, China e Rússia criticaram duramente os Estados Unidos durante a sessão.
O representante americano, no entanto, classificou a ação não como uma operação militar, mas como uma “operação policial” destinada a levar à Justiça um “narcotraficante” acusado de crimes graves.
A Venezuela acusou os EUA de terem “sequestrado” Maduro e exigiu sua libertação imediata, descrevendo a operação como uma violação da soberania nacional.
“O Chile não reconhece o regime de Maduro, mas as graves violações de direitos humanos que a Venezuela enfrenta não têm uma solução militar”, disse o representante chileno, expressando a divisão existente na América Latina sobre o caso.
Trump: “Nós estamos no comando”
O presidente americano Donald Trump afirmou no domingo que os Estados Unidos estão “no comando” da Venezuela após a captura de Maduro. Quando questionado sobre quem está liderando o país sul-americano, Trump respondeu: “Isso significa que nós estamos no comando”.
A vice-presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu o cargo em Caracas “para garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da Nação”, mas sua autoridade é contestada tanto pelos EUA quanto pela oposição venezuelana liderada por Edmundo González.
O “Cartel de Los Soles”
A denúncia de 32 páginas apresentada pela Justiça americana traça um histórico de mais de duas décadas e meia sobre o que define como de posições de confiança pública por líderes venezuelanos para importar toneladas de cocaína para os Estados Unidos.
Segundo o documento, desde 1999, oficiais venezuelanos – incluindo Maduro, Cabello e Rodríguez Chacín – fizeram parceria com narcoterroristas das FARC, ELN, Cartel de Sinaloa, Zetas e Tren de Aragua para usar a Venezuela como ponto de transbordo de cocaína.
O Departamento de Estado americano estimou que, até 2020, entre 200 e 250 toneladas de cocaína eram traficadas através da Venezuela anualmente. As remessas marítimas eram enviadas da costa venezuelana usando embarcações rápidas, barcos de pesca e navios contêiner. Remessas aéreas eram frequentemente despachadas de pistas de pouso clandestinas feitas de terra ou grama, e também de aeroportos comerciais sob controle de oficiais governamentais e militares corruptos.
O sistema de corrupção alimentado por drogas, segundo a acusação, enriqueceu oficiais civis, militares e de inteligência em um sistema de patronagem administrado pelos que estão no topo – referido como “Cartel de Los Soles”, em referência à insígnia do sol nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente.
Perspectivas do julgamento
Se condenados por todos os crimes, Maduro e Cilia Flores podem enfrentar prisão perpétua. A acusação de narcoterrorismo sozinha pode resultar em pena de prisão perpétua ou pena de morte.
Para os outros quatro denunciados – Nicolás Maduro Guerra, Diosdado Cabello, Ramón Rodríguez Chacín e Héctor Guerrero Flores -, que permanecem livres na Venezuela, os Estados Unidos terão que decidir se tentarão novas operações de captura ou se manterão apenas mandados de prisão internacionais através da Interpol.
Trump já ameaçou “ampliar ações na região”, sugerindo que outras operações militares podem estar sendo planejadas. O governo venezuelano, por sua vez, ordenou a prisão de “todos” os americanos envolvidos na captura de Maduro.
Um caso que divide o mundo
O caso Maduro expõe não apenas décadas de alegada corrupção e narcotráfico na Venezuela, mas também as profundas divisões geopolíticas sobre como lidar com regimes autoritários. Enquanto os EUA celebram a captura como vitória na guerra contra as drogas, aliados como Brasil, China e Rússia condenam o que veem como violação do direito internacional.
Para a Venezuela, o drama está longe do fim. Com Maduro e Cilia presos em Nova York, outros quatro poderosos acusados livres em território venezuelano, e uma liderança interina contestada em Caracas, o país enfrenta sua maior crise institucional em décadas – uma crise construída, segundo os promotores americanos, sobre 25 anos de cocaína, corrupção e violência.
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