No coração do Rio de Janeiro, a Avenida Presidente Vargas foi tomada por uma celebração que uniu cultura, política e resistência nesta quinta-feira (20), Dia da Consciência Negra. O monumento a Zumbi dos Palmares, líder quilombola símbolo da luta contra a escravidão e pela liberdade dos negros no Brasil, recebeu um público diverso, composto por famílias, jovens, artistas e ativistas, que participaram de uma programação que destacou a riqueza da cultura afro-brasileira e a necessidade de reparação histórica.
A festa começou com apresentações de samba, maracatu e afoxé, reunindo centenas de pessoas em cortejos que homenagearam figuras históricas como Tia Ciata, matriarca do samba carioca, e outros líderes culturais negros. Entre as atrações, a gastronomia afro-brasileira teve papel de destaque, com pratos inspirados em tradições africanas, como os de Moçambique e África do Sul, além da clássica feijoada brasileira. O buffet foi comandado por Carol Paixão, empreendedora que defende a chamada economia preta — movimento que busca fortalecer o capital dentro da comunidade negra, criando oportunidades de emprego, autonomia financeira e valorizando fornecedores negros. Segundo Carol, iniciativas desse tipo promovem um ciclo de solidariedade e crescimento comunitário, além de gerar visibilidade para talentos negros na gastronomia e nos negócios.

O evento também teve forte caráter político e social. Luiz Eduardo Oliveira, o Negrogun, presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine), ressaltou que a celebração é um momento de reflexão sobre a necessidade de reparação pelos mais de 300 anos de escravidão que marcaram a história da população negra no Brasil. O Cedine, que reúne representantes do governo e ativistas, tem papel central na formulação de políticas públicas voltadas à igualdade racial.
Bia Nunes, presidente da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro (Acquilerj), reforçou a importância das comunidades quilombolas na preservação de territórios e da biodiversidade brasileira. Atualmente, essas comunidades somam cerca de 1,3 milhão de pessoas, mas enfrentam desafios significativos: oito em cada dez comunidades quilombolas têm acesso precário a saneamento básico, o que compromete saúde e qualidade de vida. Nunes destacou que políticas públicas mais robustas são essenciais para garantir direitos fundamentais, infraestrutura e valorização cultural.

O escritor e ativista Gê Coelho trouxe à tona a relação entre favelas e quilombos. Para ele, as favelas contemporâneas são herdeiras da resistência quilombola, criando formas próprias de organização social, conhecimento e cultura frente à opressão estrutural. Coelho defende a criação de universidades nas favelas, permitindo que jovens estudem e contem sua própria história, preservando a memória comunitária e fortalecendo o protagonismo negro.
O caráter político do evento foi reforçado pelo deputado federal Reimont (PT-MG), que afirmou que a luta contra o racismo é responsabilidade de toda a sociedade. A coordenadora Rose Cipriano, do Comitê Estadual da Segunda Marcha Nacional das Mulheres Negras, aproveitou o encontro para convidar a população para a marcha em Brasília, marcada para 25 de novembro, que deve reunir cerca de 1 milhão de pessoas reivindicando reparação histórica, representatividade e bem-viver.
O evento também teve uma dimensão internacional. O cônsul-geral de Angola no Rio de Janeiro, Mateus de Sá Miranda Neto, lembrou da conexão histórica entre Brasil e Angola, destacando a herança do colonialismo português e a importância do mês de novembro para a independência angolana. A presença do diplomata reforçou a ideia de que a luta negra ultrapassa fronteiras e que a memória africana é fundamental para compreender a história brasileira.
Entre música, dança, gastronomia, debates e homenagens, o Dia da Consciência Negra no monumento de Zumbi dos Palmares reafirmou a persistência da população negra brasileira em lutar por direitos, visibilidade e reconhecimento, ao mesmo tempo em que fortalece a economia, a cultura e a memória histórica da ancestralidade africana. A celebração mostrou que a cultura negra não é apenas patrimônio imaterial, mas também ferramenta de resistência, fortalecimento comunitário e transformação social.
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