A megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou mais de 120 mortos, segue cercada de dúvidas e versões conflitantes.
Enquanto o governo estadual e as forças de segurança defendem a ação como “legal e necessária” para desarticular a cúpula do Comando Vermelho (CV), especialistas e organizações de direitos humanos cobram transparência sobre as circunstâncias das mortes, o uso de câmeras corporais e a situação dos corpos encontrados na área de mata.
Entre as perguntas sem resposta estão: o que aconteceu com as gravações das câmeras policiais, como se deu o chamado “muro do Bope”, de que forma ocorreram as mortes na mata e quem eram, de fato, as vítimas.
Câmeras corporais
O secretário da Polícia Militar, Marcelo de Menezes, afirmou que o uso de câmeras corporais foi adotado durante a megaoperação, cumprindo requisitos da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF das Favelas.
Segundo ele, “todos os protocolos foram observados”, e as imagens teriam registrado parte das ações.
As baterias das câmeras, com duração de cerca de 12 horas, podem ter se esgotado durante os confrontos. A operação foi preparada por volta das 3h da manhã e começou oficialmente às 5h. A falta de recarga pode ter comprometido parte das gravações.
Ainda não está claro quantos policiais estavam equipados com câmeras, quantas gravações foram feitas e quais serão disponibilizadas para investigação.
“Muro do Bope”
As forças de segurança montaram o chamado “Muro do Bope”, estratégia em que tropas cercaram os criminosos pela Serra da Misericórdia, empurrando-os para a mata.
Segundo Menezes, a medida buscava “proteger moradores” e conter o avanço dos confrontos.
Entretanto, ainda não há informações sobre como essa tática contribuiu para o número elevado de mortos, nem quantos dos 120 óbitos ocorreram na região cercada.
Corpos encontrados na mata
Autoridades de segurança afirmam que não sabiam da presença de corpos na mata durante a operação.
De acordo com o secretário de Segurança Pública, Victor Santos, a prioridade era preservar a vida dos agentes em meio ao tiroteio.
Ainda não se sabe o número exato de corpos encontrados nem como será feita a identificação das vítimas. Também não há definição sobre o retorno de equipes periciais ao local para análises independentes.
O secretário da Polícia Civil, Carlos Oliveira, informou que moradores e familiares retiraram dezenas de corpos da mata, antes que a perícia pudesse atuar.
Mais de 70 corpos foram levados para uma praça da Penha, o que, segundo ele, configura possível fraude processual.
A 22ª Delegacia instaurou inquérito para investigar a remoção indevida. As autoridades buscam entender como essa ação pode impactar o andamento das investigações e a identificação das vítimas.
Cúpula do Comando Vermelho
A operação foi resultado de investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, que expediu 180 mandados de busca e 100 de prisão — 70 no Rio e 30 no Pará.
Foram presos 113 suspeitos, mas poucas lideranças da facção foram capturadas.
Entre os detidos estão Thiago do Nascimento Mendes, o Belão do Quitungo, e Nicolas Fernandes Soares, operador financeiro de Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, apontado como principal chefe da organização.
O governador Cláudio Castro declarou que “todas as mortes ocorreram em confronto” e que “não havia inocentes na mata”, apesar de as identidades das vítimas ainda não terem sido confirmadas.
Edgar Alves Andrade, o Doca da Penha, segue foragido.
Apontado como líder do tráfico na região, ele é investigado por mais de 100 homicídios e tem recompensa de R$ 100 mil por informações que levem à sua captura.
De acordo com o Ministério Público, Doca coordenava ações criminosas à distância, determinando execuções e punições por meio de mensagens e vídeos em aplicativos.
Até esta quinta-feira (30), o Instituto Médico Legal (IML) Afrânio Peixoto havia identificado parte dos 121 mortos — quatro policiais e 117 suspeitos.
Muitos dos corpos ainda aguardam identificação, especialmente os de outras unidades da federação.
O IML utiliza bancos de dados de outros estados para cruzar informações e liberar os corpos às famílias.
As forças de segurança apreenderam 118 armas de fogo, entre elas 91 fuzis, 26 pistolas e 1 revólver.
A PM classificou o número como “recorde histórico”.
Ainda não foi detalhado quantas armas estavam com os mortos e quantas foram encontradas em áreas abandonadas.
O que diz o Ministério Público
A denúncia do Ministério Público do Rio descreve uma estrutura hierárquica do Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão.
O documento acusa 69 pessoas de associação ao tráfico e apresenta provas como trocas de mensagens e vídeos de líderes criminosos coordenando as ações.
Entre os principais alvos estão Doca, Pedro Bala, Gardenal, Grandão e BMW.
O MP afirma que os criminosos usavam drones e aplicativos para monitorar viaturas e organizar a venda de drogas.
Repercussão política e social
A operação gerou forte reação. Organizações de direitos humanos pedem uma investigação independente e o uso integral das imagens das câmeras corporais.
Deputados da Comissão de Direitos Humanos da Câmara — Talíria Petrone, Henrique Vieira, Reimont e Benedita da Silva — desembarcaram no Rio para acompanhar as apurações e visitar o IML.
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