A inteligência artificial pode parecer uma tecnologia que existe apenas na tela do computador ou do celular, mas cada pergunta enviada a um chatbot depende de uma grande estrutura física. Por trás de uma resposta estão servidores de alta capacidade, data centers, sistemas de resfriamento e uma quantidade significativa de energia para manter tudo funcionando.
Com a expansão da IA, outro problema começa a ganhar atenção: o descarte dos equipamentos utilizados para sustentar esses sistemas. Processadores e outros componentes empregados nos data centers evoluem rapidamente e podem ser substituídos em poucos anos por versões mais potentes. O resultado é um aumento potencial na quantidade de equipamentos eletrônicos descartados.
Crescimento da IA também aumenta o lixo eletrônico
O Global E-waste Monitor 2024 estima que o mundo gerou cerca de 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022. Desse volume, apenas 22,3% foi coletado e reciclado de maneira considerada adequada.
Na América Latina, a situação é ainda mais delicada. Segundo o Regional E-waste Monitor for Latin America 2022, apenas 2,7% dos resíduos eletrônicos gerados na região foram coletados formalmente para reciclagem, enquanto 97,3% ficaram fora desse sistema. A média mundial de coleta era de 17%, enquanto a Europa apresentava índice de 50%.
Com a inteligência artificial sendo incorporada a cada vez mais atividades, a demanda por capacidade de processamento tende a crescer. Isso significa também uma necessidade maior de servidores, GPUs e outros componentes, que precisam ser substituídos conforme novas gerações de equipamentos chegam ao mercado.
Energia é outro ponto de atenção
O impacto ambiental da IA não está limitado ao lixo eletrônico. O treinamento de modelos avançados pode exigir milhares de servidores funcionando por longos períodos, o que aumenta a demanda por eletricidade.
Depois que um modelo é treinado, há ainda o processo chamado de inferência, que ocorre quando o sistema recebe uma solicitação e gera uma resposta. De acordo com informações da Universidade das Nações Unidas citadas no levantamento, essa etapa pode representar entre 80% e 90% do consumo energético relacionado à inteligência artificial.
O avanço dos modelos também contribui para o aumento da demanda. Sistemas mais sofisticados costumam exigir maior capacidade computacional, embora melhorias de eficiência possam reduzir a quantidade de energia necessária para determinadas tarefas.
Data centers também precisam de água
Outro recurso envolvido no funcionamento da IA é a água. Grandes data centers precisam controlar o calor produzido pelos equipamentos e, dependendo da tecnologia utilizada, os sistemas de resfriamento podem consumir volumes significativos do recurso.
O CEO da OpenAI, Sam Altman, afirmou que uma consulta ao ChatGPT utiliza aproximadamente 0,32 mililitro de água para o resfriamento. O consumo, porém, pode variar conforme o data center, o sistema de refrigeração, a localização e as condições de operação.
Por isso, pesquisadores avaliam o impacto ambiental da IA considerando não apenas o consumo direto de energia, mas também a água utilizada para resfriamento e os recursos empregados na fabricação dos equipamentos.
Impactos ainda não são totalmente conhecidos
Apesar dos dados disponíveis, ainda existem lacunas importantes sobre o impacto ambiental provocado pela expansão da inteligência artificial.
Golestan (Sally) Radwan, diretora digital do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), afirmou que ainda há informações insuficientes para dimensionar completamente esse impacto. Segundo ela, é necessário acompanhar os efeitos da tecnologia e buscar garantir que sua expansão produza benefícios ambientais e sociais que compensem os custos associados à infraestrutura.
Outro desafio é o chamado efeito rebote: mesmo quando os equipamentos e os modelos ficam mais eficientes, o consumo total pode continuar aumentando se o uso da tecnologia crescer em ritmo ainda maior.
Uma tecnologia digital com uma estrutura física
Embora a inteligência artificial seja apresentada ao usuário como uma ferramenta digital, seu funcionamento depende de uma cadeia que envolve mineração e fabricação de componentes, servidores, chips, redes de comunicação, eletricidade, água e descarte de equipamentos.
O crescimento da IA, portanto, amplia também a discussão sobre como tornar essa infraestrutura mais eficiente e reduzir a quantidade de recursos necessários para manter os sistemas funcionando.
A preocupação ambiental não significa apenas buscar modelos que consumam menos energia por consulta. Também envolve prolongar a vida útil dos equipamentos, melhorar a reciclagem de componentes eletrônicos, utilizar fontes de energia menos intensivas em carbono e desenvolver sistemas de resfriamento com menor consumo de água.
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