A forma como informações políticas circulam na internet pode ter impacto direto no debate eleitoral. Com a expansão das ferramentas de inteligência artificial e dos conteúdos produzidos digitalmente, pesquisadoras defendem que o Brasil amplie a fiscalização das plataformas e adote mecanismos capazes de reduzir a disseminação de materiais manipulados.
O assunto foi discutido nesta terça-feira (15), durante o webinário “Tecnologias, IA e Eleições”, promovido pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras. Participaram do encontro Fernanda Rodrigues, diretora executiva do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), e Larissa Santiago, cofundadora da plataforma de comunicação independente Blogueiras Negras.
Algoritmos influenciam o conteúdo exibido
Durante o debate, Fernanda Rodrigues chamou atenção para o papel dos algoritmos utilizados pelas redes sociais para selecionar e recomendar publicações aos usuários.
Segundo a pesquisadora, esses sistemas acabam influenciando quais informações ganham maior visibilidade. Para ela, é necessário estabelecer regras mínimas que permitam ao usuário ter maior controle sobre os conteúdos que recebe e que reduzam a possibilidade de mecanismos automatizados reproduzirem vieses discriminatórios.
A discussão ocorre em um cenário no qual conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial já fazem parte da disputa política nas redes sociais. Levantamento divulgado pelo Observatório IA nas eleições apontou que quase dois em cada três conteúdos políticos produzidos com IA analisados entre janeiro e agosto não apresentavam indicação do uso da tecnologia.
Fiscalização e educação midiática
Larissa Santiago avaliou que o Brasil possui, em comparação com outros países, uma estrutura regulatória de inteligência artificial que considera positiva. Na avaliação dela, porém, ainda são necessários mecanismos mais eficientes de fiscalização e investimentos em educação midiática.
A pesquisadora destacou também a dificuldade enfrentada por parte da população para identificar quando uma imagem, voz ou representação digital foi criada artificialmente. Com o avanço das ferramentas de IA generativa, conteúdos cada vez mais realistas podem dificultar a distinção entre pessoas reais e materiais produzidos por tecnologia.
Para Santiago, ampliar a capacidade de compreensão da população sobre esses recursos é uma medida importante diante da presença crescente da inteligência artificial no ambiente político.
Deepfakes entram no debate eleitoral
Outro ponto levantado durante o webinário foi o uso de inteligência artificial para produzir desinformação e conteúdos manipulados, incluindo os chamados deepfakes.
Larissa Santiago relacionou esse tipo de material aos riscos de violência política de gênero e raça. Ao abordar o tema, ela mencionou a circulação de imagens e informações distorcidas durante o processo que levou ao impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, em 2016.
O episódio ocorreu antes da popularização das atuais ferramentas de IA generativa. A pesquisadora utilizou o caso para discutir como conteúdos manipulados podem influenciar o debate público e como as novas tecnologias ampliam a capacidade de produção e disseminação desse tipo de material.
Uso de IA já é acompanhado nas eleições de 2026
A preocupação com conteúdos sintéticos também aparece em levantamentos realizados durante a atual campanha eleitoral. Segundo dados divulgados pelo Observatório IA nas eleições, criado pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, foram identificados 413 conteúdos políticos produzidos com inteligência artificial entre 1º de janeiro e 16 de agosto.
Do total analisado, 250 foram classificados como sátira e outros 163 como desinformação. O levantamento também apontou que uma parcela significativa das publicações não informava ao público que havia utilizado inteligência artificial.
Outro levantamento, divulgado pelo Observatório Lupa, identificou pelo menos 37 conteúdos produzidos com IA em contas oficiais de candidatos. Segundo a análise, nenhum deles apresentava indicação da manipulação digital.
Debate envolve plataformas, tecnologia e democracia
A discussão sobre o uso da inteligência artificial nas eleições envolve não apenas os conteúdos publicados por candidatos e usuários, mas também o funcionamento das próprias plataformas digitais.
A definição de quais publicações são recomendadas, a identificação de materiais produzidos artificialmente e a capacidade dos usuários de compreender esse tipo de conteúdo estão entre os pontos que vêm sendo discutidos por pesquisadores e entidades.
O debate ocorre em meio à campanha eleitoral de 2026, período em que redes sociais e ferramentas de inteligência artificial passaram a ocupar espaço cada vez maior na circulação de informações políticas. Nesse contexto, especialistas defendem a combinação de fiscalização, regras para as plataformas e educação midiática como formas de ampliar a capacidade da população de avaliar o conteúdo que recebe.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.












