A Meta — empresa controladora do Facebook e Instagram — lucrou US$ 16 bilhões com anúncios fraudulentos em 2024, o equivalente a 10,1% de toda sua receita anual, segundo documentos internos obtidos pela agência Reuters. O material revela a dimensão do problema: as plataformas chegam a exibir 15 bilhões de anúncios falsos por dia, além de 22 bilhões de conteúdos suspeitos “orgânicos”, que incluem perfis hackeados, golpes com criptomoedas, promessas de curas milagrosas e anúncios fraudulentos no Facebook Marketplace.
Um cálculo feito pelo analista Nick Heer, com base nos 3,5 bilhões de usuários que a Meta afirma ter, indica que cada pessoa é exposta a cerca de 10 conteúdos fraudulentos por dia.
A situação se agrava devido ao próprio sistema algorítmico da empresa, que tende a recomendar mais conteúdos suspeitos a usuários com histórico de interação com golpes — ampliando a vulnerabilidade de pessoas mais predispostas a cair nesse tipo de fraude.
Como usuários não podem bloquear anúncios no Facebook e no Instagram, especialistas sugerem que se adote uma postura de desconfiança generalizada em relação aos conteúdos patrocinados nas plataformas.
Moderação insuficiente e tolerância a golpistas
A reportagem destaca ainda diretrizes internas que limitavam a atuação das equipes de moderação: a Meta orientava que a remoção de anúncios fraudulentos não poderia afetar mais de 0,15% da receita, o equivalente a US$ 135 milhões sobre os US$ 90 bilhões registrados no primeiro semestre de 2025.
Os números mostram um sistema falho e permissivo
- Em 2023, 96% das mais de 100 mil denúncias semanais de anúncios fraudulentos foram ignoradas ou julgadas de forma incorreta.
- Golpistas reincidentes podem ser identificados até oito vezes antes de serem banidos; grandes anunciantes têm tolerância ainda maior — nem 500 violações seriam suficientes para uma punição definitiva.
- Os mecanismos automatizados só barram anúncios com 95% de certeza de fraude; casos menos óbvios rendem mais dinheiro à companhia, já que são veiculados normalmente.
- A Meta estima que eventuais multas seriam menores que o lucro obtido com anúncios fraudulentos — reforçando a lógica de que “o crime compensa” para a empresa.
O escritor e ativista digital Cory Doctorow classificou o Facebook como o “exemplo mais icônico” do processo de deterioração comercial e ética das big techs, fenômeno que ele denomina de “enshittification”.
Brasil também enfrenta explosão de golpes em anúncios
No Brasil, um estudo do Projeto Brief, baseado na biblioteca de anúncios da própria Meta, mostrou que 52% dos anúncios que continham o termo “empréstimo” em setembro de 2025 apresentavam indícios de fraude, e 9% eram golpes confirmados.
Decisão do STF aumenta risco jurídico para plataformas
A publicação do acórdão do Supremo Tribunal Federal (STF) que torna parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet também pressiona as plataformas.
O tribunal estabeleceu que empresas como a Meta podem ser responsabilizadas por danos causados por conteúdos ilícitos impulsionados, ou seja, anúncios pagos. No voto, o ministro Luiz Fux argumentou que, ao obter lucro direto com publicidade, as plataformas devem assumir ônus mais elevados de verificação.
A coincidência entre a decisão do STF e as revelações da Reuters chama atenção e pode acelerar o debate sobre regulação das big techs no Brasil.
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