Três estudos clínicos publicados em 27 de janeiro na revista Nature Medicine indicam que o transplante de microbiota fecal pode ampliar de forma significativa a eficácia da imunoterapia em pacientes com câncer. As pesquisas envolvem pacientes com tumores renais, pulmonares e de pele e apontam benefícios especialmente para aqueles que não respondem adequadamente ao tratamento imunoterápico isolado.
Os estudos foram conduzidos na Itália e no Canadá e demonstraram que a modulação do microbioma intestinal por meio do transplante fecal aumentou as taxas de resposta tumoral e prolongou o tempo em que os pacientes permaneceram sem progressão da doença. Um achado considerado surpreendente pelos pesquisadores foi a constatação de que o efeito clínico esteve mais relacionado à eliminação de bactérias prejudiciais do que à simples introdução de microrganismos considerados benéficos.
Resultados expressivos no câncer de rim
Um dos trabalhos de maior destaque foi o estudo italiano TACITO, um ensaio clínico randomizado e duplo-cego coordenado pela Università Cattolica del Sacro Cuore e pela Fondazione Policlinico Gemelli IRCCS, em Roma. A pesquisa envolveu 45 pacientes com câncer de rim metastático.
Os participantes receberam transplante de microbiota fecal proveniente de doadores que responderam bem à imunoterapia ou placebo, associados ao tratamento oncológico padrão. A sobrevida livre de progressão mediana chegou a 24 meses no grupo que recebeu o transplante fecal, contra nove meses no grupo placebo, representando uma redução de cerca de 50% no risco de progressão da doença. A taxa de resposta objetiva também foi superior entre os pacientes que receberam o transplante.
Para o pesquisador Gianluca Ianiro, investigador principal do estudo, o TACITO representa o primeiro ensaio clínico randomizado a comparar diretamente os efeitos da imunoterapia após transplante fecal de doadores responsivos em relação ao placebo.
Estudos canadenses confirmam benefícios
Resultados semelhantes foram observados em estudos realizados no Canadá. O ensaio PERFORM, de fase inicial, liderado por pesquisadores da Western University, avaliou cápsulas de transplante fecal de doadores saudáveis combinadas à imunoterapia em pacientes com câncer renal metastático. Cerca de metade dos participantes apresentou resposta tumoral, incluindo casos de resposta completa.
Outro estudo, o FMT-LUMINate, conduzido pela Universidade de Montreal, acompanhou pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas e melanoma. Entre os pacientes com câncer de pulmão, 80% apresentaram redução tumoral quando o transplante fecal foi associado à imunoterapia, índice consideravelmente superior às taxas tradicionalmente observadas com o tratamento isolado. No grupo de melanoma, a taxa de resposta também superou os padrões históricos.
Eliminação de bactérias nocivas é chave
As análises apontaram que o benefício terapêutico não se deveu ao enxerto duradouro das bactérias dos doadores, mas à remoção de espécies bacterianas que inibem a resposta imunológica. Entre os microrganismos associados a piores respostas estavam espécies dos gêneros Enterocloster, Clostridium e Dialister.
Os pesquisadores destacaram ainda a importância da seleção criteriosa dos doadores. No grupo de melanoma, foram observados eventos adversos graves com maior frequência quando os doadores apresentavam altas concentrações de determinadas bactérias, o que reforça a necessidade de cautela em estudos futuros.
Para Giampaolo Tortora, professor da Università Cattolica del Sacro Cuore, já é bem estabelecido que a microbiota intestinal influencia o sistema imunológico. Segundo ele, modular esse ecossistema pode se tornar uma estratégia complementar relevante para melhorar os resultados da imunoterapia no tratamento do câncer.
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