Pesquisadores da Universidade de Manchester desenvolveram um exame de sangue experimental capaz de detectar glioblastoma — uma das formas mais agressivas de câncer cerebral — com mais de 90% de precisão. O avanço pode, no futuro, permitir que a doença seja identificada por meio de um teste simples, semelhante aos exames rápidos utilizados durante a pandemia de Covid-19.
O estudo foi publicado na revista científica Neuro-oncology Advances e apresenta um método baseado na identificação de dois biomarcadores presentes no plasma sanguíneo: o fator IX de coagulação e a proteína oligomérica da matriz da cartilagem (COMP). A combinação desses dois indicadores permite diferenciar pacientes com glioblastoma de pessoas saudáveis com alto grau de precisão.
A pesquisa foi liderada pela professora Petra Hamerlik, especialista em neuro-oncologia translacional da Universidade de Manchester, em colaboração com cientistas da Dinamarca. Segundo a pesquisadora, mesmo sendo um tumor conhecido pela grande diversidade genética e pela capacidade de mudança ao longo do tempo, os sinais detectados no sangue se mostraram estáveis.
Durante o estudo, o exame foi aplicado em pacientes em diferentes fases do tratamento, incluindo cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Os cientistas observaram que os níveis dos biomarcadores variavam conforme a evolução da doença.
De acordo com os resultados, quando o tumor voltava a crescer, os níveis dos marcadores aumentavam. Já durante a quimioterapia, os indicadores tendiam a diminuir novamente, o que sugere que o teste também pode ser útil para acompanhar a resposta ao tratamento.
Diagnóstico menos invasivo
Atualmente, a identificação de tumores cerebrais depende principalmente de exames de imagem, como a ressonância magnética, e muitas vezes exige biópsias cirúrgicas. Para os pesquisadores, um exame de sangue poderia facilitar a triagem inicial e ajudar médicos a decidir quando um paciente precisa ser encaminhado para exames mais complexos.
Segundo Hamerlik, pacientes com sintomas como dores de cabeça persistentes costumam procurar atendimento médico várias vezes antes de serem encaminhados para exames específicos. Um teste sanguíneo poderia ajudar a identificar sinais de alerta mais rapidamente.
A expectativa dos pesquisadores é que, no futuro, a tecnologia possa resultar em um dispositivo simples de triagem clínica, semelhante a testes rápidos, que poderia ser utilizado em consultas médicas para indicar a necessidade de investigação por imagem.
Testes clínicos continuam
Para confirmar os resultados, ensaios clínicos adicionais estão sendo conduzidos em seis centros de pesquisa no Reino Unido e em outras instituições internacionais. Os cientistas também pretendem avaliar se o método poderá ser adaptado para detectar outros tipos de tumores cerebrais.
Especialistas destacam que a detecção precoce pode fazer diferença significativa no tratamento do glioblastoma. Tumores identificados em fases iniciais tendem a ser menores, o que pode reduzir danos ao tecido cerebral e melhorar as possibilidades terapêuticas.
Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que novas etapas de validação científica e aprovação regulatória ainda serão necessárias antes que o exame possa ser incorporado à prática clínica.
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