Muito sal já é conhecido por seus efeitos negativos sobre a saúde, mas uma nova pesquisa levantou outra questão: uma restrição excessiva também poderia afetar o funcionamento do cérebro? Um estudo publicado na revista científica Food Research International encontrou prejuízos de memória em camundongos submetidos tanto a dietas com pouco quanto com muito sal.
O experimento durou 14 semanas e utilizou camundongos cuja microbiota intestinal havia sido substituída por microrganismos de origem humana. Os animais foram divididos entre dietas com teor normal, baixo ou alto de sal. No estudo, a alimentação considerada normal continha 0,5% de sal; a dieta restritiva, 0,1%; e a de alto consumo, 8%.
Nos testes de memória de trabalho e reconhecimento, os animais submetidos aos dois extremos apresentaram desempenho inferior ao grupo que recebeu a dieta considerada normal. Os pesquisadores também encontraram redução de proteínas relacionadas ao funcionamento das sinapses no hipocampo, área do cérebro diretamente envolvida na formação de memórias.
Embora o resultado final tenha sido semelhante, os mecanismos observados foram diferentes. A dieta com muito sal esteve associada ao aumento de bactérias com perfil pró-inflamatório, maior presença de citocinas inflamatórias no sangue e alterações no metabolismo. Já a dieta com baixo teor de sal não provocou a mesma resposta inflamatória sistêmica, mas foi associada à redução da produção de metabólitos da microbiota intestinal, incluindo ácidos graxos de cadeia curta.
Os achados reforçam o interesse dos pesquisadores pelo chamado eixo intestino-cérebro, sistema de comunicação entre a microbiota intestinal, substâncias produzidas no organismo e o sistema nervoso. No entanto, há uma limitação importante: o estudo foi realizado em animais e não demonstra que pessoas que reduzem o consumo de sal dentro das recomendações de saúde terão perda de memória.
Por isso, os resultados não devem ser interpretados como recomendação para aumentar o sal da alimentação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) continua orientando que adultos consumam menos de 2 gramas de sódio por dia, o equivalente a menos de 5 gramas de sal, aproximadamente uma colher de chá considerando todas as fontes alimentares. A orientação busca principalmente reduzir pressão arterial e risco de doenças cardiovasculares.
A própria pesquisa destaca que serão necessários novos estudos para compreender até que ponto os mecanismos identificados em camundongos também ocorrem em seres humanos e quais níveis de restrição poderiam representar risco. Por enquanto, o trabalho acrescenta uma nova peça à investigação sobre a relação entre alimentação, microbiota intestinal e saúde cerebral.
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