Investimentos em prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças podem gerar impactos que vão muito além da saúde da população. No Brasil, a adoção de medidas consideradas eficazes e custo-efetivas poderia evitar cerca de 739 mil mortes prematuras e acrescentar mais de R$ 1 trilhão ao Produto Interno Bruto (PIB) até 2050.
As estimativas fazem parte do estudo “A saúde das nações: saúde mais forte, economias mais fortes”, elaborado pelo McKinsey Health Institute e apresentado nesta terça-feira (6), durante um encontro de jornalistas da América Latina, em San José, na Costa Rica.
Segundo Brad Herbig, diretor de dados de Saúde do instituto, aumentar os recursos destinados à área é importante, mas os resultados dependem também de como os investimentos são direcionados.
“É crucial olhar para as evidências científicas e garantir que elas ocupem lugar central nos espaços onde as decisões são tomadas. E também usar essas evidências para comunicar quais ações são necessárias”, afirmou.
Investir em saúde também pode impulsionar a economia
O levantamento aponta que os investimentos em saúde podem ser considerados também uma estratégia de desenvolvimento econômico. Uma população mais saudável tende a apresentar maior produtividade, menos afastamentos provocados por doenças e melhores condições para permanecer no mercado de trabalho.
“Os investimentos na saúde das pessoas não são gastos, eles também são bons para o crescimento do país, para a melhora da competitividade econômica e afetam muitos outros aspectos”, destacou Herbig.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram cerca de 300 intervenções de saúde respaldadas por evidências científicas e consideradas custo-efetivas. As medidas estão relacionadas a 90 doenças e 27 fatores de risco, que representam aproximadamente 85% dos principais problemas de saúde observados no mundo.
O estudo considerou ações de prevenção coletiva e individual, além de diferentes tipos de tratamentos médicos.
Entre as estratégias avaliadas estão políticas para reduzir o consumo de tabaco e álcool, medidas de proteção de trabalhadores expostos a poluentes, vacinação em larga escala, exames preventivos e tratamentos realizados no momento adequado.
Expectativa de vida poderia chegar a 85 anos
No cenário brasileiro, o estudo estima que a adoção das medidas analisadas poderia aumentar a expectativa de vida em aproximadamente cinco anos, chegando a 85 anos.
O período vivido com boa saúde também poderia crescer. A projeção aponta que os brasileiros poderiam viver, em média, 76 anos em boas condições de saúde, nove anos a mais do que o cenário considerado atualmente.
O impacto econômico também foi estimado pelos pesquisadores. Para cada US$ 1 investido em intervenções de saúde consideradas eficazes, o Brasil poderia obter US$ 2,10 adicionais no PIB.
De acordo com o estudo, esse retorno estaria principalmente relacionado ao aumento da produtividade provocado pela redução de mortes prematuras e pela diminuição do tempo em que as pessoas permanecem doentes ou incapacitadas.
Os benefícios também podem alcançar crianças e seus familiares. A prevenção e o tratamento adequado de doenças durante a infância podem favorecer a continuidade dos estudos e reduzir o impacto sobre responsáveis que precisam conciliar trabalho e cuidados.
Prevenção concentra boa parte dos resultados
Cerca de 59% do impacto total estimado para o Brasil viria de medidas preventivas, tanto individuais quanto voltadas à população em geral.
Entre as estratégias apontadas estão políticas tributárias e financeiras para desestimular o consumo de produtos associados ao desenvolvimento de doenças, como bebidas alcoólicas, tabaco e alimentos ultraprocessados.
No âmbito individual, o controle de fatores de risco cardiovasculares aparece entre as prioridades, principalmente por meio do acompanhamento da pressão arterial.
O estudo também considera ações para combater a obesidade, como alimentação adequada e atividade física, além do uso de medicamentos para perda de peso quando houver indicação.
Entre os tratamentos, o cuidado adequado de pacientes com câncer aparece entre as medidas com maior potencial de impacto. Também são citados o acesso a medicamentos psiquiátricos e a ampliação da disponibilidade de equipamentos e insumos médicos.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que os resultados não necessariamente aparecem de forma imediata. Algumas medidas podem produzir benefícios somente depois de vários anos, enquanto outras apresentam efeitos em períodos mais curtos.
Doenças respiratórias e transtornos mentais estão entre os focos
O levantamento também avaliou os chamados anos de vida perdidos, indicador que considera tanto mortes prematuras quanto períodos vividos com algum tipo de incapacidade.
Doenças respiratórias crônicas e transtornos de saúde mental estão entre as condições com maior potencial de redução desses impactos. Segundo a projeção, as perdas relacionadas a esses problemas poderiam cair até 46% até 2050.
Para doenças cardiovasculares e condições relacionadas a deficiências nutricionais, a redução estimada chega a pelo menos 40%. Nos problemas associados ao abuso de substâncias, a queda poderia alcançar 39%.
Já as perdas relacionadas ao diabetes e às doenças renais poderiam ser reduzidas em aproximadamente 35% com a implementação das medidas analisadas.
América Latina ainda investe pouco em prevenção
O estudo também avaliou a situação da América Latina. Segundo o levantamento, os países da região destinam, em média, 3,7% do PIB à saúde, enquanto a média registrada entre países de alta renda chega a 7,9%.
Outro desafio está na distribuição desses recursos. Menos de 5% dos investimentos em saúde na América Latina são direcionados à prevenção, embora esse tipo de intervenção represente 61% das medidas apontadas pelo estudo como capazes de reduzir mortes prematuras e problemas de saúde.
A pesquisa também chama atenção para o aumento dos anos vividos com doenças e incapacidades. A expectativa de vida na região vem crescendo desde a década de 1950, mas o período vivido com problemas de saúde também aumenta e pode superar 12 anos em 2050 caso as intervenções recomendadas não sejam ampliadas.
O envelhecimento da população é outro fator de pressão sobre os sistemas de saúde. Segundo o estudo, a América Latina está envelhecendo em um ritmo mais acelerado do que ocorreu em muitos países desenvolvidos, que tiveram mais tempo para adaptar suas estruturas econômicas e de atendimento.
Obesidade aparece entre os principais fatores de risco
Além do envelhecimento, fatores relacionados ao estilo de vida também contribuem para o aumento das doenças crônicas na região.
A obesidade está entre as principais preocupações apontadas pelo levantamento. De acordo com Herbig, a América Latina apresenta algumas das maiores taxas de obesidade do mundo, o que contribui para o crescimento de doenças como o diabetes.
Nesse cenário, mudanças nos hábitos alimentares e a prática de atividades físicas podem desempenhar um papel importante na redução dos fatores de risco e na prevenção de doenças.
Mudanças climáticas também preocupam
As projeções do estudo também consideram os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde. O aumento de eventos extremos de temperatura pode elevar o risco de determinadas doenças e agravar condições já existentes.
Medidas de saúde pública podem ajudar a reduzir parte desses efeitos. O controle da qualidade do ar, por exemplo, pode contribuir para diminuir a incidência de doenças respiratórias tanto no cenário atual quanto diante das mudanças ambientais previstas.
Para o McKinsey Health Institute, os resultados mostram que políticas de saúde podem produzir efeitos simultâneos sobre a longevidade, a qualidade de vida e a economia. A combinação entre mais investimentos e a escolha de medidas comprovadamente eficazes pode ser decisiva para transformar esse potencial em resultados concretos até 2050.
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