Alterações no microbioma intestinal podem estar relacionadas a sinais precoces de envelhecimento cerebral, mesmo antes do aparecimento de problemas mais claros de memória ou raciocínio.
A conclusão aparece em um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, que analisou exames cerebrais e dados biológicos de aproximadamente 1.500 adultos.
Os cientistas compararam a idade cronológica dos participantes com uma estimativa da idade biológica do cérebro.
Para isso, utilizaram exames capazes de observar como diferentes regiões cerebrais se comunicam enquanto a pessoa está em repouso. A partir dessas informações, foi criado um modelo que estimava se o funcionamento do cérebro apresentava características compatíveis com uma idade maior ou menor do que a idade real do participante.
Quando o cérebro parecia mais velho do que o esperado, os pesquisadores classificavam o quadro como sinal de envelhecimento cerebral acelerado.
Desempenho cognitivo também foi analisado
Depois dessa estimativa, os resultados foram comparados com testes de memória, raciocínio e outros indicadores de saúde.
Nos diferentes grupos estudados, pessoas com maior envelhecimento cerebral apresentaram desempenho inferior em tarefas relacionadas à memória de trabalho e às chamadas funções executivas.
Essas capacidades são fundamentais para atividades do dia a dia, como manter a concentração, organizar tarefas, planejar ações, tomar decisões e lidar com várias informações ao mesmo tempo.
Os pesquisadores também encontraram associação entre maior idade cerebral estimada e presença mais frequente de sintomas depressivos.
As alterações envolveram áreas relacionadas à memória e regiões ligadas à forma como o indivíduo percebe e interpreta a própria experiência.
Microbioma entrou na investigação
Em parte dos participantes, os pesquisadores também analisaram o microbioma intestinal, conjunto de bactérias e outros micro-organismos presentes no sistema digestivo.
Os resultados indicaram que alguns tipos de bactérias e substâncias produzidas durante o metabolismo estavam associados a cérebros com características de envelhecimento mais acelerado.
Entre os compostos observados estavam moléculas relacionadas ao metabolismo de gorduras e colesterol, além de diferenças em determinados hormônios e outras substâncias biológicas.
Esses elementos participam de processos como resposta imunológica, funcionamento dos vasos sanguíneos, produção de energia e comunicação entre células nervosas.
Mudanças podem começar muitos anos antes
O estudo reforça a ideia de que o envelhecimento cerebral não começa apenas quando surgem esquecimentos ou dificuldades cognitivas perceptíveis.
Alterações biológicas podem ocorrer de forma silenciosa durante anos ou até décadas antes de sintomas mais evidentes.
Compreender esses sinais pode, no futuro, ajudar na identificação de pessoas com maior risco de declínio cognitivo ou alterações de humor.
Relação ainda não prova causa e efeito
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo identificou uma associação, e não uma relação direta de causa e efeito.
Isso significa que ainda não é possível afirmar que determinadas bactérias intestinais acelerem o envelhecimento do cérebro.
Também não está estabelecido que modificar o microbioma, por meio de alimentação, probióticos ou outras intervenções, seja capaz de retardar esse processo.
Novos estudos serão necessários para entender melhor como intestino e cérebro se influenciam ao longo da vida.
Eixo intestino-cérebro ganha espaço na ciência
A pesquisa se soma a uma área que vem recebendo crescente atenção científica: o chamado eixo intestino-cérebro.
Essa conexão envolve sinais do sistema imunológico, substâncias produzidas por micro-organismos, hormônios e vias nervosas que permitem comunicação constante entre o sistema digestivo e o cérebro.
A expectativa é que o avanço das pesquisas ajude a esclarecer se essa relação poderá, no futuro, contribuir para novas estratégias de prevenção e acompanhamento de doenças neurológicas e alterações relacionadas ao envelhecimento.
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