A infância do século XXI já não é a mesma. Se antes as brincadeiras de rua, o contato com a natureza e o convívio com os pais eram partes fundamentais do desenvolvimento infantil, hoje o cenário é dominado por telas, conexões digitais e um tempo cada vez mais limitado longe dos celulares. E essa mudança já preocupa especialistas em saúde física e emocional.
A pediatra Renata Aniceto, com quase 30 anos de consultório e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), afirma que o impacto das telas já é visível no dia a dia clínico.
“Prescrevo às famílias duas horas de brincadeira no parque, jogos de tabuleiro, cozinhar juntos. É um retrocesso. Muitos pais já não sabem brincar com seus filhos porque também foram criados sob o domínio das telas”, alerta.
Segundo ela, não é só a saúde física que está em jogo. Comportamentos como ansiedade, depressão e dificuldades cognitivas estão cada vez mais presentes em crianças e adolescentes.
Mais brincadeira, menos tela
A recomendação de especialistas é clara: reduzir o tempo de tela e aumentar o tempo de convivência, diálogo e atividades ao ar livre. A SBP recomenda os seguintes limites de tempo frente às telas:
- De 0 a 2 anos: nenhum contato com telas, mesmo passivamente;
- De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, com supervisão;
- De 6 a 10 anos: até 2 horas por dia, também supervisionadas;
- De 11 a 18 anos: 2 a 3 horas por dia, evitando o uso noturno.
Além dos impactos no comportamento, a pediatra alerta que o excesso de telas pode comprometer o desenvolvimento do cérebro, dificultando o foco, a memória e a resolução de problemas, além de aumentar a obesidade pela redução do movimento corporal.
Brincar é essencial
A professora da Universidade de Brasília (UnB), Angela Uchoa Branco, especialista em desenvolvimento infantil, reforça que o contato humano e a brincadeira livre são pilares fundamentais para o crescimento emocional e social.
“Contação de histórias, leitura antes de dormir, jogos de tabuleiro, brincadeiras ao ar livre e contato com a natureza estimulam a criatividade, o afeto e o gosto pela leitura”, afirma.
Leitura como alternativa às telas
A diretora da ONG Vaga Lume, Lia Jamra, que atua na Amazônia Legal, destaca que a leitura é um recurso poderoso para combater o excesso de telas.
“A leitura fortalece o repertório, a visão de mundo e o sonho. É fundamental que os pais leiam para as crianças. Na Amazônia, é comum ver crianças brincando fora de casa, o que contribui para um desenvolvimento mais saudável”, destaca.
Sono: dormir bem é parte da saúde
Outro impacto direto do uso excessivo de telas está no sono. A luz azul emitida por celulares e tablets atrasa a produção de melatonina, dificultando o início do sono e sua qualidade. A pediatra Renata Aniceto lembra que o sono é responsável por processos essenciais:
“Durante o sono, o cérebro fixa os aprendizados do dia e o corpo produz hormônios como o do crescimento, além de regular a fome e a saciedade. Dormir mal pode impactar no peso, na memória e no comportamento da criança”, explica.
Diálogo: a base da educação
A professora Angela Uchoa reforça a importância de educar com diálogo e respeito, estabelecendo limites com afeto e sem punições físicas.
“Respeito gera respeito. É preciso conversar com a criança, elogiar o que ela faz bem, demonstrar amor. Isso fortalece a autoestima e a segurança emocional”, completa.
Alimentação: tudo começa na introdução alimentar
A partir dos 6 meses, quando começam os primeiros dentinhos, tem início a introdução alimentar, uma fase decisiva para a formação dos hábitos alimentares da criança. A professora Diana Barbosa Cunha, do Instituto de Medicina Social da UERJ, explica que o exemplo familiar é fundamental.
“A introdução deve ser tranquila. Até os 2 anos, a criança deve estar adaptada à alimentação da família, baseada em alimentos naturais e minimamente processados. Os ultraprocessados devem ser evitados”, orienta.
Ela destaca ainda a importância de envolver a criança nas escolhas e no preparo dos alimentos: levá-las à feira, pedir ajuda para lavar e cortar alimentos, tudo isso fortalece a relação com a comida.
Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












