Quase 1,8 milhão de brasileiros se identificam com a umbanda, o candomblé e outras religiões de matriz africana. Apesar da expansão registrada na última década, integrantes dessas tradições ainda encontram dificuldades para participar das discussões políticas e conquistar atenção para suas reivindicações.
Com a aproximação das eleições de outubro, a distância entre o crescimento dessas comunidades e sua presença nas campanhas voltou ao centro do debate.
Os dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que o número de adeptos das religiões afro-brasileiras mais que triplicou em relação a 2010. O levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou aproximadamente 1,8 milhão de pessoas com 10 anos ou mais pertencentes a essas tradições, o equivalente a 1% da população dessa faixa etária.
Para lideranças religiosas e pesquisadores, entretanto, o aumento no número de praticantes não foi acompanhado pelo reconhecimento de suas necessidades nas propostas políticas.
Entre as principais preocupações estão a liberdade de culto, o enfrentamento da intolerância religiosa, a proteção dos terreiros e a ampliação da participação de seus integrantes nas decisões que afetam suas comunidades.
Preconceito histórico dificulta reconhecimento das comunidades
A concentração das atenções eleitorais em grupos religiosos mais numerosos é apontada por representantes dos povos de terreiro como um dos fatores que limitam sua presença nas campanhas.
Católicos e evangélicos, que representam juntos 83,6% dos brasileiros com 10 anos ou mais, possuem ampla presença no debate público. Já as comunidades afro-brasileiras relatam dificuldades para fazer com que suas reivindicações sejam consideradas nas propostas dos candidatos.
A advogada e umbandista Lívia dos Santos associa essa diferença à discriminação histórica enfrentada pelas religiões de origem africana. Em sua avaliação, o desconhecimento sobre as tradições dos terreiros favorece a reprodução de preconceitos e dificulta a construção de relações entre representantes políticos e essas comunidades.
A situação também afeta a identificação dos eleitores com os candidatos. Para integrantes do segmento, a participação política precisa contemplar questões relacionadas à liberdade religiosa, à segurança dos espaços de culto e ao enfrentamento da discriminação.
Terreiros também são espaços de organização comunitária
A influência social das religiões afro-brasileiras ultrapassa as cerimônias e atividades espirituais. Em diferentes regiões do país, os terreiros desenvolvem iniciativas ligadas à cultura, à educação, à preservação de conhecimentos tradicionais e ao fortalecimento das relações comunitárias.
O pai de santo Leonardo Vieira, pesquisador do Grupo de Pesquisas sobre Povos de Terreiro da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que essas atividades também representam formas de participação política.
Segundo ele, a organização das comunidades não depende exclusivamente de partidos, candidaturas ou mandatos eletivos.
As relações estabelecidas nos terreiros envolvem decisões coletivas, mobilização de pessoas e ações voltadas às necessidades dos integrantes e de seus territórios.
O pesquisador também questiona a percepção de que o tamanho desse segmento religioso significaria pouca capacidade de mobilização.
Para Vieira, as comunidades possuem formas próprias de articulação, que podem contribuir para ampliar sua participação nas discussões públicas e nas eleições.
Intolerância religiosa limita participação pública
A possibilidade de sofrer hostilidade em razão da própria crença é outro obstáculo enfrentado por integrantes das religiões de matriz africana.
Lideranças religiosas relatam que a exposição pública pode provocar constrangimentos, ameaças e até agressões, especialmente em ambientes onde manifestações de preconceito ainda são frequentes.
Esse cenário pode dificultar a participação em eventos políticos, encontros comunitários e atividades de campanha.
Enquanto manifestações de outros segmentos religiosos costumam ocupar espaços de destaque na agenda eleitoral, integrantes dos povos de terreiro apontam a necessidade de considerar as dificuldades específicas enfrentadas por suas comunidades.
O reconhecimento público dessas tradições envolve, portanto, questões relacionadas à segurança, ao respeito às diferenças e à garantia de participação em igualdade de condições.
Brasil registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa
Os dados oficiais mostram que a discriminação motivada pela religião continua presente no cotidiano brasileiro.
Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o Disque Direitos Humanos recebeu 2.774 denúncias de intolerância religiosa em todo o país.
Entre os registros nos quais a crença foi identificada, as religiões de matriz africana aparecem com números expressivos. Foram contabilizadas 228 denúncias relacionadas à umbanda, 161 ao candomblé, 47 classificadas conjuntamente nas duas tradições e outras 40 envolvendo diferentes religiosidades afro-brasileiras.
Agência Gov
Os números representam as ocorrências comunicadas ao serviço e não abrangem necessariamente todos os episódios de discriminação.
A subnotificação também é uma preocupação, já que pessoas atingidas podem deixar de denunciar por medo de represálias ou por desconhecimento dos canais disponíveis.
Legislação brasileira garante liberdade de crença
A Constituição Federal assegura a liberdade religiosa e protege o direito de cada pessoa exercer sua crença, participar de cerimônias e manter espaços destinados às práticas espirituais.
O Código Penal prevê punições para condutas como impedir ou perturbar cerimônias religiosas e praticar ofensas públicas contra pessoas por motivo de crença.
A legislação também estabelece sanções para atos discriminatórios relacionados à religião.
Essas garantias se aplicam às diferentes tradições religiosas e integram os mecanismos de proteção contra a intolerância.
A liberdade de crença, entretanto, não se limita ao exercício privado da religião. Ela também envolve o direito de participar da vida pública sem sofrer discriminação em razão da identidade religiosa.
Como denunciar a intolerância religiosa
Vítimas ou testemunhas de discriminação podem procurar o Disque Direitos Humanos, pelo número 100.
O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia, inclusive nos fins de semana e feriados.
As denúncias são registradas e encaminhadas aos órgãos responsáveis pela apuração das ocorrências e pela adoção das providências cabíveis.
Em situações de violência em andamento ou ameaça imediata, a Polícia Militar pode ser acionada pelo telefone 190.
Eleições de 2026 ampliam discussão sobre representatividade
A proximidade da votação de outubro traz novamente à discussão a presença das comunidades religiosas nas decisões políticas do país.
Para os representantes dos povos de terreiro, o debate envolve o reconhecimento das diferentes tradições, a proteção contra a intolerância e a consideração de demandas que ultrapassam o campo religioso.
Os dados do Censo revelam o crescimento das religiões afro-brasileiras, enquanto os registros de discriminação demonstram que seus integrantes ainda enfrentam obstáculos para exercer plenamente seus direitos.
A discussão sobre a participação dessas comunidades nas eleições também chama atenção para suas formas de organização social, suas necessidades e sua presença na construção da diversidade cultural brasileira.
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